Migração, saúde mental e envelhecimento: os desafios dos nikkeis latino-americanos no Japão

10/08/2026 às 20:310 visualizações
Deusivania Vieira da Silva Falcão,  Lídia Sadaco Minamizaki Ikuta e Mary Yoko Okamoto - Fotos: Arquivo pessoal
Deusivania Vieira da Silva Falcão, Lídia Sadaco Minamizaki Ikuta e Mary Yoko Okamoto - Fotos: Arquivo pessoal
Jornal da USP

Por Deusivania Vieira da Silva Falcão, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, Lídia Sadaco Minamizaki Ikuta, doutoranda pela EACH-USP, e Mary Yoko Okamoto, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp)

 Publicado: 10/08/2026 às 17:31
Deusivania Vieira da Silva Falcão –
Deusivania Vieira da Silva Falcão – — Arquivo pessoal
Deusivania Vieira da Silva Falcão – Foto: Arquivo pessoal
Lídia Sadaco Minamizaki Ikuta –
Lídia Sadaco Minamizaki Ikuta – — Arquivo pessoal
Lídia Sadaco Minamizaki Ikuta – Foto: Arquivo pessoal
Mary Yoko Okamoto –
Mary Yoko Okamoto – — Arquivo pessoal
Mary Yoko Okamoto – Foto: Arquivo pessoal
Imagem do artigo
O Japão costuma ser lembrado pela longevidade de sua população, pelos avanços tecnológicos e pela organização social. Mas, longe dos cartões-postais e das estatísticas sobre expectativa de vida, existe outra história que merece atenção: a de milhares de nikkeis latino-americanos que envelhecem entre diferentes referências culturais, carregando no corpo e na memória as marcas da migração e das transformações vividas entre dois países.

Foi com esse olhar que participamos do projeto Nikkeis Latinos 50+: Promoção de Saúde e Bem-Estar, realizado na cidade de Ōizumi, província de Gunma, Japão, com apoio da Japan International Cooperation Agency (JICA). Durante a imersão, realizamos visitas técnicas, entrevistas, observação participante, palestras, atividades comunitárias e educativas junto à população nikkei latino-americana residente na região. Mais do que uma missão acadêmica, a experiência foi um mergulho em histórias de resistência, cuidado, saudade e reinvenção.

Ōizumi é hoje um dos municípios mais multiculturais do Japão. Com cerca de 42 mil habitantes, aproximadamente 22% da população é estrangeira, e os brasileiros representam o maior grupo migrante da cidade. Ao caminhar pelas ruas, é possível encontrar placas em português, supermercados, restaurantes, lanchonetes, igrejas bilíngues e escolas voltadas principalmente à comunidade brasileira residente na região. Ainda assim, por trás dessa aparente familiaridade, permanecem importantes desafios relacionados ao envelhecimento, ao estresse aculturativo e à saúde mental.

Grande parte dos nikkeis que migraram para o Japão nas décadas de 1980 e 1990 foi motivada pela oportunidade de trabalho. Naquele período, o país enfrentava escassez de mão de obra em ocupações conhecidas como 3K (kitanai, sujas; kiken, perigosas; e kitsui, penosas), consideradas pouco atrativas para grande parte da população japonesa. Muitos nikkeis oriundos do Brasil e de outros países latino-americanos passaram a trabalhar em fábricas e linhas de produção, frequentemente em jornadas intensas e repetitivas. O que inicialmente parecia uma experiência temporária acabou se prolongando muito além do previsto. Vários deles planejavam permanecer apenas dois ou três anos e depois retornar ao país onde nasceram, mas esse retorno foi sendo sucessivamente adiado. Com o passar do tempo, constituíram famílias, criaram filhos, construíram novas referências de pertencimento e seguem envelhecendo no Japão.

Ao longo desse percurso, emergem novas questões relacionadas à aposentadoria, às mudanças nas relações familiares, ao declínio funcional, às doenças crônicas e à necessidade de ressignificar projetos de vida em um contexto cultural complexo. Para muitos, essa etapa também suscita reflexões sobre identidade, pertencimento, cuidado e finitude. Perguntas como “Onde é o meu lar?”, “Onde desejo viver a velhice?”, “Quem cuidará de mim quando precisar?” e “Em que país desejo ser sepultado?” tornam-se mais presentes. Essas indagações ultrapassam decisões práticas e revelam os dilemas de pessoas que construíram suas trajetórias entre dois países, diferentes referências culturais e múltiplos vínculos afetivos.

