LIVROS DA FUVEST
Série do Jornal da USP aborda as obras exigidas no exame de ingresso para a USP
Geografia, leitura obrigatória da Fuvest, traz a contemplação da natureza e a dimensão humana
Autora do livro, Sophia de Mello Breyner Andresen, uma das mais importantes poetas portuguesas, destaca também as paisagens do Brasil
Arte sobre foto: Divulgação/Fundação Calouste Gulbenkian
Com um olhar poético que alia a sociedade à natureza, o livro Geografia, de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919–2004), está entre as leituras obrigatórias para os estudantes candidatos da Fuvest 2027. A autora destaca-se como uma das mais importantes da literatura de Portugal.
Em entrevista ao Jornal da USP, Fernando Breda, pesquisador em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo, orienta os vestibulandos sobre a importância da escritora. “Sophia de Mello Breyner Andresen é, sem dúvida, um dos grandes nomes da poesia portuguesa e também da cultura portuguesa como um todo, haja vista sua influência em artistas de diferentes campos culturais, como cinema, música, artes plásticas etc.”
Breda continua: “Se você, estudante, for procurar, por exemplo, uma lista dos maiores poetas portugueses, você verá nomes como Camões, Fernando Pessoa e também Sophia de Mello Breyner Andresen. Além disso, ela foi a primeira mulher portuguesa a receber o Prêmio Camões, o prêmio literário em língua portuguesa de maior prestígio internacional. Estamos falando, portanto, de uma autora que não apenas goza de enorme prestígio hoje, como teve seu trabalho reconhecido já em vida.”
Sophia e sua poesia internacional
Fernando Breda passou os últimos meses na cidade do Porto, em Portugal, pesquisando, entre outros temas, a literatura de Sophia de Mello Breyner Andresen. “Ela nasceu em 1919 na cidade do Porto, onde passou os primeiros anos de sua vida. Na juventude, estudou Filologia Clássica na Universidade de Lisboa e no começo da década de 1940 começa a publicar seus poemas, que vão ser reunidos em livros pela primeira vez em 1944”, observa. “Daí em diante, ela passa a ter uma produção literária bastante ativa e constante, destacando-se numa época considerada como a ‘era de ouro’ da poesia portuguesa. Ao longo da vida, também se projetou no cenário cultural por seu trabalho como tradutora e pela publicação de livros voltados para as crianças. Suas edições de poemas circularam intensamente, inclusive fora de Portugal.”

Fernando Breda, doutorando em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da FFLCH-USP - Foto: Júlio César Bazanini / USP Imagens
Professor experiente em cursos preparatórios para o vestibular, Breda reforça que “observar aspectos da biografia de Sophia pode ajudar na compreensão de sua obra. Ela nasceu em uma família bem estabelecida financeiramente. Por conta disso, pôde ter uma formação cultural erudita”, avalia. “Foi uma mulher que teve uma educação formal muito superior aos homens e mulheres portugueses do seu tempo. Por mais que, hoje, a gente tenha uma imagem de Portugal associada a uma ideia de Europa e de Primeiro Mundo, é importante lembrar que essa é uma imagem que tem a ver com coisas que aconteceram em Portugal sobretudo da década 1980 em diante.”
Breda compara: “Por exemplo, em 1930, quando Sophia tinha 11 anos, cerca de 61,8% da população portuguesa com mais de sete anos era analfabeta; e mesmo em 1960, quase um terço de Portugal, 31,1%, era analfabeto. Então, ela não só teve acesso a uma educação formal muito superior à maior parte da população portuguesa, incluindo homens e mulheres, como toda essa erudição se desdobra diretamente em seu trabalho”.
