
As mudanças climáticas tornaram-se um dos maiores desafios contemporâneos, exigindo respostas coordenadas em múltiplas frentes. Nesse contexto, os termos mitigação e adaptação aparecem de forma costumeira. Embora frequentemente convocados juntos, eles não significam as mesmas formas de atuação, pois envolvem estratégias distintas.
Mitigação diz respeito às ações voltadas para reduzir as causas das mudanças climáticas, enquanto a adaptação busca ajustar sociedades, cidades, sistemas produtivos e ecossistemas aos impactos provocados pelas mudanças climáticas.
A partir dos documentos oficiais do Plano Clima, especialmente a Estratégia Nacional de Mitigação e a Estratégia Nacional de Adaptação, elaborados pelo atual governo brasileiro, podemos compreender como essas duas dimensões se articulam no enfrentamento da crise climática.
Mitigação: eliminando as causas das mudanças climáticas
De acordo com esse planejamento, percebemos que a mitigação atua diretamente sobre as causas do aquecimento global, principalmente a emissão de gases de efeito estufa. O objetivo é transformar o modo como a sociedade produz e usa energia, ocupa o território e organiza seus sistemas produtivos.
Mitigar envolve, portanto, o esforço em mudar parâmetros culturais estabelecidos da sociedade para assim diminuir os efeitos do aquecimento global.
No caso brasileiro, nossa agenda é marcada pelo desafio de conter o desmatamento e a mudança do uso do solo, principais fontes nacionais de emissões de carbono, especialmente ligadas à agricultura e à pecuária. A mitigação, portanto, envolve a adoção de modelos sustentáveis de produção agropecuária, capazes de reduzir a pressão sobre biomas e aumentar a eficiência no uso da terra.
Instituições como a Embrapa são fundamentais para o desenvolvimento de tecnologias adaptadas aos diferentes biomas brasileiros, que sejam capazes de contribuir para a produtividade agropecuária com redução das emissões.
A Estratégia Nacional de Mitigação destaca que a recuperação da vegetação nativa e o plantio de florestas são formas eficazes de capturar carbono, contribuindo simultaneamente para a conservação da biodiversidade e a segurança hídrica.
A transição energética, a ampliação de fontes limpas e renováveis e o desenvolvimento de tecnologias, como a bioenergia com captura e armazenamento de carbono, acompanhada da redução progressiva (fase out) do uso de combustíveis fósseis como o petróleo, são outros caminhos estratégicos fundamentais para reduzir emissões em setores de difícil abatimento.
Já nos centros urbanos, medidas como o aumento de áreas verdes, a permeabilização do solo e a proteção de encostas ajudam a capturar carbono e reduzem os impactos de eventos extremos.
Adaptação: lidando com os efeitos inevitáveis das mudanças climáticas
A adaptação, por sua vez, atua sobre os efeitos já observados ou inevitáveis das mudanças climáticas. Quando estamos diante de uma realidade profundamente afetada, a qual não conseguimos modificar, a adaptação busca estratégias que possibilitem a nossa sobrevivência na realidade adversa.
Dessa forma, nos adaptamos à nova realidade, sem reduzir diretamente as causas do aquecimento global. A Estratégia Nacional de Adaptação reforça essa perspectiva ao estabelecer objetivos como aumentar a resiliência de populações, cidades e infraestruturas; promover a segurança hídrica; proteger ecossistemas e biodiversidade; reduzir desigualdades; e fortalecer o papel do oceano e da zona costeira no enfrentamento climático.
A adaptação envolve desde intervenções urbanas como, por exemplo, a reorganização da infraestrutura para lidar com enchentes, construção de sistemas subterrâneos de energia e comunicação e fortalecimento do transporte público, até soluções tecnológicas, como sistemas de remoção de CO₂ e estratégias para degradar resíduos e poluentes.
Na agricultura, a adaptação inclui o desenvolvimento de culturas resistentes aos extremos climáticos e pesquisas sobre genes associados ao estresse hídrico e térmico. Em alguns casos, a adaptação pode envolver a produção agrícola em ambientes controlados, como estufas com polinização manual, especialmente quando polinizadores naturais foram reduzidos.
Neste contexto, relevante iniciativa sobre os índices e os indicadores dos avanços das mudanças do clima para as cidades brasileiras é a plataforma Adapta Brasil MCTI, instituída pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
Estratégias complementares e indispensáveis
A diferença fundamental entre mitigação e adaptação está, portanto, no foco das ações. Enquanto a mitigação atua sobre as causas das mudanças climáticas, a adaptação atua sobre seus efeitos. Vale ressaltar que a adaptação, isoladamente, não impede processos globais como o degelo dos polos ou o aumento contínuo da temperatura média do planeta.
Além disso, a adaptação tende a aprofundar desigualdades, pois costuma ter um alto custo agregado. Essa é uma preocupação da Estratégia Nacional de Adaptação, que ressalta a necessidade de indicadores desagregados por grupos vulnerabilizados, como mulheres, crianças, idosos, povos indígenas, comunidades tradicionais e periferias das cidades, reconhecendo que a vulnerabilidade climática é profundamente desigual.
Apesar das diferenças, mitigação e adaptação são complementares e indispensáveis. O Plano Clima coloca o Brasil no caminho de se tornar um país sustentável, resiliente, seguro e justo, articulando ações que visam tanto à transição para uma economia de emissões líquidas zero até 2050 quanto à adaptação de sistemas humanos e naturais à mudança do clima.
A recuperação da vegetação nativa, por exemplo, é citada como uma medida que contribui simultaneamente para mitigação e adaptação, ao capturar carbono e fortalecer a resiliência hídrica e ecológica. A Estratégia Nacional de Mitigação afirma que a restauração das vegetações nativas gera benefícios como a proteção dos solos e a segurança hídrica, enquanto a Estratégia Nacional de Adaptação destaca a importância de ampliar a cobertura vegetal urbana e conectar áreas protegidas, por meio de corredores ecológicos, fortalecendo a resiliência dos ecossistemas.
O Brasil reconhece que a definição de metas e indicadores de adaptação é um processo político e estratégico. A Estratégia Nacional de Adaptação afirma que esse processo representa “uma oportunidade única de consolidar a adaptação como prioridade do desenvolvimento sustentável do Brasil”, reforçando a necessidade de monitoramento, avaliação e aprendizado contínuos.
Da mesma forma, a mitigação exige investimentos, inovação tecnológica e coordenação entre governo, setor privado, sociedade civil e comunidade científica, como destaca a Estratégia Nacional de Mitigação ao afirmar que a transição para sistemas de uso da terra que removam carbono é um desafio complexo que requer esforços coordenados.
Longe de serem sinônimos, mitigação e adaptação são pilares complementares da resposta brasileira e global à crise climática. A mitigação busca evitar que o problema se agrave, enquanto a adaptação busca proteger vidas, ecossistemas e infraestruturas diante dos impactos já em curso e reduzir seus efeitos futuros. Compromissadas com o nosso futuro, essas dimensões políticas constituem uma estratégia capaz de enfrentar a emergência climática.

Patrícia Morellato não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
