Uma dor silenciosa: luto perinatal é marcado por invisibilidade e tabus

Por Talita de Paula Souza*06/08/2026 às 15:090 visualizações
Na imagem aparecem dois braços com manga de camisa preta e as mãos depositando uma rosa branca em cima de uma pedra
Na imagem aparecem dois braços com manga de camisa preta e as mãos depositando uma rosa branca em cima de uma pedra
Jornal da USP
🎙 Talita de Paula Souza* · Jornal da USP

Especialista da USP explica por que esse tipo de perda permanece pouco reconhecido e destaca a importância do acolhimento às famílias

 Publicado: 06/08/2026 às 12:09
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O reconhecimento do luto perinatal e o acolhimento adequado podem reduzir o sofrimento emocional de mães, pais e familiares após a perda de um bebê –
O reconhecimento do luto perinatal e o acolhimento adequado podem reduzir o sofrimento emocional de mães, pais e familiares após a perda de um bebê – — Freepik
O reconhecimento do luto perinatal e o acolhimento adequado podem reduzir o sofrimento emocional de mães, pais e familiares após a perda de um bebê – Foto: Freepik
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O luto perinatal é caracterizado pela morte do bebê no dia do nascimento ou até sete dias após o parto. Além da perda do filho, as famílias enfrentam o rompimento de expectativas e planos construídos durante a gestação. Apesar do impacto emocional, esse tipo de luto ainda é marcado pela invisibilidade social e por falhas no acolhimento oferecido pelos serviços de saúde.

De acordo com Elaine Gomes dos Reis Alves, pós-doutora em Psicologia de Emergências e Desastres, doutora em Luto e pesquisadora convidada do Laboratório de Estudos sobre a Morte do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, a dificuldade em reconhecer esse tipo de sofrimento tem raízes históricas. Ao longo do século 20, as mulheres costumavam ter muitos filhos e, devido às condições sanitárias e ao acesso limitado aos serviços de saúde, as perdas gestacionais e neonatais eram frequentes.

Elaine Gomes dos Reis Alves –
Elaine Gomes dos Reis Alves – — Arquivo Pessoal
Elaine Gomes dos Reis Alves – Foto: Arquivo Pessoal

Segundo a pesquisadora, essa realidade influenciava a forma como muitas famílias lidavam com a gestação. “Era muito comum se perguntar quantos vingariam ou só quantos vingaram. Então, de certa forma, claro que a mãe sofria, mas ela já sabia dessa possibilidade. Muitas delas evitavam criar vínculo com o bebê”, explica.

Com os avanços da medicina, o acompanhamento pré-natal tornou-se mais amplo e exames como a ultrassonografia aproximaram os pais do bebê ainda durante a gestação. Como consequência, o vínculo passou a ser estabelecido desde muito cedo, tornando a perda ainda mais dolorosa.

Um luto que ainda é desconsiderado

Mesmo assim, a especialista afirma que esse sofrimento costuma ser minimizado. “No começo as pessoas acolhem, mas rapidamente começam a dizer que eles ainda vão ser pais, que terão outro bebê ou que perder um bebê durante a gestação é muito comum. Há uma desconsideração e uma desvalorização desse luto”, afirma.

Segundo Elaine, esse tipo de reação acaba invalidando a experiência vivida pelos pais e dificulta o processo de elaboração da perda, reforçando o isolamento das famílias.

A despedida também faz parte do cuidado

Elaine destaca que ainda são frequentes os equívocos no atendimento às famílias, especialmente às mães que perdem um bebê. Segundo ela, é fundamental que o atendimento seja humanizado e respeite o tempo e os desejos da família durante o processo de despedida.

A especialista explica que, quando possível, a mãe deve ter a oportunidade de segurar o bebê, tocá-lo, conversar com ele e registrar esse momento por meio de fotografias, caso assim deseje. Para ela, todas as famílias deveriam ter acesso a esse processo de despedida dentro dos hospitais.

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, impedir esse contato não protege a mãe do sofrimento. Pelo contrário, a possibilidade de se despedir pode contribuir para a elaboração do luto.

Dar espaço para que mães, pais e familiares falem sobre a perda também é uma forma de validar esse sofrimento. Segundo a pesquisadora, reconhecer essa dor e garantir um atendimento humanizado são passos fundamentais para que essas famílias não enfrentem o luto perinatal em silêncio e sozinhas.

*Sob supervisão de Marcia Avanza


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