IA, desinformação e água: Rio Innovation Week debate impactos e desafios do avanço tecnológico

06/08/2026 às 00:040 visualizações
Foto: AVISO: midia estatal russa / Sputnik Brasil
Robôs interagindo com visitantes, obras digitais exibidas dentro do maior navio de guerra da América Latina e discussões sobre os efeitos da desinformação marcaram o segundo dia do Rio Innovation Week, nesta quarta-feira (5), no Píer Mauá, na Zona Portuária do Rio de Janeiro.
Ao longo dos armazéns, empresas, instituições públicas e artistas apresentaram experiências que iam da inteligência artificial ao blockchain, passando por games, instalações imersivas e projetos de infraestrutura. O movimento era intenso desde a entrada, onde luzes, música e painéis artísticos se misturavam.
Entre as atrações que mais chamavam a atenção do público estava um robô humanoide que conversava, estendia a mão aos visitantes e posava para fotos. O detalhe inusitado ficava nos pés: a máquina circulava pelo evento usando um par de tênis.

Entre a mão, a máquina e o navio

Atracado no cais do Píer Mauá, o NAM Atlântico (A140), maior navio de guerra da América Latina e capitânia da esquadra brasileira, também integrou a programação do Rio Innovation Week. Com capacidade para operações aéreas, transporte de aeronaves e missões humanitárias, a embarcação recebeu atividades ligadas a tecnologia, games e arte digital.
© Sputnik Brasil / Tabata HellenNavio NAM Atlântico, da Marinha do Brasil, no Píer Mauá. Rio de Janeiro (RJ), 5 de agosto de 2026
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Navio NAM Atlântico, da Marinha do Brasil, no Píer Mauá. Rio de Janeiro (RJ), 5 de agosto de 2026
Foi dentro do navio que tomou forma uma exposição com obras de aproximadamente 300 artistas brasileiros ligados ao universo dos NFTs.
NFT é a sigla em inglês para non-fungible token, ou token não fungível. Trata-se de um registro digital associado a uma rede blockchain usado para identificar a propriedade e a autenticidade de um ativo digital. Em conversa com a Sputnik Brasil, o artista e desenvolvedor Maikão comparou o recurso à numeração de uma edição limitada de automóveis.

"Eu gosto de dar o exemplo do carro. Vamos supor que você tem a Ferrari e só foram feitas dez Ferraris nesse modelo. O NFT trouxe a possibilidade de trazer a raridade para algo que é digital, o que atualmente era impossível. Se você tivesse uma imagem e eu copiasse, eu teria a mesma imagem. Então o NFT trouxe essa possibilidade de ser o proprietário desse ativo digital."

Segundo Maikão, esse universo não se limita às artes visuais. Também inclui música, obras produzidas com inteligência artificial e outros formatos digitais. O próprio artista trabalha com arquivos em MP3 registrados em blockchain.
A tecnologia, no entanto, não elimina necessariamente as etapas tradicionais da criação. Maikão contou que o processo pode começar com referências simples do cotidiano, como um som, uma luz, uma nuvem ou um desenho na parede, e seguir tanto para um caderno quanto para o computador.
Para ele, a inteligência artificial abriu um novo campo dentro da produção artística, sem necessariamente retirar espaço de quem trabalha com técnicas manuais.
"Tem artistas que fazem arte com IA, fazem música com IA, e já tem um nicho para tais pessoas. Para quê? Para o artista que gosta de fazer o manual, pegar no pincel e fazer uma arte, não perder o seu espaço dentro do ambiente artístico, né? Então a gente fez nichos para cada um estar no seu meio, sem deixar de se encontrar ali no final", explicou.
© Sputnik Brasil / Tabata HellenMaikão, artista e desenvolvedor, conversa com a Sputnik Brasil durante o Rio Innovation Week
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Maikão, artista e desenvolvedor, conversa com a Sputnik Brasil durante o Rio Innovation Week

A mentira também virou negócio?

No painel sobre desinformação, o debate passou pela perda de confiança nas instituições, pela fragilidade da imagem como prova e pelos incentivos econômicos que mantêm conteúdos falsos em circulação.
Presidente do Instituto Palavra Aberta, Patricia Blanco alertou sobre o risco de a desinformação se tornar parte normal do ambiente digital. "Acho que o pior cenário é a gente normalizar a desinformação e não enfrentar da forma como a gente deve enfrentar. Porque a desinformação causa efeitos, danos individuais e coletivos. Mas o principal dano coletivo é a gente deixar de acreditar nas instituições, deixar de acreditar em quem faz políticas públicas."
A discussão também abordou uma mudança provocada pelo avanço de montagens, vídeos manipulados e conteúdos produzidos por inteligência artificial. Registros visuais, antes usados como evidência de que algo aconteceu, passaram a ser recebidos com mais desconfiança. Para o comunicador Matheus Sodré, esse cenário pode levar a uma sociedade incapaz de reconhecer provas comuns.
"Eu acho que a gente caminha para o colapso da imagem enquanto forma verificadora da verdade e, portanto, para um colapso da verdade. A imagem, na verdade, não é mais confiável. E as instituições perdem confiança, e todo mundo perde confiança em tudo."
© Sputnik Brasil / Tabata HellenRobô interage com o público durante a Rio Innovation Week, no Rio de Janeiro
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Robô interage com o público durante a Rio Innovation Week, no Rio de Janeiro
Outro ponto discutido foi a transformação da desinformação em atividade econômica. O problema, segundo os participantes, deixa de ser apenas a existência de conteúdos falsos e passa a envolver uma estrutura capaz de produzir audiência, influência e receita.
Pesquisador, professor e publicitário, Márcio Borges afirmou que a desinformação pode se tornar mais rentável do que a própria informação. Para ele, o fenômeno não deve ser entendido apenas como um efeito colateral do mercado informacional, mas como a base de um novo setor que prospera em uma área ainda pouco regulada.

