‘Impossível acontecer’: por que as eleições de dezembro no Haiti nascem sob forte contestação

به قلم Cha Dafol11/08/2026 às 09:001 بازدید
Lançamento do Movimento de Resistência Patriótico na região Centro
Lançamento do Movimento de Resistência Patriótico na região Centro
Brasil de Fato

“Essas eleições não têm como acontecer no contexto atual do país.” Jean William Jeanty, ex-senador e membro da coalizão de esquerda Frente Patriótica Popular (FPP), é categórico ao comentar o calendário publicado em julho pelo Conselho Eleitoral Provisório do Haiti (CEP), que estabelece a data de 13 de dezembro para a realização do primeiro turno das eleições gerais. O pleito vem sendo adiado há mais de quatro anos, num contexto de crise institucional sem precedente, e continua bastante improvável de ser realizado este ano.

Dados não faltam para apontar que as condições mínimas de segurança, logística e circulação não estão reunidas para o exercício livre da democracia. Conflitos armados têm ocorrido semanalmente na capital e seus arredores, e um milhão e meio de refugiados internos, expulsos dos seus bairros pela violência, continuam longe de suas casas. As principais estradas do país estão bloqueadas pelas gangues e o funcionamento das instituições do Estado, assim como dos hospitais, escolas e universidades, tem sido intermitente ou suspenso.

A própria Força de Repressão das Gangues (FRG), operação militar lançada em setembro do ano passado pelas Nações Unidas, sob pressão estadunidense, com o suposto objetivo de restabelecer a segurança no país, ainda não deu nenhum resultado concreto, nem mesmo sinal de otimismo para este ano. O seu plano de ação, apresentado em junho ao Conselho de Segurança, estabelece o prazo de setembro de 2028 para “criar as condições mínimas de segurança” que permitiriam a volta do Estado de direito.

Em tal contexto, o calendário eleitoral defendido pelo governo não parece outra coisa do que uma estratégia para ganhar tempo e se manter no poder, frente a uma comunidade internacional que não esconde sua preocupação. Medidas “para o inglês ver”… e pagar a conta! Pois o cumprimento da agenda eleitoral depende também de um financiamento externo para arcar com o seu orçamento, estimado em 120 milhões de dólares. Mais um motivo de indignação por parte da oposição: como garantir a soberania popular e nacional se o país depende de uma “ajuda” imperialista para dar conta dos seus processos democráticos?

A população à margem do processo

Seria um eufemismo dizer que a população haitiana está pouco animada com a perspectiva de novas eleições. Há tempos a política institucional, constantemente assediada por intervenções estrangeiras ou pela corrupção da elite do país, não desperta muito entusiasmo. As últimas eleições gerais aconteceram em 2016. Na época, apenas 18% dos eleitores se deram ao trabalho de ir às urnas e o presidente Jovenel Moïse foi eleito com pouco mais de 500 mil votos – dentro de uma população de 11 milhões. Cinco anos depois, ele foi assassinado por mercenários estrangeiros.

Este ano, como parte da agenda eleitoral, o CEP anunciou que todos os títulos de eleitor usados na última eleição estavam vencidos e que seria indispensável tirar um novo título para poder votar em dezembro. Uma exigência que, mais uma vez, destoa da realidade atual do país, em que o próprio deslocamento até um centro eleitoral pode ser um risco de vida.

“O Haiti tem entre 6 e 7 milhões de eleitores potenciais”, explica Jeanty. “Atualmente, temos em torno de quatro mil pessoas se inscrevendo a cada dia [para tirar o título]. O prazo para se inscrever é de 85 dias. Isso quer dizer que, continuando neste ritmo, apenas 340 mil cidadãos estarão com título em mãos quando acabar o prazo! Eles vão querer fazer as eleições com apenas 340 mil eleitores? A verdade é que a população não está interessada!”

Do ponto de vista dos partidos políticos, a situação é mais complexa. Mais de 320 partidos já se inscreveram para participar destas eleições. Estão organizados em 18 plataformas (ou federações). Poucos, no entanto, representam a esquerda, uma vez que a maioria dos partidos do campo popular se recusou a entrar no jogo no que denunciam como uma mascarada democrática.

“Não adianta correr para fazer uma eleição em que não há nenhuma chance de as pessoas decidirem algo. Não é a prioridade. Precisamos encontrar soluções para os problemas da segurança, do desemprego, da crise, da justiça… A prioridade da sociedade, hoje, é restabelecer a paz, organizar um verdadeiro diálogo, para que o país possa andar com os próprios pés”, insiste Jeanty.

Os questionamentos levaram, no início do mês de agosto, à construção do Movimento de Resistência Patriótica, do qual Jeanty faz parte. Ao lado de partidos políticos progressistas, sindicatos, organizações camponesas, movimentos feministas e sociais, empenha-se em definir um novo projeto de país, a partir do trabalho de base, e contra o projeto de neocolonização implementado pelo governo.

O quadro jurídico

Além das dúvidas políticas e logísticas associadas ao calendário eleitoral, o próprio quadro jurídico da eleição apresenta contradições. Primeiro, porque a pressão exercida pelo governo no Conselho Eleitoral Provisório já ultrapassou os limites da independência deste último, despertando uma ampla indignação na esfera política.

“Através do controle das alavancas financeiras, administrativas e de segurança, o Executivo exerce uma pressão constante sobre os membros do CEP”, expressou o grupo da Oposição Progressista (Centrista) numa carta dirigida ao próprio Conselho Eleitoral Provisório. “As tentativas de independência de alguns conselheiros esbarram rapidamente em ameaças de destituição ou de marginalização, consagrando a preeminência de um Executivo onipotente sobre o árbitro eleitoral.”

Outro elemento de incoerência é a intenção de realizar, junto com as eleições gerais, um referendo constitucional que alteraria as instituições do país. Não se sabe ainda o conteúdo dessas modificações, mas o próprio resultado do referendo poderia anular o das eleições. Seria possível eleger deputados e senadores e, no mesmo dia, votar um projeto constitucional que mudaria a composição e as atribuições da Câmara e do Senado.

Por fim, é imprescindível olhar para a diáspora, que se encontra completamente apartada desse processo eleitoral. Estima-se que entre dois e quatro milhões de haitianos vivam no exterior, contribuindo com cerca de 25% do PIB, por meio das remessas. No entanto, o planejamento do CEP não prevê nenhum dispositivo de voto em embaixadas, consulados ou à distância para garantir o direito desses cidadãos.

Num comunicado à imprensa, o coletivo Nou Bouke, que reúne haitianos vivendo em diversos países, considera “escandalosa” a ideia de realizar eleições no contexto atual e sem a participação da diáspora. “Excluir do processo eleitoral milhões de haitianos que contribuem a cada ano para a sobrevivência econômica do país representa uma injustiça imensa e um verdadeiro assalto à democracia. Tal exclusão leva a questionar a representatividade do escrutínio e a legitimidade dos futuros eleitos”.

منبع
Brasil de Fato
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