Para pontuar esse conhecimento erudito, o pesquisador assinala que Sophia de Mello Breyner Andresen traduziu para o português O purgatório, de Dante Alighieri , Hamlet, de Willian Shakespeare, e Medeia, do dramaturgo grego Eurípedes. “Além disso, traduziu do português para o francês quatro poetas fundamentais de Portugal: Camões, Cesário Verde, Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa. Ela não apenas tinha o conhecimento de várias línguas, como sabia sobre a produção poética ligada ao que se chama de ‘cultura clássica’. E era também muito atenta à poesia moderna – inclusive aquela que vinha sendo produzida no Brasil.”



Edições do livro Geografia - Foto: Reprodução / Edições Ática, Assírio e Alvim e Poesia de Bolso
Clique no player para conferir o vídeo com a análise de Fernando Breda, doutorando em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da FFLCH-USP
Geografia entre tensões do regime salazarista
Geografia reúne 60 poemas divididos em sete partes: Ingrina, Procelária, A noite e a casa, Dual, Mediterrâneo, Brasil ou do outro lado do mar e No poema. “É o oitavo livro de Sophia de Mello Breyner Andresen, publicado em 1967 entre as tensões do regime salazarista. Do ponto de vista pessoal, a edição se materializa num momento difícil para a escritora”, afirma Fernando Breda. “Isso porque seu marido ficou preso entre 1966 e 1968 por conta de sua oposição à política de Salazar.”
O professor considera: “Este fato evidencia, no entanto, algo maior: como as tensões políticas em Portugal estavam se intensificando ao longo do tempo e como a década de 1960 foi especialmente importante neste sentido. Primeiro porque, cada vez mais, a sociedade portuguesa ia percebendo, sentindo e vivenciando as contradições do projeto colonial português, marcado pela violência e pelo autoritarismo”.
Breda analisa: “Os portugueses se deparavam com a violência fascista tanto na repressão interna das dissidências políticas, como pouco a pouco iam tomando contato com fissuras no mito português de um certo colonialismo benevolente. Assim, uma certa ideia de que a ocupação colonial portuguesa teria sido mais branda ia também se dissipando entre os portugueses – claro que não completamente porque, afinal, tem gente que defende isso até hoje –, à medida que os relatos sobre o que se passava nas colônias iam chegando por meio dos soldados que retornavam da guerra, muitas vezes absolutamente traumatizados. Nesse sentido, Geografia é um livro que conjuga a poética do mar com o momento de agudização das contradições do fascismo português”.

António de Oliveira Salazar, estadista português, em um discurso público na Praça do Comércio em Lisboa: livro apresenta tensões políticas em Portugal - Foto: Reprodução / Youtube RTP
Uma homenagem ao Brasil
do outro lado do mar
Descobrimento abre a sexta parte do livro denominada Brasil ou do outro lado do mar. Fernando Breda explica: “Esses poemas criam a imagem de um Brasil que serve, no livro, como uma espécie de contraponto a Portugal que toma forma em outros poemas. Ou seja, trata-se de um Brasil algo idealizado e que também aparece sob um olhar marcado pelo colonialismo, mas que nem por isso deixa de ser também uma homenagem da autora ao país”.
De forma lírica e mobilizando um repertório associado aos relatos de viagem de expedições marítimas do século 18, a poeta, descrevendo as expansões marítimas, diz:
Um oceano de músculos verdes
Um ídolo de muitos braços como um polvo
Caos incorruptível que irrompe
E tumulto ordenado
Bailarino contorcido
Em redor dos navios esticados
Atravessamos fileiras de cavalo
Que sacudiram suas crinas nos alísios
O mar tornou-se de repente muito novo e muito antigo
Para mostrar as praias
E um povo
De homens recém-criados ainda cor de barro
Ainda nus ainda deslumbrados
Sophia de Mello Breyner Andresen expressa também toda a sua admiração por Manuel Bandeira. Eis um pequeno trecho:
Este poeta está
Do outro lado do mar
Mas reconheço a sua voz há muitos anos
E digo ao silêncio os seus versos devagar
Relembrando
O antigo jovem tempo tempo quando
Pelos sombrios corredores da casa antiga
Nas solenes penumbras do silêncio
Eu recitava
“As três mulheres do sabonete Araxá”…
A poeta também cita Brasília com as suas formas e arquitetura, vendo na construção da cidade o encontro da natureza com a paisagem humana.
