“Mapa da Desigualdade 2025” mostra abismo entre centro e periferia

Por Paulo Capuzzo11/08/2026 às 15:390 visualizações
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
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Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil / Jornal da USP

A Rede Nossa São Paulo e o Instituto Cidades Sustentáveis divulgaram recentemente o relatório, que traz dados referentes a São Paulo e, pela primeira vez, os relativos à Região Metropolitana

 Publicado: 11/08/2026 às 12:39
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Rovena Rosa/Agência Brasil
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A divulgação, no mês de junho passado, do Mapa da Desigualdade 2025, reforça, uma vez mais, que o CEP (Código de Endereçamento Postal) continua como um dos principais fatores a influenciar a qualidade de vida dos moradores de São Paulo, o que, na prática, significa dizer que os distritos que concentram acesso a serviços públicos, equipamentos culturais, transporte e oportunidades de trabalho aparecem na ponta da tabela no tocante a todos os indicadores representativos de uma melhor qualidade de vida. Eles estão localizados no centro expandido e na Zona Oeste/Sul  (como Consolação, Moema e Alto de Pinheiros), enquanto os piores índices ficam na periferia, liderados por Brasilândia, Vila Medeiros (ambos na Zona Norte da cidade) e Cidade Ademar (Zona Sul).

Ferramenta essencial para a elaboração de políticas públicas, o Mapa da Desigualdade é publicado anualmente pela Rede Nossa São Paulo e pelo Instituto Cidades Sustentáveis desde 2013 e analisa indicadores socioeconômicos divididos entre os 96 distritos de São Paulo, constituindo uma contribuição valiosa para gestores públicos e sociedade civil no momento de identificar prioridades e necessidades, graças à coleta e à comparação de um conjunto pré-definido de indicadores temáticos. A elaboração do mapa leva em conta 45 indicadores, distribuídos em áreas como saúde, educação, moradia, mobilidade, assistência social, segurança pública, renda, entre outros.

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Reprodução/Instituto Cidades Sustentáveis
Foto: Reprodução/Instituto Cidades Sustentáveis

 

O relatório mais recente revela – em comparação, por exemplo, ao de 2024 – que as desigualdades territoriais na capital paulista se mantiveram estruturadas, com o agravamento de alguns índices nas regiões centrais e pouca variação nos extremos da cidade. De modo geral, portanto, os distritos centrais e mais estruturados concentram os melhores indicadores, enquanto as regiões periféricas enfrentam maiores desafios de acesso a direitos e serviços públicos. Nesse sentido, o desempenho em saúde, habitação, educação e segurança pública levou o distrito da Consolação a apresentar a melhor pontuação (71,09 de um total de 96 possíveis) no ranking geral do Mapa da Desigualdade 2025. Os mesmos indicadores (habitação, saúde e segurança pública) empurraram a Brasilândia para a última colocação do ranking, com 47,27 pontos. Desnecessário dizer que tais indicadores estão entre as principais preocupações da população paulista.

Segurança x violência

Pesquisas recentes, assim como entrevistas no rádio, na televisão e em jornais com a população, dão conta de que a segurança pública é uma das maiores preocupações não só do paulistano como do brasileiro de modo geral. A violência e o crime afetam diretamente a vida e a rotina da população nas cidades, chegando a superar a preocupação com temas de ordem econômica. Assaltos e furtos e a criminalidade organizada aparecem como gatilhos causadores de ansiedade e tensão, fatores amplificados pela sensação de vulnerabilidade e impunidade. Nesse cenário, as mulheres aparecem como as grandes vítimas. As paulistanas se sentem mais vulneráveis e correm maior risco de assédio no transporte público (52%), nas ruas (17%) e em bares e casas noturnas (9%), conforme dados da pesquisa de opinião Viver em São Paulo: mulheres 2022, realizada pela Rede Nossa São Paulo, com apoio da Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria).

O dado mais recente manteve o distrito da Sé na liderança quando o assunto é violência contra a mulher entre os distritos paulistanos – índice de 772,15 vítimas para cada 10 mil mulheres, uma proporção sete vezes maior do que a de Vila Andrade, que apresentou o menor índice da cidade. O relatório aponta que a proximidade de delegacias especializadas na região central faz com que mais casos sejam registrados formalmente ali do que nas periferias, o que manteve a distorção identificada em 2024. O distrito da Sé, assim como os de Pari e República, também está no topo do ranking no quesito violência racial e intolerância, mantendo a posição obtida em 2024, quando registrou as maiores taxas de injúria e racismo por habitante. No relatório atual, o coeficiente da Sé chegou a 13,79 casos por 10 mil habitantes. Em contraste, Marsilac (extremo sul de São Paulo) registrou as menores taxas oficiais registradas de discriminação e agressões homofóbicas. Para alguns pesquisadores, no entanto, isso reflete a falta de canais de denúncia e não a ausência de crimes.

Na verdade, os registros de violência contra a população LGBTQIA+ em São Paulo concentram-se fortemente nas regiões centrais e na Zona Oeste da cidade. Distritos como República e Consolação lideram os índices de ocorrências.  A explicação é a de que a alta concentração de ocorrências nessas áreas decorre da intensa circulação de pessoas e da forte presença de vida noturna.

