O desafio de enfrentar o envenenamento do Brasil

Por Campanha Contra os Agrotóxicos10/08/2026 às 18:510 visualizações
Uma criança segura um cartaz com o texto "agrotóxico mata". Ao redor, estão adultos agricultores. Estão todos em um lugar que aparenta ser uma horta
Uma criança segura um cartaz com o texto "agrotóxico mata". Ao redor, estão adultos agricultores. Estão todos em um lugar que aparenta ser uma horta
Brasil de Fato

O avanço dos agrotóxicos ameaça a vida e exige o fortalecimento da agroecologia como caminho para o bem viver

O Brasil celebrou no dia 5 de agosto o Dia Nacional da Saúde, uma data criada para comemorar vitórias e defender o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), uma das maiores conquistas da sociedade organizada para a garantia deste direito fundamental. No entanto, para a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, este é um período de profunda reflexão e denúncia sobre o modelo de desenvolvimento que prioriza o lucro em detrimento da vida. 

O país ostenta o título preocupante de maior consumidor de agrotóxicos do mundo, utilizando volumes que superam as marcas da China e dos Estados Unidos somadas. Dados mostram que o Brasil utilizou cerca de 1,6 milhão de toneladas de venenos em 2024, o que representa uma ameaça direta à saúde pública e ao equilíbrio ambiental. Essa realidade não é fruto do acaso, mas de uma escolha política e econômica que favorece o agronegócio exportador de commodities, como soja e milho, em detrimento da soberania alimentar e da saúde da população.

O cenário de envenenamento é agravado por retrocessos legislativos recentes, como a aprovação do chamado Pacote do Veneno em 2023. Essa nova legislação fragiliza a regulação e permite até mesmo o registro de substâncias cancerígenas sob a justificativa de um suposto risco aceitável, reduzindo a capacidade do Estado de proteger os cidadãos. 

Somente no final de junho de 2026, o governo federal autorizou o registro de 92 novos pesticidas, evidenciando uma aceleração no desmonte regulatório que ignora o princípio da precaução. 

Enquanto o mercado de venenos se expande, a sociedade brasileira paga a conta com sucessivas violações ao direito constitucional à saúde.

O lucro do agronegócio custa a vida da população brasileira

Os impactos dos agrotóxicos na saúde humana são vastos e cientificamente comprovados por diversas pesquisas acadêmicas. Substâncias como o glifosato, amplamente utilizado em lavouras transgênicas, estão relacionadas ao linfoma não-Hodgkin e outros tipos de câncer. O uso da atrazina, encontrada em plantações de milho, pode causar distúrbios hormonais, anemia e problemas no fígado. 

A substituição de produtos banidos por outras substâncias igualmente perigosas também é uma tática comum da indústria. Após a proibição do paraquat no Brasil em 2017 por associação ao risco de Parkinson, o uso do diquat, um herbicida da mesma família química, multiplicou por dez até 2024. 

Entre 2018 e 2025, os casos de intoxicação por diquat cresceram 1100%, totalizando 250 registros e pelo menos 40 mortes. Este veneno, proibido na Europa, ataca o sistema nervoso central, os rins e os pulmões, sendo fatal em muitos casos de ingestão. 

A exposição repetida a esses produtos afeta não apenas quem trabalha diretamente no campo, mas também moradores de áreas rurais e consumidores nas cidades, que ingerem resíduos por meio de alimentos e da água. No Rio Tietê, em São Paulo, pesquisadores já identificaram resíduos de 25 tipos diferentes de agrotóxicos, o que demonstra a escala da contaminação ambiental que atinge os grandes centros urbanos.

Agroecologia e políticas públicas são as saídas para o futuro

Diante desse cenário de guerra química contra a população, é urgente projetar formas de enfrentamento e resistência. O terceiro Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente, realizado no mês de maio em Cuiabá (MT), reafirmou que a ciência deve estar comprometida com a transformação social e com a defesa da vida. 

A articulação entre os saberes acadêmicos e os conhecimentos tradicionais de povos indígenas, quilombolas e camponeses foi apontada pelas organizações como elemento fundamental para construir alternativas ao modelo hegemônico de exploração. Nesse sentido, a agroecologia surge como a principal via de superação, provando que é possível produzir alimentos saudáveis em larga escala sem poluir a natureza ou adoecer as pessoas.

Para enfrentar o avanço dos agrotóxicos, é preciso fortalecer a vigilância popular em saúde e exigir a implementação efetiva de políticas públicas, como a Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo, da Floresta e das Águas. 

Também é imprescindível tirar do papel o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), conquistado com tanta luta pelos movimentos populares, e garantir que o Estado cumpra seu papel de fiscalizar e monitorar os impactos das substâncias químicas. 

Além disso, a criação de canais unificados para denúncias de contaminação e a responsabilização jurídica das empresas fabricantes são passos essenciais para romper com a impunidade do setor. 

Finalmente, está na hora de multiplicarmos pelo Brasil os territórios livres de agrotóxicos, até que possamos eliminar de uma vez por todas o uso de venenos que tanto dano tem feito à saúde coletiva. 

Neste mês da saúde, a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida convoca toda a sociedade para se somar nesta luta. Não podemos aceitar que a saúde seja tratada como mercadoria e que o lucro de poucas empresas multinacionais valha mais do que a integridade física e mental do povo brasileiro. 

O combate ao latifúndio e a promoção da reforma agrária são indissociáveis da luta contra o veneno, pois somente com a democratização da terra poderemos garantir um sistema alimentar justo, saudável e sustentável para as atuais e futuras gerações. 

*Leonardo Fernandes é jornalista, mestre em Desenvolvimento Territorial na América Latina e contribui com a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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