USP reconhece a trajetória de Sérgio Ferro com a outorga do título de Doutor Honoris Causa

Por Adriana Cruz05/08/2026 às 14:230 visualizações
(Da esq. p/ dir) O diretor do IAU, João Marcos de Almeida Lopes, o diretor do MAC, José Tavares Correia de Lima, o diretor da FAU, José Whitaker, e o reitor da USP, Aluisio Segurado, com o diploma que conferiu o título de Doutor Honoris Causa a Sergio Ferro - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
(Da esq. p/ dir) O diretor do IAU, João Marcos de Almeida Lopes, o diretor do MAC, José Tavares Correia de Lima, o diretor da FAU, José Whitaker, e o reitor da USP, Aluisio Segurado, com o diploma que conferiu o título de Doutor Honoris Causa a Sergio Ferro - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Foto: Marcos Santos/Jornal da USP / Jornal da USP
USP reconhece a trajetória de Sérgio Ferro com a outorga do título de Doutor Honoris Causa

Cerimônia, realizada na Sala do Conselho Universitário, destacou a trajetória acadêmica e artística do professor e o significado da homenagem como ato de reparação institucional da Universidade

 Publicado: 05/08/2026 às 11:23

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Adriana Cruz

(Da esq. p/ dir) O diretor do IAU, João Marcos de Almeida Lopes, o diretor do MAC, José Tavares Correia de Lima, o diretor da FAU, José Whitaker, e o reitor da USP, Aluisio Segurado, com o diploma que conferiu o título de Doutor Honoris Causa a Sergio Ferro -
(Da esq. p/ dir) O diretor do IAU, João Marcos de Almeida Lopes, o diretor do MAC, José Tavares Correia de Lima, o diretor da FAU, José Whitaker, e o reitor da USP, Aluisio Segurado, com o diploma que conferiu o título de Doutor Honoris Causa a Sergio Ferro - — Marcos Santos/USP Imagens
(Da esq. p/ dir) O diretor do IAU, João Marcos de Almeida Lopes, o diretor do MAC, José Tavares Correia de Lima, o diretor da FAU, José Whitaker, e o reitor da USP, Aluisio Segurado, com o diploma que conferiu o título de Doutor Honoris Causa a Sergio Ferro - Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Uma cerimônia realizada na Sala do Conselho Universitário, no dia 4 de agosto, marcou a outorga do título de Doutor Honoris Causa ao professor, arquiteto e pintor Sérgio Ferro Pereira.

A proposta de concessão do título foi apresentada pelas Congregações da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) e do Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU) e pelo Conselho Deliberativo do Museu de Arte Contemporânea (MAC), e foi aprovada pelo Conselho Universitário em sessão realizada no dia 18 de março do ano passado.

Sérgio Ferro –
Sérgio Ferro – — WikiCommons
Sérgio Ferro – Foto: WikiCommons

O título de Doutor Honoris Causa é uma honraria concedida a personalidades que tenham contribuído para o progresso das ciências, das letras ou das artes; que tenham beneficiado de forma excepcional a humanidade ou o País; ou que tenham prestado relevantes serviços à Universidade. Desde a sua criação, há mais de 92 anos, a USP concedeu 125 títulos de Doutor Honoris Causa. O mais recente foi outorgado ao jornalista Vladimir Herzog, em fevereiro deste ano.

Formado arquiteto e urbanista pela FAU em 1961, Sérgio Ferro foi aluno de Vilanova Artigas e Flávio Motta. No ano seguinte à formatura, passou a lecionar História da Arte no Departamento de História da FAU, onde permaneceu até 1970, quando foi preso pela ditadura militar. Ainda estudante, ao lado do colega de turma Rodrigo Lefèvre, iniciou sua atuação profissional no fim dos anos 1950, em meio à efervescência construtiva produzida pelas obras de Brasília e pela expansão metropolitana de São Paulo.

Como docente e pesquisador, Ferro é reconhecido pela agudeza de sua reflexão teórica e crítica, tornando-se referência para gerações de estudantes, professores, arquitetos e urbanistas.

Em 1972, mudou-se para a França, onde foi convidado a integrar o corpo docente da Escola Superior de Arquitetura de Grenoble. Na instituição, fundou o laboratório Dessin/Chantier [Desenho/Canteiro], assumindo papel de liderança nos processos de renovação do ensino de arquitetura naquele país. Aposentou-se em 2003 e, desde então, dedica-se à pintura e ao desenvolvimento de sua obra teórico-crítica.

