Reforma agrária, Paz Total e dificuldades no Congresso: qual o legado de Gustavo Petro na Colômbia

Por André Lucena05/08/2026 às 09:002 visualizações
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro
Brasil de Fato

Gustavo Petro, que vai deixar a presidência da Colômbia na próxima sexta-feira (7), diz temer uma guerra civil no país. Ele afirma que a derrota de Ivan Cepeda, candidato a quem apoiou nas eleições de maio, foi resultado de fraude. Segundo Petro, o quadro teria criado “um problema institucional indubitavelmente profundo, que é a posse de um presidente ilegítimo”, em referência ao candidato vencedor, Abelardo de la Espriella. No pleito, a oposição obteve 49,66% dos votos, contra 48,70% da situação, em uma diferença inferior a 250 mil votos.

A mudança em curso na Colômbia não poderia ser mais brusca. Petro, o primeiro presidente da esquerda da história do país, vai dar lugar a um personagem criado sob medida para o imaginário da extrema direita em ascensão na América Latina. Abelardo é avesso aos protocolos tradicionais da institucionalidade presidencial, apela a frases de efeito que parecem se encaixar para viralizar nas redes sociais e, a exemplo de presidentes como Javier Milei (Argentina) e Nayib Bukele (El Salvador), tem no presidente Donald Trump um farol ideológico.

A combinação de riqueza mineral e histórico de produção de cocaína construiu o terreno ideal para as aspirações de Trump sobre a Colômbia. Não por acaso, boa parte das iniciativas de Washington para a região passa, atualmente, pelo desejo de exploração dos minerais críticos, no curso da disputa estratégica com a China. Enquanto isso, o combate ao narcotráfico, um argumento estadunidense histórico para justificar operações em países do continente, voltou com mais força neste segundo mandato de republicano.

Petro, um progressista inédito na Casa de Nariño

O fato de Abelardo de la Espriella ser mais um entre os personagens desse novo rosto da direita, escancarando as contradições do atual tempo histórico, não é, sozinho, o único fator que explica a derrota do programa político de Petro. Para começar, nem mesmo a política de “Paz Total” de seu governo foi capaz de estancar por completo os históricos problemas de violência na Colômbia.

O programa foi uma das principais molas propulsoras que levaram Petro ao poder. Prometia construir acordos de paz com grupos armados colombianos, atores sociais com uma longa trajetória de associação direta com a violência no país, a exemplo dos dissidentes dos acordos de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), paramilitares e facções como a Bacrim, além da do Exército de Libertação Nacional (ELN).

Anos após o anúncio da medida, Petro teve que recuar. O resultado não só não foi alcançado, mas os casos de violência se intensificaram. O ELN, por exemplo, manteve o controle de áreas na fronteira com a Venezuela, enquanto os dissidentes das Farc se espalharam. Segundo o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a Paz (Indepaz), foram assassinados quase 2 mil líderes sociais entre 2016 e 2024. Em 2023 e 2024, anos em que o acordo já estava vigente, os homicídios totalizaram 361.

Se os sequestros em massa e os ataques paramilitares marcaram as crises de violência nos anos 1990 e no começo dos anos 2000, a realidade atual conta com controle de fronteiras e tentativas de exploração de mineração ilegal de ouro, cobre e minerais de terras raras. Além disso, não é pouco relevante o fato de que o país é o principal produtor de cocaína do mundo, com cerca de 260 mil hectares de plantação de coca. Os números estão em expansão.

“O problema é que o programa de Paz Total exige tempo e vontade política”, explica ao Brasil de Fato o ex-senador Robert Daza. “A Colômbia sempre esteve dividida entre duas alternativas: guerra ou diálogo. A Paz Total, como lei e como conceito, procurou tirar o país dessa falsa dicotomia entre ‘balas ou diálogo’. Cada visão atende a determinados interesses. O interesse na guerra favorece, principalmente, os Estados Unidos, que vivem da indústria armamentista, dos conflitos e da divisão entre os povos para ter acesso aos recursos naturais, além de manter influência política sobre outros países”, diz.

Ele pondera que, no entanto, houve erros também na condução de negociações. “O presidente Petro, em iniciativas como o diálogo com o Exército de Libertação Nacional (ELN), foi mal assessorado e mal informado. Durante todo o processo, deixou-se conduzir por informações equivocadas, até que as negociações acabaram rompidas. Houve descumprimentos de ambas as partes, e o diálogo não conseguiu se manter”, avalia Daza.

