O que esperar do governo Abelardo de la Espriella, que assume o poder na Colômbia

Por André Lucena07/08/2026 às 10:371 visualizações
O novo presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella.
O novo presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella.
Brasil de Fato

Abelardo de la Espriella assume a presidência da Colômbia nesta sexta-feira (7), em Cali, sob protestos convocados pelo Pacto Histórico e por organizações sociais em pelo menos três capitais do país. O fim do mandato de Gustavo Petro, que não reconhece o resultado eleitoral, e a ascensão de uma figura do meio empresarial até pouco tempo praticamente desconhecida na Colômbia invertem o rumo político do país vizinho, nos planos interno e externo. 

Dentro das fronteiras colombianas, o que se espera é uma nova abordagem em relação ao tema da violência. Petro, um ex-militante do grupo guerrilheiro Movimento 19 de Abril (M-19), tornou-se o primeiro presidente de esquerda da história da Colômbia, prometendo uma política de “Paz Total” no país, apostando em acordos com atores sociais com longa história de associação com os casos de violência. De la Espriella, por outro lado, propõe um enfrentamento mais direto. O novo mandatário se apega ao apoio do governo Donald Trump no combate ao narcotráfico e à exploração ilegal de minerais.

Na política externa, sai a postura mais combativa de Petro contra os ditames de Washington sobre a soberania de países latino-americanos, e entra em cena uma abordagem mais complacente. De La Espriella já prometeu que vai fazer a Colômbia aderir ao projeto Escudo das Américas, formulado por Trump.

Para a internacionalista Maria Elena Rodríguez, professora da PUC-Rio e pesquisadora do Brics Policy Center, o alinhamento com Washington já está desenhado desde a escolha dos nomes da linha de frente da nova diplomacia colombiana. “O novo vice-presidente, José Manuel Restrepo, tem visitado Washington e repetido que Trump é o salvador do Ocidente. É um alinhamento claro, retomando laços que a Colômbia havia perdido nos últimos anos.”

Outros países da região, a exemplo da Venezuela, devem sentir os efeitos da mudança. O próprio Restrepo, em entrevista ao jornal espanhol El País em junho, não hesitou em reconhecer que quer fazer da Colômbia o aliado “quase incondicional e crucial para os Estados Unidos” no trato com a Venezuela. Para ele, a abordagem em relação ao governo interino de Delcy Rodríguez vai acontecer “por meio dos Estados Unidos, que já têm um caminho definido e vêm trabalhando para angariar recursos de investimento”. 

A favor de um, contra os outros

Motivado por tamanho estreitamento de laços, De la Espriella decidiu mover as peças da diplomacia colombiana. O novo mandatário confirmou o fechamento de embaixadas em vários países, sobretudo da África (a exemplo de Senegal e África do Sul), além de 15 consulados.

Nesta seara, a decisão mais importante é a ruptura de relações com Cuba. A alegação é que a estrutura representativa teria um custo elevado para os cofres públicos colombianos, mas os números contradizem Abelardo: segundo dados do Observatório Fiscal da Universidad Javeriana, o gasto total da Colômbia com embaixadas, chancelaria e relações exteriores representa 0,35% do orçamento público total do país. Se o argumento é a pressão fiscal, a medida tem impacto mínimo.

O giro, de natureza ideológica, também tem a ver com Israel. Espriella já prometeu reabrir a embaixada colombiana em Jerusalém, em um acordo que passa pela eliminação da exigência de visto entre os países. A decisão reverte a ruptura que tinha sido feita por Petro em 2024 em protesto contra o genocídio israelense em Gaza.

“Isso coloca a Colômbia dentro de um grupo reduzidíssimo de países que reconhecem Jerusalém como capital israelense, e reproduz, quase à risca, a decisão tomada por Trump em seu primeiro mandato”, avalia a internacionalista Maria Elena Rodríguez. Ela ressalta que um dos principais rostos desse alinhamento é o do novo chanceler colombiano, Omar Bula Escobar, uma figura conhecida pelas críticas ao multilateralismo, à ONU, à China e até às vacinas. Além da negação à crise climática. “É o protótipo de pessoa que os Estados Unidos, que o Ocidente, querem muito perto”, sintetiza a pesquisadora do Brics Policy Center.

