Fascismo em rede: por que o conhecimento se tornou alvo de ataques?

Por Ivanir Ferreira07/08/2026 às 09:580 visualizações
Imagem de um livro sendo queimado e destruído. Chamas avermelhadas no meio do livro, fundo preto em degradê com cinzas.
Imagem de um livro sendo queimado e destruído. Chamas avermelhadas no meio do livro, fundo preto em degradê com cinzas.
Jornal da USP

Fascismo em rede: por que o conhecimento se tornou alvo de ataques?

Pesquisadores da USP investigam como a extrema-direita mobiliza desinformação e discurso de ódio em redes sociais para atacar instituições de produção de conhecimento

 Publicado: 07/08/2026 às 6:58

Texto: Ivanir Ferreira

Arte: Livia Bortoletto*

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Instituições de ensino e pesquisa voltadas à produção do conhecimento em ciências humanas têm sido alvo de ataques e de discursos de ódio em redes sociais – Foto: Magnific

As invasões à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, registradas ao longo de 2025, são o ponto de partida de um estudo que investiga como grupos da extrema-direita brasileira utilizam discursos ódio, desinformação e performances políticas nas redes sociais para atacar instituições de produção de conhecimento científico. Publicado na Revista Brasileira de Sociologia, o artigo derivado do estudo analisa por que a unidade, reconhecida por sua trajetória de resistência política e pela relevância nas ciências humanas, tornou-se alvo desses ataques. Os autores defendem que essas estratégias configuram uma nova forma de “fascismo em rede”, baseada na circulação digital de narrativas de ódio ao conhecimento crítico e de resistência à democracia.

“As instituições de ensino superior, especialmente aquelas voltadas às ciências humanas, vêm sendo, há décadas, alvo de discursos que as acusam de promover doutrinação ideológica de esquerda”, afirma Marcelo de Trói, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP e primeiro autor do artigo. Segundo o pesquisador, esse tipo de narrativa procura deslegitimar a produção do conhecimento científico ao apresentar universidades, professores e pesquisadores como agentes de um projeto político-partidário. Na avaliação de Trói, esse discurso ganhou força nos últimos anos com a ampliação das redes sociais e passou a alimentar ações de confronto contra instituições acadêmicas, transformando os campi universitários em alvos de mobilizações de grupos de extrema-direita.

Características do fascismo em rede

Segundo o professor Trói, as transformações provocadas pelas plataformas digitais exigem que as ciências sociais ampliem suas formas de análise para compreender como fenômenos políticos contemporâneos se organizam. Se antes os estudos se concentravam em estruturas como Estado, família e sociedade, hoje é necessário considerar também o ambiente tecnopolítico, onde parte significativa da mobilização política acontece.

Nesse contexto, Trói define o chamado fascismo em rede como uma forma de organização política baseada nas novas tecnologias de comunicação. “Embora utilize linguagens, códigos e ferramentas próprias do universo digital, o fenômeno mantém vínculos com o fascismo histórico”, ressalta.

Marcelo de Trói –
Marcelo de Trói – — Acervo pessoal
Marcelo de Trói – Foto: Acervo pessoal

O fascismo em rede não surgiu com a internet. Segundo o professor, o fascismo do século 20 também se organizava por meio de redes de articulação política entre diferentes países. Um exemplo foi a aliança formada entre a Alemanha nazista, a Itália fascista e o Japão imperial — conhecida como eixo Berlim-Roma-Tóquio —, que compartilhava estratégias, ideologias e apoio político. Essas conexões também alcançaram outros países, como o Brasil, onde o integralismo incorporou elementos inspirados nos regimes fascistas europeus.

A principal diferença, explica o professor, está no ambiente em que essa articulação ocorre. “No fascismo em rede, a mobilização política se desloca para plataformas digitais, onde vídeos, memes, influenciadores e algoritmos potencializam a circulação de discursos autoritários, antidemocráticos e anti-intelectuais, ampliando seu alcance e capacidade de engajamento”, diz.

Os participantes das ações gravam os ataques, editam os vídeos e os publicam nas redes sociais para reforçar a narrativa de combate ao que chamavam de “doutrinação esquerdista” nas universidades. “As agressões vão além do discurso: são encenações planejadas para produzir conteúdo, ampliar o engajamento e conquistar visibilidade no ambiente digital”, diz Bruno Ciorlia Nascimento, segundo autor do artigo e estudante de Gestão de Políticas Públicas, também na EACH.

O artigo aponta que a extrema-direita se apropriou de estratégias de mobilização tradicionalmente associadas a movimentos de esquerda, como ocupações, confrontos simbólicos e ações voltadas à ampla repercussão pública. Segundo os autores, essas táticas, historicamente ligadas a movimentos estudantis e sociais, foram ressignificadas e passaram a ser utilizadas em torno de pautas como o combate ao “sistema”, à corrupção e em defesa da liberdade de expressão. No caso brasileiro, os pesquisadores afirmam que essa apropriação se manifesta em ocupações de espaços públicos, transmissões ao vivo de manifestações e na retórica de “reconquista do povo”.

FFLCH: símbolo da produção do pensamento crítico

Para Nascimento, a FFLCH tornou-se alvo de grupos de direita por ocupar um lugar de destaque na produção de conhecimento e na formação do pensamento crítico no Brasil. Segundo o pesquisador, a faculdade acumulou, ao longo de sua história, um forte capital simbólico e passou a ser identificada como um espaço de intensa participação política e de debate público, especialmente desde o período da ditadura militar.