Entre erros e acertos, como mensurar o saldo do governo Petro? Para a internacionalista colombiana Maria Elena Rodriguez, professora da PUC-Rio e pesquisadora do Brics Policy Center, é preciso lembrar que “se consolidou pela primeira vez, de forma muito forte, a ideia de que é possível ter um posicionamento de esquerda independente diante de uma direita tradicional que governa o país por séculos”. Em conversa com o Brasil de Fato, ela diz que a derrota por margem mínima, que deve demorar a ser digerida pelo partido de Petro, o Pacto Histórico, também aponta para o fato de que a esquerda colombiana conseguiu, com méritos, chegar a um alto nível de capacidade de disputa com a direita do país.

Mas a independência do projeto de Petro não deixa de ser um tanto relativa. O ineditismo de um presidente de esquerda, somado às reformas estruturais que foram tentadas, forçou o mandatário a compor com parte da oposição. Rodriguez lembra o fato de que o gabinete presidencial contou com filhos, netos e sobrinhos de figuras históricas da direita colombiana. Ao menos no início, nomes como José Antonio Ocampo (Fazenda), Alejandro Gaviria (Educação), Guillermo Reyes (Transportes) e Cecilia López (Agricultura) apareciam na fotografia do governo composto, mesmo compartilhando muito pouco da plataforma política de Petro.

Legado econômico

Há um reconhecimento da melhoria das condições de vida, no geral. A principal delas é resultado da reforma agrária proposta por Petro, com a devolução de terras a famílias camponesas historicamente impedidas de retornar às próprias regiões devido a conflitos. Os dados são sólidos: segundo o Departamento Administrativo Nacional de Estatística (DANE), o governo Petro foi responsável por retirar 800 mil pessoas da insegurança alimentar. Além disso, desde 2022, a pobreza monetária foi reduzida em 13%, o que elevou a qualidade de vida de cerca de 2,2 milhões de pessoas.

Tudo isso também foi possível por meio de uma política de valorização real do salário mínimo. Em princípio, centrais sindicais e representantes empresariais deveriam negociar reajustes na Comissão de Concertação de Políticas Laborais, mas o diálogo não avançou. Diante do impasse, Petro decretou, em dezembro de 2025, um reajuste salarial de 23,7% para 2026. A medida recebeu o nome de “salário vital”. Mas, em fevereiro de 2026, o Conselho de Estado suspendeu provisoriamente a decisão, forçando o presidente a reeditá-la. 

“O governo rompeu com a ideia de que ter um salário mínimo digno, rendimentos justos e direitos trabalhistas alinhados ao direito internacional prejudicaria o crescimento econômico. Na verdade, ocorreu exatamente o contrário”, diz Robert Daza.

Essas reformas se desenrolaram em um contexto nada fácil, pelo menos no Legislativo. “Como no Brasil, é muito difícil promover as propostas apresentadas pelo governo”, lembra Rodriguez. 

“O Congresso não queria fazer uma transformação que melhorasse as condições da população, a exemplo da retirada do domínio privado sobre a saúde, retomando o controle do Estado. Talvez por conta disso, se construiu uma certa frustração sobre o fato de que as grandes reformas prometidas por Petro, e que eram necessárias, não conseguiram passar. Acho que houve uma espécie de bloqueio institucional, o que aparentou certa ineficiência do governo. Mas os anos foram marcados por grande dificuldade de negociação com o Congresso”, explica Rodriguez. 

A política de transição energética, que suspendeu a concessão de novos contratos de exploração de petróleo e carvão, também se tornou um ponto de atrito. A medida visava reduzir o investimento estrangeiro no setor extrativo e alimentou, entre setores empresariais e parte da classe média, a percepção de que o país estaria abrindo mão do crescimento econômico em nome, exclusivamente, da agenda ambiental.

Passada a transição, ficam as perguntas: qual o futuro político do Pacto Histórico? E quais são os caminhos para a futura oposição? “Será o momento de tentar organizar a base dentro do Congresso, sem esquecer que o Pacto Histórico ganhou no Senado e na Câmara. Mas, dentro desse jogo, outros partidos podem se alinhar para derrotar as propostas legislativas do Pacto Histórico”, sintetiza Rodriguez, dando uma amostra do complexo jogo político colombiano que está por vir.

Essa oposição, na avaliação de Robert Daza, deverá ir além dos limites do Congresso colombiano. “O objetivo é que o Pacto Histórico deixe de ser um partido dependente de líderes e se transforme em uma organização construída a partir da participação ativa de suas bases, como expressão do poder popular. É isso que significará fazer oposição na Colômbia”, diz Daza, dando a tônica da relação de forças que se desenham no país vizinho.

Fonte
Brasil de Fato
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