Divulgado na semana passada, o estudo da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt) escancara uma realidade que os trabalhadores brasileiros conhecem bem: o excesso de jornada custa vidas e adoece quem leva o país nas costas. O levantamento registrou 222.139 acidentes de trabalho somente nos cinco primeiros meses de 2026 – uma média de 1.471 casos por dia. Desde 2023, quando os dados passaram a ser coletados de forma mais rigorosa, o país já contabiliza 1,8 milhão de ocorrências, o que representa mais de 45 mil por mês.
Os números são ainda mais alarmantes quando se olha para o perfil das vítimas: 75% dos acidentes afetam pessoas de 20 a 49 anos, justamente a faixa mais ativa da força de trabalho.
Os dados da Anamt dialogam diretamente com outra iniciativa fundamental: o Atlas Comentado da Escala 6×1 no Brasil, uma radiografia inédita sobre a intensificação da exploração da força de trabalho. Elaborado por pesquisadores do Observatório do Estado Social Brasileiro em parceria com o Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro e a Associação Trama, o Atlas ouviu 3.775 trabalhadores submetidos à escala 6×1 em 394 municípios brasileiros.
Os resultados confirmam o que a medicina do trabalho já sinalizava: 27% dos entrevistados apresentaram atestados médicos no último mês, 70% relataram sintomas de estresse ocupacional e cerca de 30% já apresentaram sinais de burnout – número que coincide com outras estimativas da própria Anamt. Além disso, 33% gastam mais de 1h30 no deslocamento diário até o trabalho, o que amplifica o desgaste físico e mental.
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O Atlas revela ainda que a escala 6×1 atinge especialmente jovens negros periféricos, com destaque para os setores de comércio, serviços e teleatendimento – justamente aqueles nos quais a exaustão e os acidentes se concentram. A conexão entre os dois levantamentos é clara: o cansaço extremo reduz os reflexos e a capacidade de reação do trabalhador, elevando os casos de esgotamento e problemas físicos.
Outros estudos reforçam o ponto. Pesquisa do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que a atual jornada aumenta em 38% o risco de acidentes e doenças laborais. Levantamento da ONG Repórter Brasil também aponta que, das 20 ocupações campeãs em acidentes de trabalho, 12 também estão no topo da lista das profissões com maior carga horária. Há, portanto, uma relação direta entre excesso de jornada e acidentes de trabalho.
Os números não deixam margem para dúvidas: a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial ou perda de direitos, não é apenas uma pauta de bem-estar – é uma medida de saúde pública e de prevenção de acidentes. Enquanto o Senado empurra a votação da PEC 221/2019 para depois das eleições, os trabalhadores continuam adoecendo e se acidentando. Os dados estão aí. Falta vontade política para agir. Seguimos na luta por mais tempo para viver!
*Márcio Ayer é presidente do Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro e secretário nacional de Comércio e Serviços da CTB
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.