"Eu começo a imaginar que talvez a desinformação seja a sustentação de um mercado que antes não existia. E que é um mercado que, por não ter regulação, por operar ainda numa área cinzenta do aspecto regulatório, consegue prosperar. E esse é o dano com que a gente vai ter que lidar", destacou.

Ao longo da conversa, os participantes também destacaram que a construção de conhecimento depende de algum acordo sobre os fatos, ainda que existam interpretações diferentes sobre eles. Quando até a existência de uma evidência passa a ser contestada, fica mais difícil discutir causas, responsabilidades ou soluções.
O debate colocou ainda em questão o uso da liberdade de expressão como argumento contra medidas de enfrentamento à desinformação. A conclusão foi que educação midiática e checagem continuam importantes, mas podem ser insuficientes enquanto houver incentivos econômicos para produzir e impulsionar conteúdos falsos.

O futuro também depende de infraestrutura

Em meio às discussões sobre inteligência artificial e expansão tecnológica, outra questão apareceu no evento de forma menos visível: a infraestrutura necessária para sustentar esse avanço. No Armazém 3, a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (CEDAE) apresentou ao público sua trajetória e projetos ligados ao futuro do abastecimento, entre eles o Novo Guandu.
© Sputnik Brasil / Tabata HellenPonto de hidratação da CEDAE no Rio Innovation Week
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Ponto de hidratação da CEDAE no Rio Innovation Week
Lucas Cardoso, gerente de marketing da companhia, afirmou que o planejamento considera o crescimento da população e as demandas das próximas décadas.

"Como a população tem crescido, o mundo está mudando, a gente precisa já se programar para o que vai acontecer no futuro. Então o investimento da CEDAE está muito focado em grandes obras, para que as próximas gerações sejam beneficiadas", sublinhou à Sputnik.

A questão ganha outra dimensão diante da perspectiva de expansão de data centers no Rio. Essas estruturas, responsáveis pelo armazenamento e processamento de grandes volumes de dados, dependem não apenas de energia, podendo demandar também grande quantidade de água em seus sistemas de refrigeração.
Questionado pela reportagem sobre o aumento dessas demandas com a expansão da infraestrutura tecnológica, Cardoso destacou que a atuação atual da CEDAE está concentrada na captação e no tratamento da água, que depois é entregue às concessionárias responsáveis pela distribuição aos consumidores, e que, nesse contexto, a empresa investe muito em tecnologias e infraestrutura.
"O que a gente tem é uma preocupação em excesso com a qualidade da captação e do tratamento, e também com a produção. Então essa atividade produtora, essa mobilização toda é para isso, para a gente conseguir comportar tanto hoje quanto daqui a 10, 20 anos."
© Sputnik Brasil / Tabata Hellen

Rio Innovation Week, conferência global de tecnologia e inovação, no Rio de Janeiro (RJ), em 5 de agosto de 2026

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Rio Innovation Week, conferência global de tecnologia e inovação, no Rio de Janeiro (RJ), em 5 de agosto de 2026

© Sputnik Brasil / Tabata Hellen

Tobias, robô desenvolvido pelo laboratório de inovação Bolha, de São Paulo, durante o Rio Innovation Week, no Rio de Janeiro (RJ), em 5 de agosto de 2026

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Tobias, robô desenvolvido pelo laboratório de inovação Bolha, de São Paulo, durante o Rio Innovation Week, no Rio de Janeiro (RJ), em 5 de agosto de 2026

© Sputnik Brasil / Tabata Hellen

Painel sobre desinformação no Rio Innovation Week. Rio de Janeiro (RJ), 5 de agosto de 2026

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Painel sobre desinformação no Rio Innovation Week. Rio de Janeiro (RJ), 5 de agosto de 2026

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Rio Innovation Week, conferência global de tecnologia e inovação, no Rio de Janeiro (RJ), em 5 de agosto de 2026

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Tobias, robô desenvolvido pelo laboratório de inovação Bolha, de São Paulo, durante o Rio Innovation Week, no Rio de Janeiro (RJ), em 5 de agosto de 2026

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Painel sobre desinformação no Rio Innovation Week. Rio de Janeiro (RJ), 5 de agosto de 2026

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