
O luto perinatal é caracterizado pela morte do bebê no dia do nascimento ou até sete dias após o parto. Além da perda do filho, as famílias enfrentam o rompimento de expectativas e planos construídos durante a gestação. Apesar do impacto emocional, esse tipo de luto ainda é marcado pela invisibilidade social e por falhas no acolhimento oferecido pelos serviços de saúde.
De acordo com Elaine Gomes dos Reis Alves, pós-doutora em Psicologia de Emergências e Desastres, doutora em Luto e pesquisadora convidada do Laboratório de Estudos sobre a Morte do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, a dificuldade em reconhecer esse tipo de sofrimento tem raízes históricas. Ao longo do século 20, as mulheres costumavam ter muitos filhos e, devido às condições sanitárias e ao acesso limitado aos serviços de saúde, as perdas gestacionais e neonatais eram frequentes.

Segundo a pesquisadora, essa realidade influenciava a forma como muitas famílias lidavam com a gestação. “Era muito comum se perguntar quantos vingariam ou só quantos vingaram. Então, de certa forma, claro que a mãe sofria, mas ela já sabia dessa possibilidade. Muitas delas evitavam criar vínculo com o bebê”, explica.
Com os avanços da medicina, o acompanhamento pré-natal tornou-se mais amplo e exames como a ultrassonografia aproximaram os pais do bebê ainda durante a gestação. Como consequência, o vínculo passou a ser estabelecido desde muito cedo, tornando a perda ainda mais dolorosa.
Um luto que ainda é desconsiderado
Mesmo assim, a especialista afirma que esse sofrimento costuma ser minimizado. “No começo as pessoas acolhem, mas rapidamente começam a dizer que eles ainda vão ser pais, que terão outro bebê ou que perder um bebê durante a gestação é muito comum. Há uma desconsideração e uma desvalorização desse luto”, afirma.
Segundo Elaine, esse tipo de reação acaba invalidando a experiência vivida pelos pais e dificulta o processo de elaboração da perda, reforçando o isolamento das famílias.
A despedida também faz parte do cuidado
Elaine destaca que ainda são frequentes os equívocos no atendimento às famílias, especialmente às mães que perdem um bebê. Segundo ela, é fundamental que o atendimento seja humanizado e respeite o tempo e os desejos da família durante o processo de despedida.
A especialista explica que, quando possível, a mãe deve ter a oportunidade de segurar o bebê, tocá-lo, conversar com ele e registrar esse momento por meio de fotografias, caso assim deseje. Para ela, todas as famílias deveriam ter acesso a esse processo de despedida dentro dos hospitais.
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, impedir esse contato não protege a mãe do sofrimento. Pelo contrário, a possibilidade de se despedir pode contribuir para a elaboração do luto.
Dar espaço para que mães, pais e familiares falem sobre a perda também é uma forma de validar esse sofrimento. Segundo a pesquisadora, reconhecer essa dor e garantir um atendimento humanizado são passos fundamentais para que essas famílias não enfrentem o luto perinatal em silêncio e sozinhas.
*Sob supervisão de Marcia Avanza
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