Desde a participação do presidente argentino, Javier Milei, no lançamento da campanha eleitoral de Flávio Bolsonaro em julho de 2026, sucederam-se uma série de acusações entre os presidentes da Argentina e do Brasil. Como reflexo desse atrito diplomático, houve a convocação dos embaixadores para consultas e o rebaixamento das relações para o nível de encarregado de negócios.
Há três pontos importantes a serem considerados diante desses episódios. Em primeiro lugar, entender como os acontecimentos de 2026 refletem tensionamentos acumulados durante vários anos. Em segundo, considerar as diferenças entre as ações públicas das autoridades de alto nível e as relações estruturais entre os dois países. Em terceiro lugar, refletir sobre qual é o impacto para as estratégias político-eleitorais atuais.
Apesar de assumirem maior projeção agora, há desentendimentos entre os presidentes da Argentina e do Brasil há algum tempo. Em particular, se iniciou um desalinhamento ideológico entre os governos a partir de 2019, quando Alberto Fernández foi eleito para a Casa Rosada, contrastando com a visão política de Jair Bolsonaro.
Desde então, os encontros bilaterais foram muito reduzidos, com exceção do período em que houve convergência entre Fernández e Lula, em 2023. Naquele ano, os dois governos chegaram a aprovar um Plano de Ação para o Relançamento da Aliança Estratégica Brasil-Argentina. Apesar dos mandatários terem se encontrado em cúpulas multilaterais – por exemplo, quando o G20 foi organizado no Rio de Janeiro – há um forte contraste com anos anteriores nos quais visitas bilaterais entre Brasília e Buenos Aires eram regularmente conduzidas.
Portanto, o desalinhamento entre Milei e Lula tem maior proporção na atualidade, mas não é algo inédito, pois reflete relações que foram difíceis ao longo de vários anos, inclusive em conjunturas eleitorais. Podemos lembrar das posses de Fernández e de Milei, nas quais os presidentes Bolsonaro e Lula não participaram diretamente. Sendo assim, percebem-se dificuldades no relacionamento entre os indivíduos que ocuparam as presidências dos maiores países sul-americanos.
Importância mútua
Apesar disso e das crescentes críticas públicas entre si, as interações entre os indivíduos não impactam necessariamente nas dimensões econômicas e sociais entre Argentina e Brasil. A história construída entre os dois vizinhos há mais de 200 anos passou por diferentes momentos, inclusive uma forte rivalidade durante as ditaduras militares no século XX.
Com o ciclo de redemocratizações na América Latina, o eixo entre Argentina e Brasil é fortalecido. As iniciativas a partir da década de 1980 , entre as quais se destaca, sobretudo, a fundação do Mercosul em 1991, estruturam de forma mais previsível as relações entre os dois países, inclusive regulando fluxos de pessoas e as trocas comerciais.
Por mais de três décadas, é possível notar a importância que o Brasil tem para a economia argentina, assim como a Argentina tem para a economia brasileira. Em 2025, por exemplo, a Argentina foi o terceiro maior parceiro comercial do Brasil.
Além disso, a presença de ambos no sistema internacional também está pautada pelas formas como o Mercosul e outras organizações regionais conduziram as relações internacionais ao longo dos anos. Entre outros casos, pode-se mencionar a assinatura de acordos comerciais extrarregionais e o apoio à manutenção da democracia durante crises políticas. O Protocolo de Ushuaia, aprovado em 1998, estabeleceu a plena vigência das instituições democráticas como condição essencial para o processo de integração.
Nesse sentido, é importante ressaltar que, apesar do alto nível das autoridades, o perfil do que ocorre entre os indivíduos não impacta obrigatoriamente nas relações mais amplas que foram estruturadas entre as sociedades.
O terceiro aspecto a ser ressaltado é sobre o que isso significa para a própria trajetória política de Javier Milei. Trata-se de presidente que, no nível doméstico, depende de coalizão para manter sua governabilidade e que, em breve, passará também por período eleitoral, com a possibilidade de reeleição. Trata-se de liderança que tem atividade partidária fora da Argentina, tendo inclusive já participado de eventos políticos no Brasil anteriormente.
Alternâncias de sinal político
Além disso, Milei demonstra apoio a outros governos latino-americanos que se situam à direita no espectro político. Isso permite projetá-lo como nome influente internacional, de forma a compensar desafios políticos internos na Argentina. Nesse contexto, ele se beneficiaria internamente de ter apoio político direto no Brasil, o que acompanharia eleições que ocorreram recentemente no Chile, na Colômbia e no Peru, por exemplo.
Porém, convém lembrar que são governos que se diferenciam entre si, inclusive em aspectos ideológicos, sendo difícil de categorizá-los em um único grupo, mesmo que se apresentem como uma unidade, a Onda Azul. Elementos que os aproximam são realidades semelhantes vividas por eleitorados de vários países que impulsionam o voto anti-incumbente, que pode ser também contra governos de direita, como ocorreu recentemente no Uruguai . A própria Argentina, inclusive, vivencia uma permanente alternância de sinal político ao longo dos últimos quatro mandatos presidenciais.

André Araujo não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