O relatório final da Comissão da Verdade da USP documenta, nas cinco páginas dedicadas ao ex-professor da FAU, que Ferro foi interrogado em sala de aula antes mesmo da edição do AI-5, em 1968, preso ilegalmente pela Operação Bandeirante, em dezembro de 1970, e torturado no Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi).

“Contradições do ofício”

“É com muita honra que faço esta saudação, registrando este momento tão importante quando, em reconhecimento à importância e ao significado da contribuição do professor Sérgio Ferro para os campos da arquitetura, do urbanismo, da construção civil e das artes plásticas, esta universidade, por meio de seu Conselho, lhe outorga o mais que merecido título de Doutor Honoris Causa. Sérgio Ferro, arquiteto, pintor, teórico e ex-docente da USP, é autor de uma obra ímpar nesses campos do conhecimento, que dialoga também com áreas como sociologia, história, economia, política, filosofia e linguística, entre outras. Sua reflexão, amadurecida desde os anos 1960, é absolutamente original, relevante e de renovada atualidade”, destacou o diretor da FAU da USP, João Sette Whitaker Ferreira.

O diretor ressaltou a trajetória de Ferro na FAU e sua atuação na resistência à ditadura. “Na própria USP, o docente foi vítima de atos de exceção que o impediram de construir, em nossa universidade, a destacada carreira que viria a desenvolver no exterior”, afirmou.

“Seu trabalho como artista plástico foi e continua sendo reconhecido em dezenas de exposições nacionais e internacionais – entre elas, a grande retrospectiva de arte e arquitetura realizada no MAC entre março e maio de 2025. Sua contribuição teórica demonstra caráter seminal e enorme atualidade, no Brasil e no exterior, repercutindo de forma expressiva no crescente campo dos production studies, um horizonte de investigação em arquitetura, urbanismo, construção civil e artes plásticas que tem na obra deste pensador uma de suas principais referências”, acrescentou.

“Selando a honra de podermos ter em nosso campo profissional uma personalidade tão destacada, que nos mobiliza a compreender as terríveis contradições do ofício e, ao mesmo tempo, nos infunde a esperança de vê-las superadas, firmamos conjuntamente a presente saudação, cientes de que a Universidade dá mais um passo na reparação das injustiças cometidas no passado”, concluiu.

“Minha casa”

O homenageado, Sérgio Ferro Pereira, que, aos 88 anos, vive na França e não pôde comparecer à cerimônia por questões de saúde, afirmou considerar a USP como “minha casa”.

“Sinto-me bem sendo membro da Universidade de São Paulo e não guardo a menor lembrança amarga do período em que fui professor. Ao contrário, lembro-me, com grande felicidade, do mestre Artigas e de vários outros que participaram da minha formação. Sou aluno dessa escola, formado nessa escola, produto dessa escola, e é isso que, de certa maneira, transmito no exterior, sobretudo na França. Agradeço profundamente essa homenagem, que gostaria de compartilhar simbolicamente com meus irmãos espirituais, Flávio Império e Rodrigo Lefèvre, e estendo às duas famílias a honra que me está sendo atribuída”, afirmou.

O reitor da USP, Aluisio Segurado, destacou aspectos da carreira de Ferro que o tornaram uma referência “para gerações futuras de arquitetas, arquitetos e urbanistas”.

“As conexões que buscou evidenciar entre arquitetura e trabalho, aliadas ao seu olhar crítico sobre as relações de dominação e exploração entre o trabalho intelectual e o trabalho braçal, contribuíram para uma nova compreensão do exercício da arquitetura.

Sabemos que sua trajetória acadêmica foi também marcada por momentos de triste memória. No pensamento de Paul Ricoeur, a memória é condição de possibilidade da justiça. Nessa perspectiva, entendemos que o título de Doutor Honoris Causa que hoje lhe outorgamos não se limita ao reconhecimento de sua brilhante carreira como professor, de sua relevância intelectual como pensador engajado em causas sociais e de sua produção artística, aplaudida internacionalmente. Constitui, sobretudo, um ato simbólico, porém necessário, de reparação institucional pelas injustiças e violações de direitos humanos que lhe foram arbitrariamente impostas. Ao lhe outorgarmos este título, reafirmamos os valores da Universidade de São Paulo, pautados pela relevância acadêmica, pelo respeito aos direitos humanos e pelo compromisso com a democracia”, disse o reitor.

Assista, a seguir, à íntegra da cerimônia.


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