Longevidade

A diferença na longevidade entre ricos e pobres é algo que permaneceu praticamente inalterado na comparação entre 2025 e 2024. Os moradores de Alto de Pinheiros ou Moema vivem, em média, até os 82 anos, mas a realidade na periferia é bem outra. Em distritos como Cidade Tiradentes ou Lajeado, a morte chega, em média, aos 62 ou 63 anos, uma diferença brutal de 20 anos na expectativa de vida. Não por acaso, Alto de Pinheiros manteve a taxa zero de homicídios de jovens no atual Mapa da Desigualdade, algo que já havia sido observado na edição anterior. O distrito permanece estável e consolidado no topo da segurança pública da capital paulista em relação a crimes contra a vida. Moema, Itaim Bibi, Santo Amaro e Perdizes também zeraram os homicídios juvenis. O mesmo não aconteceu nos extremos da periferia: distritos da Zona Sul e Zona Leste, como Lajeado, Campo Limpo e Jardim das Imbuias, concentraram um volume maior de mortes violentas e tentativas de homicídio. O pior cenário é o da Sé, cujo distrito registrou a pior marca: 133,99 homicídios de jovens por 100 mil habitantes. De modo geral, foram registrados 501 homicídios na cidade de São Paulo em 2025 contra 481 em 2024, um aumento de 4,15%, alta que interrompeu uma sequência anterior de quedas contínuas nos índices anuais de assassinatos na metrópole.

Região Metropolitana

A Rede Nossa São Paulo e o Instituto Cidades Sustentáveis lançaram também, no dia 6 de agosto, a primeira edição do Mapa da Desigualdade da Região Metropolitana de São Paulo, um trabalho que faz o levantamento de 40 indicadores dos 39 municípios da maior metrópole do País. No que nos diz respeito, que é o da segurança pública, os dados apresentados constatam uma disparidade extrema e uma forte divisão territorial na taxa de homicídios na região. Nesse quesito, Biritiba Mirim e São Lourenço da Serra registraram taxa igual a zero, mas Pirapora do Bom Jesus foi na direção contrária, atingindo 16,3 homicídios por 100 mil habitantes.

Para não fugir à regra, a expectativa de vida varia de acordo com o bairro, mas destaque-se a existência de uma diferença de 16 anos de vida entre cidades separadas por poucos quilômetros. São Caetano do Sul lidera o ranking no que diz respeito à maior longevidade – lá, a população vive, em média, até os 76 anos; já a menor longevidade está em Francisco Morato, onde a idade média ao morrer é de apenas 60 anos. Apenas São Caetano do Sul e Santo André registram média superior aos 70 anos. A capital paulista aparece logo atrás, com 69 anos, enquanto outras 14 cidades da Grande São Paulo apresentam expectativa de vida inferior aos 65 anos. Locais que registram um PIB elevado, como Cajamar, nem por isso apresentam melhoria de vida ou redução de violência. Para isso, são necessárias políticas públicas focalizadas nas áreas de maior vulnerabilidade.

Em relação à violência contra a mulher, está ligada diretamente à escassez de equipamentos de proteção pública. Os crimes contra o gênero feminino são os mesmos do levantamento do município de São Paulo: agressões físicas, psicológicas, sexuais, morais e patrimoniais, o que acende o alerta para a necessidade da criação de redes de apoio e delegacias especializadas distribuídas por toda a Grande São Paulo, mas principalmente nas regiões que apresentam maiores índices de vulnerabilidade, ou seja, aquelas cidades localizadas nos eixos periféricos da Região Metropolitana, como Pirapora do Bom Jesus, Francisco Morato e Itaquaquecetuba. As cidades com menores índices de vulnerabilidade quanto à questão de gênero ou de violência voltada à população LGBTQIA+ são cidades com alto investimento em infraestrutura urbana e IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) elevado (São Caetano do Sul e Santana de Parnaíba), cujo melhor desempenho no ranking geral de segurança é devido, por exemplo, à maior facilidade de acesso a serviços de amparo às vítimas.

O relatório faz um alerta importante: taxas baixas em bairros com pouca estrutura muitas vezes mascaram uma realidade de violência silenciosa, em que as mulheres deixam de denunciar por não terem uma Delegacia da Mulher (DEAM) por perto ou por enfrentarem horas de transporte público apenas para registrar o boletim de ocorrência.

Rede de proteção

Em recente entrevista ao Jornal da USP, o sociólogo, pesquisador e professor universitário Sérgio Adorno referiu-se à importância de se formar uma rede de proteção de crianças e adolescentes, além de medidas para conter a violência contra a mulher – especialmente o feminicídio – e a vulnerabilidade de parte da população, como cidadãos pardos e pretos e também moradores de rua e migrantes. De acordo com ele, em sociedades que foram bem-sucedidas em conter a escalada do crime, duas iniciativas foram fundamentais: políticas sociais para reforçar a integração social e a cooperação entre diferentes grupos e classes sociais quando está em causa um bem maior, como a segurança pública; e, simultaneamente, uma reforma das instituições de justiça para garantir a aplicação da lei e reduzir taxas de impunidade e reincidência criminal.

 

 

 

 


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