Exposição revela o divino e o humano nas gravuras de Rembrandt

Por Nina Nassar*07/08/2026 às 17:560 visualizações
Foto: Nina Nassar
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Jornal da USP

Exposição revela o divino e o humano
nas gravuras de Rembrandt

Em cartaz na Caixa Cultural São Paulo, mostra com 69 obras originais revela como o artista holandês transformou o que era considerado um processo técnico numa das mais expressivas formas de arte

 Publicado: 07/08/2026 às 14:56

Texto: Nina Nassar*

Arte: Livia Bortoletto**

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A exposição Rembrandt – O Mestre da Luz e da Sombra, em cartaz na Caixa Cultural São Paulo – Foto: Nina Nassar

“Rembrandt transformou a gravura em algo que ela não era até então, atualizou suas possibilidades de uso e a transformou efetivamente em um objeto artístico.” A análise é da professora Ana Magalhães, docente e ex-diretora do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP. Como ela explica, no período Barroco holandês, as gravuras eram consideradas um processo meramente técnico, utilizado para a reprodução idêntica de imagens.  Rembrandt van Rijn (1606–1669), por outro lado, distinguia-se pelas ideias em movimento expressas em suas gravuras, nas quais eternizou seu olhar e sua espiritualidade.

Essa inovação artística é claramente percebida na exposição Rembrandt – O Mestre da Luz e da Sombra, em cartaz na Caixa Cultural São Paulo, que reúne 69 gravuras originais do mestre holandês. Inaugurada no dia 29 de julho passado, a mostra coloca o público em contato com os aspectos divinos e humanos da obra de Rembrandt, através de uma disposição e iluminação pensadas para dar ênfase aos detalhes de claro e escuro. Com entrada grátis, a exposição tem curadoria do historiador italiano Luca Baroni.

“A gravura não era, necessariamente, uma obra de arte. Ela era um meio entendido como técnico, ou seja, implicava o uso de uma técnica, de um equipamento que não eram as mãos humanas e que reproduzia a imagem”, continua Ana Magalhães. “Mas o que, sobretudo na experimentação, Rembrandt demonstra é que não se trata disso.”

Em contraste com o padrão da época, Rembrandt tratava as gravuras não como um projeto estático de repetição ideal, mas como um laboratório, espaço para teste, erro e aprendizado. A exposição inclui uma sessão dedicada aos materiais que Rembrandt utilizava para o desenvolvimento de sua técnica inovadora de água-forte e ponta-seca. Como explica Ana Magalhães, ele mesclava a corrosão do ácido diluído em água (água-forte) com o traço feito por agulhas pontudas em chapas de cobre (ponta-seca), criando linhas profundas e aveludadas, em busca de texturas dramáticas. Até deixava camadas de tinta acumuladas na superfície da chapa de cobre, fazendo com que cada cópia do molde se tornasse uma obra única, num processo um tanto intuitivo, no qual ele se permitia apropriar-se de possíveis erros e tornava os imprevistos parte de sua linguagem artística autêntica, alterando as matrizes e intensificando os contrastes.

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Chapa de cobre, agulhas e outros materiais utlizados nas técnicas de água-forte e ponta-seca, exploradas por Rembrandt – Foto: Nina Nassar

A sala principal da exposição, estreita e dividida em duas repartições, é toda iluminada pela luz alaranjada de um grande painel que ilustra a linha do tempo do artista, com as principais informações sobre sua vida e obra. A primeira fase de Rembrandt, de 1625 a 1630, está nomeada como “experimentação”, com pequenas gravuras religiosas e estudos de técnicas realistas. Após 1630, ele começou a obter reconhecimento em Amsterdã a partir das encomendas que recebia. Nesse período, dedicou-se a séries que contavam histórias e instantes bíblicos e, principalmente, passou a dominar o contraste de claro e escuro (chiaroscuro) através da prática da água-forte e da ponta-seca. Do decênio de 1650 a 1660, desenvolveu sua maturidade artística: mesmo vivendo uma crise espiritual, realizou obras-primas da gravura. A fase final de seu trabalho, até a morte, em 1669, é marcada por intensa espiritualidade e um estilo mais introspectivo. Nessa década, ele deixou de lado as técnicas das gravuras e transformou algumas delas em pinturas, como fez com O Retorno do Filho Pródigo, que impressiona pela expressividade dos personagens.

