
Quando o assunto é envelhecimento saudável, um conceito que ganha cada vez mais importância é o Aging in Place, que significa, na tradução literal, envelhecendo no lugar. No dia a dia, é o que frequentemente ouvimos aqui e ali, ou seja, que pessoas idosas não gostam de deixar suas casas. O médico Egídio Dorea, coordenador do programa USP 60+ da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP, reforça essa sabedoria popular ao afirmar que a grande maioria das pessoas ao redor do mundo deseja envelhecer na própria casa, e cita estudos que mostram que mais de 80% dos idosos preferem permanecer em sua residência familiar, no centro de um ambiente que conhecem, cercados de memória e com total autonomia. “Esse desejo”, diz ele, “não é só emocional, é um anseio profundamente humano. No entanto, envelhecer bem em casa exige um planejamento cuidadoso. O primeiro pilar que precisamos observar é a segurança.”

Tal preocupação com a segurança está diretamente ligada a adaptações físicas que possam evitar acidentes dentro de casa, o que significa dizer instalações de barras de apoio no banheiro, substituição de degraus por rampas, uso de pisos antiderrapantes, móveis ergonômicos e a garantia de uma boa iluminação. “Essas pequenas mudanças geram um impacto imenso na independência do idoso e ajudam a prevenir quedas, que são a principal causa de lesões graves nessa faixa etária”, observa Dorea, antes de abordar o que considera o segundo pilar a ser observado para uma melhor qualidade de vida do idoso: o suporte emocional.
Isso porque a casa não pode ser apenas um espaço seguro fisicamente, mas constituir um ambiente que favoreça o bem-estar psicológico e estimule as relações sociais, o lazer e a conexão. “A solidão é um dos maiores inimigos do envelhecimento saudável. Por isso, o ambiente deve ter espaços para receber a família e os amigos, locais para hobbies e para o uso de tecnologias simples, como videochamadas, para manter os laços afetivos.” De acordo com o médico, no exterior é comum vermos casas inteligentes, com sensores que acionam redes de suporte caso o idoso sofra alguma queda ou seja alvo de um evento fora do padrão de normalidade.
Movimento Aging in Place
O certo é que o movimento Aging in Place tem inspirado novos arranjos habitacionais, tanto no Brasil quanto no mundo. Já se tornou uma realidade, lá fora, o crescimento de cohousing para idosos, que nada mais é do que a formação de vilas seniores integradas à comunidade, apartamentos adaptáveis com serviços compartilhados e até “casas inteligentes,” como as que mencionamos acima. O Brasil não tem virado as costas para essa realidade, como afirma Dorea: “Por aqui, o conceito ganha força, com iniciativas como condomínios adaptados, residências assistidas leves, que não são asilos institucionais, e o retrofit de imóveis antigos. Existem programas como o Morar Bem e parcerias entre universidades, Prefeituras e o setor privado, buscando criar soluções acessíveis que preservem a qualidade de vida”. Posto isso, a constatação é a de que envelhecer em casa não significa isolamento ou improvisação, mas sim planejar com inteligência e afeto para que a residência continue como sinônimo de lar.