Brasília
Desenhada por Lúcio Costa Niemeyer e Pitágoras
Lógica e lírica
Grega e brasileira
Ecuménica
Propondo aos homens de todas as raças
A essência universal das formas justas
E ainda o Poema de Helena Lanari, onde Sophia observa o jeito brasileiro de falar português do Brasil e compara:
Gosto de ouvir o português do Brasil
Onde as palavras recuperam sua substância total
Concretas como frutos nítidos como pássaros
Gosto de ouvir a palavra com suas sílabas todas
Sem perder sequer um quinto de vogal
Quando Helena Lanari dizia o “coqueiro”
O coqueiro ficava muito mais vegetal
Sobre esses poemas dedicados ao Brasil, o pesquisador Fernando Breda lembra que a autora Sophia de Mello Breyner Andresen visitou o Brasil pela primeira vez em 1966 a convite do governo militar brasileiro e destaca a presença de referências culturais como o modo principal pelo qual o eu lírico criado por Sophia se aproxima do País.
Sugestões para os vestibulandos/leitores
Na função de pesquisador, professor e estudante, Fernando Breda sugere aos vestibulandos e leitores: “Procurem observar os modos como a construção da linguagem que é feita pelo eu lírico nesses poemas acaba por criar relações complexas entre espaço, um elemento fundamental do livro já desde o título, e todo um conjunto de temas, que abrangem uma série de tópicos superpresentes na nossa vida: o fazer poético em si, o amor, o sentimento que temos diante das atrocidades do mundo, o tempo que se passa antes de dormir, as angústias diante das injustiças do passado, a revolta frente às desigualdades e violências do presente…”.
Breda continua orientando: “Enfim, diria que a leitura do livro se torna muito mais interessante à medida que a gente se abra para as convenções do gênero poético e se permita se deixar atravessar por essas descrições dos espaços como formas de tomarmos contato com o jeito de se expressar, narrar, representar, experienciar aquilo que, às vezes, quase não olhamos no nosso dia a dia. Ou, pelo contrário, experienciar algo justamente que é das coisas mais corriqueiras, mas com uma perspectiva em ver sentidos mais profundos para as coisas mais banais”.
Enfim, o professor Fernando Breda aconselha aos vestibulandos e leitores se dedicarem a conhecer Geografia sem pressa. “Não se preocupem em ‘matar’ essa leitura, mas se permitam tomar contato com os textos uma, duas, três vezes para que possam ir revendo as sensações que têm no trato com eles. Afinal, em poesia, é comum que a escrita tente torcer e retorcer a linguagem para alcançar justamente um significado que não se encontraria à vista, um sentido específico que não se ‘alcança’, digamos, apenas pelas palavras a que estamos habituados. Por outro lado, como se trata de uma leitura com vista a uma prova, é importante também vocês observarem como a poesia de Sophia tem uma certa peculiaridade nesse sentido e que também dialoga profundamente com a obra de um poeta brasileiro, que é o João Cabral. A sua poesia é antes de tudo marcada pelos substantivos, pela concretude das imagens, como se se tomasse que a presença dos adjetivos fosse retirar a força da imagem em prol de uma descrição subjetivista do eu lírico. Assim, seus poemas tendem à concisão e à brevidade.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919–2004), uma das mais importantes autoras da literatura de Portugal - Foto: Wikipedia
E desse combinado de coisas, a gente tem um livro que tem um olhar muito atento ao espaço, tomado ali como um catalisador para a apreensão de sentidos de temas bastante diversos. Tudo isso, num contexto de desde a produção poética, com destaque para as tensões políticas em Portugal e reservando um lugar bastante especial ao Brasil dentro do atlas poético que é formado por esse conjunto de poemas. Desejo uma boa leitura e excelentes resultados na Fuvest 2027.”

A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.
