Em entrevista ao programa O Estrangeiro, do Brasil de Fato, o historiador Miguel Stedile analisou a vulnerabilidade militar da América do Sul diante da escalada intervencionista dos Estados Unidos. Ele destacou que o Brasil, assim como a Venezuela, possui capacidades insuficientes para responder a uma eventual intervenção direta dos Estados Unidos.
Stedile lembrou que, nos últimos anos, o governo venezuelano tentou reforçar sua estrutura militar, tanto em equipamento como em pessoal. No entanto, o esforço não foi capaz de conter o ataque coordenado por Washington em 3 de janeiro contra o país sul-americano.
“A Venezuela buscou reforçar, tanto do ponto de vista humano quanto de equipamentos, a sua capacidade militar. Isso foi insuficiente para enfrentar o ataque que os Estados Unidos coordenaram e a situação de sequestro que permanece até hoje, não só do sequestro de Nicolás Maduro, mas do sequestro do Estado venezuelano sob ameaça de novos ataques, novos bombardeios”, explicou.
Na ocasião, bombardeios atingiram seis locais estratégicos da Venezuela, entre eles a capital, Caracas, e resultaram no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, a deputada nacional Cilia Flores, além de dezenas de mortes.
O orçamento venezuelano para a área da defesa chegou em 2025 ao equivalente a 22 bilhões de dólares, ou cerca de R$ 110 bilhões de reais em valores estimados. O historiador classificou o cenário atual do país como um sequestro do Estado venezuelano, que permanece sob a ameaça constante de novos bombardeios.
As iniciativas de ingerência do governo dos Estados Unidos sobre a Venezuela se agravaram após o duplo terremoto de 24 de junho, que deixou 6.125 mortos e milhares de desabrigados, uma situação que tem sido denunciada por quadros importantes do chavismo. Enquanto isso, Maduro e Flores seguem presos em território estadunidense, com julgamento marcado para junho de 2027.
Brasil em alerta
Em relação ao Brasil, Stedile afirmou que o país está em uma situação desigual no confronto direto com a potência estrangeira, ainda que todo o orçamento público fosse destinado para a defesa.
“Acho que tem outras formas da gente construir a defesa da nossa soberania que não precisem chegar ao ponto de uma defesa militar, até porque, de fato, a nossa capacidade de defesa hoje, mesmo que a gente gastasse, se o Gabriel Galípolo [presidente do Banco Central] parasse de drenar o orçamento público e ele fosse todo destinado para a defesa, para a militarização, ainda assim nós estaríamos aquém de nos proteger de um ataque dos Estados Unidos”, disse o historiador.
As declarações de Stedile ocorrem no contexto de uma das maiores crises diplomáticas entre os Estados Unidos e o Brasil. Na terça-feira (4), o governo de Donald Trump revogou o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. A revogação do visto é mais um capítulo no impasse diplomático entre os dois países, que se iniciou há mais de um ano com a decretação do primeiro tarifaço contra o Brasil, além das sanções aplicadas individualmente a autoridades brasileiras.
Para o pesquisador, existem outras formas de proteger a soberania que não precisam chegar ao ponto de um embate militar. “A política teria que vir antes das armas, porque a nossa situação é muito desigual nesse sentido. Independentemente do tamanho geográfico, do potencial, do peso que o Brasil tem geopoliticamente, no mano a mano isso seria insuficiente para nos proteger efetivamente de um ataque militar dos Estados Unidos. É triste, mas é verdadeiro”, concluiu.
Para ouvir e assistir
O podcast O Estrangeiro vai ao ar toda quarta-feira, às 15h, com a condução dos jornalistas Lucas Estanislau e Monyse Ravena, que analisam o que foi notícia no mundo, e com a participação dos correspondentes do Brasil de Fato em Cuba, Venezuela, China e Rússia.