O autor explica que os ataques à FFLCH não podem ser compreendidos de forma isolada. Eles fazem parte de um movimento mais amplo de contestação às ciências humanas e aos referenciais teóricos dessas áreas. Como exemplo, ele cita as mudanças promovidas pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, que reduziram o espaço de disciplinas das ciências humanas no ensino médio. Para o pesquisador, essas iniciativas dialogam com discursos que colocam em dúvida a legitimidade da produção científica e do conhecimento acadêmico.

Bruno Ciorlia Nascimento –
Bruno Ciorlia Nascimento – — Acervo pessoal
Bruno Ciorlia Nascimento – Foto: Acervo pessoal

Nascimento afirma que esse cenário também se relaciona à difusão de narrativas como a suposta falta de neutralidade do ensino, as propostas defendidas pelo movimento Escola sem Partido e a ideia de uma ameaça comunista nas universidades. “Essas narrativas têm caráter ideológico e não encontram respaldo em evidências, mas contribuem para alimentar ataques às instituições de ensino superior e à produção de conhecimento científico”, diz.

O autor ressalta, ainda, que o discurso sobre uma suposta doutrinação ideológica nas escolas brasileiras foi fortemente influenciado pelos escritos de Olavo de Carvalho – autoproclamado filósofo brasileiro e guru intelectual do bolsonarismo e da nova direita brasileira. Segundo o pesquisador, essas ideias difundem a percepção de que o sistema educacional promove uma agenda política de esquerda e colocam em xeque o conhecimento produzido e ensinado nas instituições de ensino. Em sua avaliação, esse tipo de narrativa extrapola a crítica ao conteúdo escolar e busca gerar desconfiança entre as famílias em relação ao trabalho de professores e pesquisadores. Como exemplo, ele cita afirmações presentes nos escritos de Olavo de Carvalho que alertavam pais para a possibilidade de seus filhos retornarem da escola acreditando em interpretações sem respaldo no currículo escolar, como a de que Jesus seria gay.

Sequência de invasões e ataques

Embora a FFLCH tenha sido palco de manifestações e disputas políticas envolvendo diferentes grupos, o estudo identifica uma escalada de ações promovidas por grupos de direita ao longo de 2025. Ao todo, os pesquisadores registraram oito episódios de invasões e confrontos envolvendo influenciadores digitais conservadores, estudantes e agentes políticos.

O primeiro caso ocorreu em maio, quando um ex-candidato a vereador pelo Partido Liberal (PL) entrou no vão livre da faculdade, rasgou cartazes e confrontou estudantes. Dias depois, ele retornou ao local e repetiu as provocações. Em agosto, uma nova invasão interrompeu a 1ª Olimpíada de Xadrez da FFLCH, com destruição de faixas e intimidação dos participantes. Em setembro, um novo episódio mobilizou ativistas de direita, que invadiram novamente a unidade. Durante a ação, um estudante e um professor foram agredidos. Para os autores do estudo, a sucessão desses episódios evidencia uma estratégia de confrontação voltada à ocupação de espaços universitários e à amplificação dos conflitos nas redes sociais.

Embora as ações tenham se concentrado na FFLCH, o diretor da unidade, o professor Adrián Pablo Fanjul, afirma que o alvo é a USP como instituição, a fim de desacreditá-la como universidade pública, como espaço de produção de conhecimento, autonomia intelectual e resistência democrática.

Medidas protetivas

A direção da faculdade adotou medidas jurídicas, institucionais e políticas para enfrentar os ataques. Segundo o professor Fanjul, a resposta da unidade à série de invasões registradas em 2025 foi estruturada em diferentes frentes. Entre as primeiras medidas, estiveram a elaboração de orientações para a comunidade acadêmica sobre como agir durante as invasões e o acompanhamento das pessoas afetadas para o registro de Boletins de Ocorrência.

No âmbito institucional, a direção encaminhou à Reitoria da USP pedidos para adoção de medidas judiciais e de segurança. De acordo com Fanjul, essas iniciativas resultaram no acionamento da Secretaria da Segurança Pública do Estado pela Administração Central da Universidade. Paralelamente, a FFLCH passou a atuar em conjunto com outras instituições de ensino superior que também relataram episódios semelhantes, como o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o campus Guarulhos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em articulações com o Ministério Público e o Ministério da Educação.

O diretor afirma que, além das medidas administrativas e jurídicas, a faculdade investiu em uma resposta política e institucional, com o lançamento da campanha Em Defesa da FFLCH, que reuniu manifestações de apoio de pesquisadores, entidades científicas e representantes da sociedade civil. Segundo ele, a iniciativa buscou reafirmar o papel da universidade pública e destacar a ampliação do acesso ao ensino superior, evidenciada pela crescente diversidade social do corpo discente.

“Os ataques às universidades fazem parte de um projeto político mais amplo de deslegitimação da produção científica e das instituições públicas de ensino”, avalia Fanjul ao Jornal da USP. O diretor defende que a Universidade mantenha ações permanentes de esclarecimento à sociedade e de fortalecimento da pesquisa, da ciência e da educação pública como formas de enfrentar esse tipo de mobilização.

O artigo Performances políticas da extrema direita no Brasil: invasões na FFLCJ-USP e circulação digital do ódio ao conhecimento foi publicado na Revista Brasileira de Sociologia.

Mais informações: com o professor Marcelo de Trói, e-mail marcelotroi@usp.br; e Bruno Ciorlia Nascimento, e-mail brunonascimento06@usp.br


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