As gravuras são organizadas sob dois eixos: Divino Humano. As obras mais conhecidas, com algumas exceções, são as de inspiração religiosa. Numa única imagem são contadas histórias inteiras de passagens bíblicas, com a sensação de movimento despertada pelo uso de luz e sombra – mais do que uma técnica de desenho, o chiaroscuro serve como um guia dos olhos do observador em direção à narrativa da obra, a partir da parte mais iluminada. “A maneira como Rembrandt trabalha a luz e a sombra na gravura é o que faz dele um artista excepcional. De alguma maneira, ele traz a experiência dele da pintura para a gravura”, afirma Ana Magalhães. 

Um exemplo dessa ideia é A Descida da Cruz, de 1633, uma das primeiras gravuras de sucesso de Rembrandt, em que o artista, com um realismo aplicado sobre o corpo abatido de Jesus Cristo, evoca sensibilidade e desesperança em torno da cena sagrada. Entre diversas obras do eixo Divino, estão presentes as célebres As Três Cruzes (1653) e O Retorno do Filho Pródigo (1636). Ana lembra que a expressão de Rembrandt nos diferentes meios da arte oscila: enquanto na pintura os sentidos bíblicos não são completamente explicitados, na gravura ele permite uma dedicação maior a esses temas e narrativas religiosas.

Já o eixo Humano apresenta os projetos de retratos de rostos e cenas humanas realizados por Rembrandt. Nessas obras, o artista aplica uma perspectiva realista e sensível sobre a vida cotidiana de pessoas marginalizadas na Amsterdã do século 17, faz retratos tradicionais de pessoas e reproduz cenas familiares íntimas. “Ele é de uma geração de pintores que tinha fixado o gênero do retrato sob encomenda, inclusive, dos retratos coletivos, de corporações de ofícios, de associações e de homens de negócio”, explica Ana. O detalhe do chiaroscuro ainda se faz presente, sendo o contraste de iluminação a principal forma do artista acentuar expressões e emoções humanas. 

Um gênero que aparece com frequência na exposição é o autorretrato, num trabalho de registro do próprio envelhecimento do artista e de percepção de identidade ao longo do tempo. “A questão de Rembrandt se retratar envelhecendo é muito interessante, porque implica que, para ele, um elemento fundamental era a passagem do tempo, numa perspectiva da existência humana dele e, também, de questões existenciais. Também desse ponto de vista, é um artista excepcional”, afirma Ana. A professora defende que Rembrandt é um dos paradigmas da afirmação do artista como intelectual e criador, citando como exemplo os autorretratos em que ele aparece vestindo casacos de pele, uma marca da aristocracia. “Rembrandt fez parte desse processo que, na era moderna, levou os artistas a terem uma espécie de status social, nem sempre por riqueza, mas por distinção intelectual e cultural.”

Na esquina que divide os dois eixos da mostra, há uma parte dedicada às pessoas com deficiência visual. Encontram-se ali uma pequena escultura do rosto do artista, para toque do observador, e uma placa em braille que interpreta a obra Homem Nu Sentado no Chão com Uma Perna Estendida, de 1646. 

A sala imersiva da exposição traz a reprodução de algumas das gravuras expostas em tamanho aumentado sobre três paredes, de modo a concentrar o observador no centro. Ao rodear-se de Rembrandt, o visitante é convidado a penetrar em suas gravuras com a perspectiva de um mundo à parte, tornando seu olhar um elemento ativo na vivência das obras.

A exposição Rembrandt – O Mestre da Luz e da Sombra fica em cartaz até 27 de setembro, de terça-feira a domingo, das 9 às 18 horas, na Caixa Cultural São Paulo (Praça da Sé, 111, centro, em São Paulo). Entrada grátis.

* Estagiária sob supervisão de Marcello Rollemberg e Roberto C. G. Castro

** Estagiária sob supervisão de Thiago Quadros


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