Gestão privada de trens vai atuar ‘ao limite do contrato para garantir lucro’, avalia pesquisador

Por Gabriela Carvalho04/08/2026 às 22:230 visualizações
A Trivia trens é a nova operadora das linhas 11, 12 e 13, que pertenciam à CPTM
A Trivia trens é a nova operadora das linhas 11, 12 e 13, que pertenciam à CPTM
Brasil de Fato

A greve dos trabalhadores da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) expõe um cenário que se arrasta por algum tempo e que tem em seu cerne a escolha política de privatizar o serviço de transporte. Esta terça-feira (4) foi marcada pela paralisação das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, concedidas à Trivia Trens pela gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) há aproximadamente um ano. Os trabalhadores promoveram a greve reivindicando a revogação da concessão.

Eles também exigem a garantia de todos os empregos na CPTM e a aprovação do Projeto de Lei (PL) nº 730/2025, que prevê a absorção dos funcionários da estatal por órgãos da administração pública estadual após concessões.

Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Rafael Calabria, pesquisador de Mobilidade do BRCidades, avalia que não se trata de um debate político-ideológico, mas de fatos: a privatização tem levado a um encarecimento do serviço na mesma medida em que traz um processo de precarização das estruturas. E o motivo é muito simples: a empresa precisa de lucro.

“O empresário que intermedeia esse serviço vai cobrar mais do que quando ele é prestado pelo poder público. Há diretamente um aumento dos custos e uma piora da qualidade, principalmente em termos de frequência”, aponta. “Isso acontece porque o recurso arrecadado pela tarifa não é suficiente nem para custear a operação dos trens. Com o passar do tempo, também há redução dos investimentos em manutenção e infraestrutura”, explica.

Calabria compara o sistema de transporte paulista com o do Rio de Janeiro, onde os trens são operados pela empresa SuperVia. É o sistema de gestão privada mais antigo do Brasil, com cerca de 25 anos. “Hoje, ela tem a tarifa mais cara do país e uma infraestrutura muito precária, com linhas que chegam a intervalos de uma hora entre os trens, algo que ainda está muito distante da realidade de São Paulo”, pontua.

O pesquisador reforça que o processo de privatização leva, inevitavelmente, a uma estagnação do investimento em melhorias. No caso das linhas férreas, isso acaba se tornando um problema ainda maior, uma vez que a construção de algumas linhas remonta ao século 19.

As linhas sobre trilhos privatizadas em São Paulo já registram um histórico de falhas. Nas linhas em que ocorrem as paralisações desta terça, foram registrados vários casos apenas dois dias após a Trivia Trens assumir a operação exclusiva das linhas, em 21 de julho.

“Além da precarização da manutenção, há uma estagnação do investimento em expansão, em melhorias, em modernização. A CPTM, vamos lembrar aqui, é uma sobra da rede ferroviária de trens que o país teve. Então, é uma estrutura que precisa de muito investimento, de muita modernização, de muito recurso. E o privado, ele vai fazer isso só até o limite do que tiver ali no contrato e do que assegurar sua margem de lucro. Não existe uma intenção de investir a mais ou além, ou para garantir um certo padrão de qualidade”, aponta.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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