Há um risco nessa estratégia de inserção no plano internacional, e esse risco começa a ser percebido quando se elabora a seguinte questão: e se o trumpismo não prosperar nos Estados Unidos, por exemplo, nas eleições presidenciais estadunidenses de 2028? “A estratégia é apoiar a permanência de Trump [embora a Constituição dos EUA proíba um eventual terceiro mandato dele] ou de um sucessor com a mesma linha. Mas, se a correlação de forças mudasse nos Estados Unidos, a cooperação bilateral ganharia mais condicionantes, e a Colômbia perderia peso político fora desse eixo, ficando mais isolada nos espaços multilaterais”, pondera Rodríguez. 

Questões internas

Abelardo de la Espriella deve começar apostando em uma abordagem linha-dura com os grupos armados, enquanto, no plano econômico, espera aproveitar a chegada ao poder para promover uma reforma fiscal no país. A ideia, segundo o novo governo, é revisar gastos, extinguir ministérios e fazer com que o orçamento não cresça acima da inflação a partir de 2027. Atualmente, o déficit fiscal colombiano está em cerca de 6,4% do Produto Interno Bruto (PIB).

Tudo vai depender da natureza da revisão. Caso atinjam transferências, investimentos públicos ou programas sociais, a tendência é que os custos para a sociedade colombiana sejam elevados. De toda forma, De La Espriella precisará de apoio no Congresso, o que, politicamente, pode custar caro. 

No Senado, o Pacto Histórico possui o maior número de cadeiras (25), mostrando que, apesar da derrota de Petro, o ano de 2026 consolidou certa força institucional da esquerda colombiana. Para De La Espriella, haverá boas chances de formar coalizão com o Centro Democrático (17 cadeiras), com o partido Liberal (13 cadeiras) e com o partido Conservador (10 cadeiras), mas o que se espera é que as negociações não cessem. Ou seja, esses partidos até poderão apoiar as medidas do novo governo, mas é improvável que aceitem pacotes legislativos completos. Na prática, os acertos políticos devem envolver concessões. 

A agenda de segurança deverá fazer parte da pauta congressual. De La Espriella promete construir megapresídios, legalizar o porte de armas e, como mencionado, combater diretamente os grupos armados, por meio de uma política que adquiriu o nome de “Plano Colômbia 2.0”. 

Para Jimmy Alexander Moreno, líder do movimento Congreso de los Pueblos, os interesses políticos tendem a se reorganizar. “Em alguns, haverá maioria; em outros, não. De modo geral, o governo deverá utilizar a máquina estatal em sua capacidade de articulação política para formar uma base parlamentar que lhe permita governar”, explica. 

“O governo Abelardo de la Espriella poderá significar a revogação de muitas das conquistas sociais obtidas nos últimos anos. Já se fala, por exemplo, em uma lei antiencapuzados e na criação de uma espécie de dia do anticomunismo [a proposta foi apresentada pelo senador eleito Alejandro Bermeo]”, pondera Moreno. 

O grau de mudança na política colombiana não afeta apenas a institucionalidade do país, mas os movimentos populares. Significa dizer que, com a chegada de Abelardo ao poder, setores do progressismo colombiano terão de refinar a própria prática de oposição. Inclusive, nesta sexta-feira (7), as mobilizações já foram deflagradas.

“O objetivo é demonstrar que existe uma parte importante do país disposta a defender não apenas as conquistas obtidas durante o governo Petro e as reformas sociais aprovadas, mas, também, resistir a qualquer ofensiva da direita contra os movimentos sociais, as organizações populares, os setores de esquerda e os militantes petristas e os revolucionários. A ameaça é muito séria, em razão da própria natureza do governo que está assumindo”, alerta Moreno.

Fonte
Brasil de Fato
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