
Usuários das redes sociais na China têm chamado atenção com a divulgação de conteúdos violentos com um brinquedo negro em formato de bebê. O brinquedo é uma boneca chamada Natasha, criada originalmente como um item antiestresse e que tem sido alvo de diversos abusos como chutes, marteladas, facadas e perfurações. Além disso, a boneca foi submetida a atos de natureza sexual por usuários, que foram vistos tocando suas partes íntimas. As imagens geraram grande repercussão. O cenário acende um sinal de alerta para a banalização da violência infantil.
O contato constante com esses vídeos afeta diretamente a empatia, ao tratar a agressão como algo natural. A especialista em Psicologia Clínica Infantil Maria Beatriz Martins Linhares, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, aponta que o conteúdo reduz a percepção da gravidade da violência, correndo o risco de enfraquecer as normas sociais de proteção à infância e tornar os abusos mais aceitáveis aos olhos do público.

Neste cenário, o papel dos influenciadores digitais ganha mais importância porque tende a agravar a situação, já que eles atuam como modelos comportamentais para os mais jovens. “Quando comportamentos agressivos são apresentados de forma divertida e amplamente compartilhados, aumenta a probabilidade de serem vistos como socialmente aceitos”, afirma a psicóloga.
Para ela, esses atos violentos reforçam a naturalização da violência ignorando o sofrimento dos outros. “A exposição da violência naturalizada vai influenciar o comportamento, vai influenciar atitudes, crenças, expectativas”, destaca.
O recorte racial da agressão
Apesar de a boneca Natasha ser vendida nos tons de pele preto e branco, a mais usada nesses vídeos é a boneca negra, trazendo à tona não só a problemática da violência física, mas também da violência provocada pelo racismo. “Quando os conteúdos violentos vão utilizar estereótipos raciais ou direcionar agressões de forma desproporcional a determinados grupos, eles reforçam preconceitos que são historicamente construídos”, aponta a especialista. “Essa repetição de estereótipos fortalece vieses implícitos, aumentando também a discriminação e a desigualdade.”
Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), a desigualdade racial entre crianças e adolescentes se intensifica com a idade. Na faixa de 0 a 11 anos, 62,6% das vítimas de letalidade são negras. Entre 12 e 17 anos, o porcentual sobe para 86,3%, o que representa cerca de nove em cada dez adolescentes assassinados no País.
Para transformar essa realidade, a professora reforça a necessidade de reconhecer o problema e fortalecer a educação midiática e digital desde a infância, para desenvolver um pensamento crítico sobre os conteúdos consumidos. Além disso, ela destaca que é preciso cobrar maior responsabilidade das plataformas digitais na identificação e remoção de conteúdos que promovam violência contra crianças ou adolescentes. “Nós precisamos de implementação e fortalecimento de políticas públicas voltadas à proteção da infância e à proteção da infância no ambiente digital”, conclui.
*Estagiária sob supervisão de Ferraz Junior




