Os Estados Unidos revogaram o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, na terça-feira (4), e alegaram que a medida responde à demora das autoridades brasileiras em conceder o aval diplomático para que Daniel Perez, um republicano filho de cubanos, assuma a embaixada dos EUA no país.
O governo brasileiro se pronunciou por meio de nota em que critica a medida e afirma que as justificativas apresentadas pelos EUA são falsas. Um outro suposto motivo aventado seria uma retaliação à negativa dos vistos a dois funcionários do Departamento de Estado que viajariam ao Brasil, há cerca de dez dias, supostamente para tentar interferir na corrida eleitoral brasileira.
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o cientista político Paulo Velasco, pesquisador nas áreas de América Latina e Política Externa Brasileira e professor de Relações Internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), destaca o momento de tensão diplomática entre os dois países, notadamente iniciado com a gestão de Donald Trump.
“A relação vive um momento muito ruim, como já havíamos visto no ano passado, e que teve uma pequena distensão quando houve o encontro de Lula e Trump, mas voltou a piorar nos últimos meses. O que se percebe é que Washington fica tentando o tempo todo criar fatos para justificar medidas de pressão sobre o Brasil, medidas retaliatórias”, analisa.
Velasco lembra que, desde o início da gestão Trump, os Estados Unidos não têm embaixador em Brasília e agora “agem com pressa para que Daniel Perez seja confirmado”. Contudo, segundo o pesquisador, na vida diplomática há alguns ritos que precisam ser respeitados.
“Para poder assumir o cargo, o embaixador precisa do chamado agreement, que é a negociação entre as duas partes, via de regra, de maneira sigilosa, confidencial. O Estado faz uma consulta ao país que vai receber o embaixador indicado para ver se aquele nome é conveniente ou se ele causa algum tipo de constrangimento”, explica. “Os EUA quiseram pular essa etapa simplesmente.”
Na avaliação de Paulo Velasco, Perez seria até um nome que, provavelmente, não sofreria objeções. Contudo, o governo brasileiro avaliou aguardar as eleições para evitar que ele “fosse um agente a serviço do Trump para, de alguma maneira, interferir ou incidir no nosso processo eleitoral, coisa que já vem sendo feita indiretamente pela administração”, ressalta.
Sobre as constantes tentativas de ingerência de Trump no Brasil, iniciadas com o tarifaço no ano passado por causa do processo contra Bolsonaro, Velasco afirma que é fundamental que o governo seja contundente e firme nas respostas. “O Brasil tem que mostrar que não é um país qualquer, ou seja, não estamos, evidentemente, sujeitos a qualquer forma de interferência externa nem devida em atos de nossa soberania”, afirma.
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