A vida em Cuba sob asfixia energética: como é o dia a dia do povo após o agravamento das sanções dos EUA

Por Gabriel Vera Lopes05/08/2026 às 00:000 visualizações
Bloqueio energético dos EUA tem levado Cuba a sucessivos apagões
Bloqueio energético dos EUA tem levado Cuba a sucessivos apagões
Brasil de Fato

Após duas quedas do Sistema Elétrico Nacional (SEN) em menos de 24 horas, Cuba conseguiu restabelecer nesta terça-feira (4) o fornecimento de energia elétrica em grande parte do país. Desde o início do ano, a ilha já enfrentou seis apagões totais do sistema elétrico nacional.

No fim de janeiro, o governo dos Estados Unidos passou a dificultar severamente as importações de petróleo e combustíveis de que Cuba necessita para manter o funcionamento normal do país. Por meio de uma ordem executiva, o presidente Donald Trump ameaça impor sanções a qualquer país ou empresa que “venda ou forneça” petróleo bruto à ilha.

A asfixia energética é sentida em todos os cantos de Cuba. Há regiões em que as famílias passam dias inteiros sem eletricidade e, quando a energia finalmente volta, dura apenas duas ou três horas antes de ser interrompida novamente.

“Aqui somos privilegiados; pelo menos temos um ventilador com bateria”, conta Daiana Méndez, moradora de El Romerillo, um bairro popular de Havana, em entrevista ao Brasil de Fato, misturando o humor tão característico dos cubanos com uma profunda tristeza. “À noite, é comum ver as crianças dormindo nas varandas ou nos quintais das casas, porque ninguém aguenta esse calor”, acrescenta.

Ao lado da mãe, de 74 anos, formada em Química e trabalhadora durante anos do setor da saúde, Daiana Méndez cozinha com carvão na porta de casa, aproveitando os últimos raios de luz do entardecer. Como acontece com milhares de famílias cubanas, sua cozinha funciona com eletricidade ou com botijões de gás, que hoje se tornaram praticamente impossíveis de comprar sem a ajuda financeira de algum familiar ou amigo que viva no exterior.

O último botijão de gás que tinham em casa — e que normalmente dura cerca de dois meses — foi um presente de uma amiga que mora na Espanha, explica Méndez. Há duas semanas, quando o gás acabou, elas não tiveram outra alternativa além de cozinhar com carvão.

“Este é um povo fidelista, um povo humilde que sempre amou a Revolução”, afirma Méndez. “Nós vamos defendê-la e não vamos permitir que ninguém venha roubar a nossa soberania. Daqui só saímos mortos. Mas estamos muito cansados. Não dá para viver assim”, lamenta.

A crise econômica, somada à falta de energia, desorganiza completamente o cotidiano, especialmente o das famílias mais pobres, que são as que sofrem com maior intensidade as consequências da guerra econômica à qual Cuba está submetida.

É difícil dimensionar as condições em que a ilha vive hoje. As cenas se repetem diariamente: médicos realizando procedimentos à luz das lanternas de seus celulares; pessoas reunidas em qualquer esquina onde haja um pouco de eletricidade para tentar recarregar desde telefones até lanternas; universidades obrigadas a manter as aulas à distância; locais de trabalho funcionando em horário reduzido; e um transporte público que praticamente deixou de existir.

Os efeitos da guerra econômica — cujas medidas são decididas em escritórios de Washington — atingem todos os aspectos da vida cotidiana: do encarecimento e das dificuldades no transporte ao aumento do preço dos produtos básicos; do fechamento ou da redução das atividades em inúmeros locais de trabalho às interrupções nas comunicações e no ensino universitário.

Com enormes dificuldades para manter seu aparato produtivo, as projeções da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) indicam que Cuba poderá registrar uma queda de 6,5% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano. Se a previsão se confirmar, será a maior contração econômica da América Latina. O cenário torna-se ainda mais preocupante quando se considera que, nos últimos cinco anos, a economia cubana acumula uma retração de cerca de 15% do PIB.

Mesmo que o bloqueio energético fosse suspenso imediatamente, os danos causados à economia levariam anos para ser revertidos, e seus efeitos continuariam marcando a vida de milhões de cubanos.

Para manter o funcionamento de seu sistema elétrico, Cuba precisa de cerca de 120 mil barris de petróleo por dia. Aproximadamente 30% desse volume provêm da produção nacional, enquanto o restante depende das importações. Seus principais fornecedores são Venezuela, México e, em menor medida, Rússia. No entanto, as sanções impostas pelos Estados Unidos e as ameaças de represálias contra países e empresas que mantenham relações comerciais com a ilha dificultaram gravemente a chegada de combustível, obrigando o país a operar sob um rigoroso regime de racionamento da energia disponível.

“Cansaço” é, talvez, a palavra que os cubanos mais repetem para descrever a situação atual. Semana após semana, cada aspecto da vida cotidiana se torna um pouco mais difícil.

E, ainda assim, a vida segue. Em um país que, apesar de todas as dificuldades, conseguiu construir uma das sociedades mais seguras da região, os vizinhos continuam se reunindo ao entardecer para jogar dominó — o grande jogo nacional — enquanto as crianças correm atrás de uma bola pelas ruas do bairro.

“A única coisa que queremos é paz, que tudo isso acabe”, diz Milagro, uma aposentada que trabalha fazendo faxinas em estabelecimentos comerciais, enquanto espera um carro que possa levá-la para casa.

Fonte
Brasil de Fato
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