Memória da ditadura no RJ avança com projetos para preservar acervo de antigos centros de repressão

Por Juliana Passos06/08/2026 às 14:210 visualizações
Foto do antigo prédio do Dops feita em 2014, quando começaram as visitas da Comissão Nacional da Verdade
Foto do antigo prédio do Dops feita em 2014, quando começaram as visitas da Comissão Nacional da Verdade
Brasil de Fato

Nesta quinta-feira (6), a campanha Sem Memória Não Há Democracia realiza o primeiro seminário para discutir a transformação do antigo prédio do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) em um centro de memória. Uma demanda que ganhou força nos últimos meses diante de avanços importantes no trabalho de diversos atores em prol da memória e justiça das vítimas da ditadura.

Entre eles, a destinação dos documentos do Dops para o Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (Aperj) e o acesso a uma série de livros de registro de óbito no antigo prédio do IML.

No prédio da Polícia Central, no Rio de Janeiro, funcionou o principal centro de perseguição política, prisão e tortura tanto durante a Ditadura do Estado Novo (1937–1945) quanto na Ditadura Militar (1964–1985).

O pedido de preservação existe desde os anos 1980, quando o prédio localizado na Rua da Relação, nº 40, no centro do Rio, deixou de funcionar como órgão da repressão.

Em uma rápida entrevista para o Brasil de Fato, Felipe Nin, integrante do Coletivo RJ/Memória, Verdade, Justiça e Reparação, relata os desdobramentos dos trabalhos recentemente realizados.

Brasil de Fato – Existe um projeto de transformar o prédio do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) em centro de memória. Qual a situação nesse momento?

Felipe Nin – A gente está no processo de interlocução com o governo federal para avançar na retomada do imóvel pela União para implementar o museu.

O edifício é originalmente do governo federal, cedido para a Polícia Civil nos anos 1960, no contexto da mudança de capital do Rio de Janeiro para Brasília. Então diversos imóveis passaram do governo federal para o estadual. E existe uma previsão na cessão que foi feita de que caso deixe de funcionar como delegacia, o imóvel pode retornar à União.

O prédio está abandonado desde que deixou de ser delegacia, nos anos 1980, e mantém as características originais da época como o mobiliário com a inscrição do Dops, salas de interrogatório, as carceragens. Inclui também a sala do chefe da repressão, Filinto Miller, com o mobiliário da época. Enfim, é uma construção que tem um patrimônio histórico sobre esse período.

No entanto, em meio ao período eleitoral, dificilmente o governo vai assumir essa decisão neste ano. Então, a gente está buscando avançar na construção do projeto. E o seminário que estamos organizando marca o início de um processo de revisão do projeto e do plano museológico.

Entre os convidados estão Mario Figueroa, criador do Museu do Centro de Memória e Direitos Humanos do Chile, aquele museu bem famoso no Chile. E Gegê Leme Joseph, que mora na África do Sul e trabalha com esse tema da reparação da memória, incluindo onde Nelson Mandela ficou preso na África do Sul.

Outro prédio que pode virar museu é o do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (Doi-Codi), localizado na Tijuca. Após o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) acatar o pedido do Ministério Público Federal (MPF) de tombamento, o Exército solicitou a extensão do prazo. Qual a situação atual?

Esse processo precisa ser apreciado pelo conselho consultivo do Iphan, que se reúne a cada três ou quatro meses. Então, a perspectiva é que ele seja analisado na próxima reunião do colegiado, que agora é em setembro, se não me engano. A questão ali é que até hoje funciona como uma prisão. E se for criado um centro de memória, o Exército teria que ir para outro lugar. E não há muita perspectiva para que isso aconteça. Mas seria muito importante, é uma edificação que tem muitos elementos originais também.

Em maio fomos surpreendidos com documentos sendo jogados pela janela do antigo prédio do IML, na Lapa. Os materiais foram recolhidos e levados pela Polícia Federal. Qual foi o andamento dado a esse processo?

Estamos acompanhando o recolhimento que vem sendo feito pelo Aperj, o Arquivo Público do Estado, para onde foram levados os documentos mais vulneráveis. Então, uma parte dos livros de registro de óbito foi retirada. Agora, a gente está acompanhando a retirada de fichários com as fichas de agentes do Dops e do Desp [Delegacia Especial de Segurança Política e Social] – nome que o Dops recebia na época do Estado Novo.

Semana que vem vai ter a última etapa desse recolhimento, que eram 26 fichários. Nesse conjunto estão dois fichários com os laudos cadavéricos do IML do período que vai de 1965 a 1983. Uma documentação super relevante, que aí, combinada com esses livros de registro de óbito, podem trazer novas informações sobre desaparecidos políticos e pessoas mortas durante a ditadura militar.

Mas ainda resta um acervo muito grande. Para isso, estamos fazendo uma articulação com a UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro], para receber uma parte do acervo que é do Instituto Carlos Éboli [Instituto de Criminalística da Polícia Civil do Rio de Janeiro] com registros fotográficos de pessoas presas, de perícias e tal e um órgão vinculado ao IML.

E tem ainda outra parte de laudos cadavéricos que vai do período de 1983 até o início dos anos 2000. É uma documentação muito relevante. Nesse caso, a articulação é com a Unirio [Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro], para ver se podem receber provisoriamente essa documentação.

A ideia é que tudo isso esteja sob guarda do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. A questão é que eles não têm espaço para receber imediatamente essa documentação, principalmente no estado que ela se encontra. Então, a ideia é ir para um lugar provisório, na UFRJ e na Unirio, passar por um processo de tratamento e depois ser levado ao Aperj.

Seminário: Memória, Democracia e o antigo prédio do Dops

Data: Quinta-feira, 6 de agosto

Horário: 15h às 20h30

Local: Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-RJ) – Beco do Pinheiro, nº 10, esquina com a Rua Dois de Dezembro, Flamengo, Rio de Janeiro.

Fonte
Brasil de Fato
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