Embora essas questões se tornem especialmente evidentes na velhice, a experiência migratória acompanha todo o curso da vida e assume significados distintos em cada etapa. Seus desafios variam conforme a idade, o gênero, a configuração familiar, as condições de trabalho e os diversos papéis sociais desempenhados ao longo da vida. Assim, crianças, adolescentes, jovens, adultos e pessoas idosas vivenciam a migração e seus impactos de maneiras singulares, construindo variadas formas de adaptação, pertencimento e enfrentamento.

Durante as conversas realizadas em Ōizumi, ouvimos relatos de nikkeis latino-americanos, predominantemente brasileiros, com 50 anos ou mais. Muitos expressaram orgulho pela trajetória construída, pela coragem de migrar e pela estabilidade conquistada, mas também compartilharam o cansaço acumulado após décadas de trabalho, as dores físicas, as dificuldades linguísticas e as incertezas em relação ao futuro. Além disso, emergiram narrativas de desenraizamento, conflitos relacionados à identidade cultural, sintomas de ansiedade e depressão, bem como incertezas sobre os projetos de vida após o encerramento da vida laboral. Vários participantes afirmaram já não se sentir plenamente pertencentes ao país onde nasceram quando retornavam para visitá-lo. Outros descreveram viver em um “entre-lugar”, marcado pela convivência simultânea entre duas culturas, duas línguas, diferentes referências afetivas e distintos modos de ser, viver e sentir.

Esses relatos evidenciam a complexidade da experiência migratória no envelhecimento e podem ser interpretados à luz de diferentes perspectivas, entre elas o conceito de luto migratório, que descreve um processo de múltiplas perdas, envolvendo a família, a língua, a cultura, o território, o grupo de pertencimento, o status social e a sensação de segurança, com possíveis repercussões para o bem-estar psicológico. Seus efeitos também se refletem nas relações familiares e nos processos de socialização das novas gerações. Filhos e netos cresceram em escolas japonesas, aprenderam o idioma mais rapidamente e desenvolveram referências culturais distintas das de seus pais e avós. Foram mencionadas situações em que adolescentes abandonam precocemente os estudos para ingressar em trabalhos temporários, o que pode contribuir para trajetórias de vulnerabilidade social e limitar oportunidades educacionais e profissionais em parte dessa população.

Nas escolas brasileiras visitadas em Ōizumi e Ōta, coordenadores e professores compartilharam preocupações relacionadas ao bem-estar de parte das crianças e adolescentes. Entre os aspectos mencionados estavam retraimento, baixa autoestima, sofrimento emocional e dificuldades para projetar o futuro. Segundo alguns educadores, essas vivências parecem estar associadas, entre outros fatores, ao estresse aculturativo experimentado por estudantes que transitam diariamente entre idiomas, expectativas familiares variadas e diferentes formas de pertencimento cultural.

Paralelamente, observamos jovens que desenvolvem competências interculturais, atuando como mediadores entre idiomas, culturas e gerações e tornando-se importantes pontes entre o Brasil e o Japão.

Essa convivência entre desafios e recursos evidencia que crescer entre duas culturas pode representar, ao mesmo tempo, uma fonte de tensão e uma oportunidade para o desenvolvimento de competências interculturais.

A experiência em Ōizumi também revelou a capacidade das comunidades migrantes de criar redes de solidariedade e apoio. Associações, escolas, igrejas, grupos comunitários e projetos multiculturais tornam-se espaços fundamentais de acolhimento, promoção da saúde mental, fortalecimento do capital social e reconstrução dos vínculos comunitários. Durante nossa estadia, conhecemos, por exemplo, o trabalho desenvolvido no antigo Brazilian Plaza, espaço que no passado simbolizou a presença brasileira em Ōizumi e que hoje abriga o projeto social Restart Community. Criado para apoiar principalmente estrangeiros em situação de vulnerabilidade, o projeto oferece moradia temporária, alimentação, orientação profissional, atividades comunitárias e espaços de convivência. Mais do que um espaço de assistência emergencial, o local funciona como um território de recomeços, promovendo apoio social, reconstrução de vínculos e fortalecimento do sentimento de pertencimento entre pessoas frequentemente impactadas pela solidão e pela insegurança social.

Outro exemplo inspirador são os chamados Kayoi-no-ba, espaços comunitários japoneses criados para promover convivência, prevenção da solidão e envelhecimento saudável. Nesses locais, pessoas idosas participam de atividades físicas, oficinas culturais, rodas de conversa e encontros intergeracionais. Embora ainda exista baixa participação de nikkeis latino-americanos nesses espaços, principalmente devido às barreiras linguísticas e culturais, observamos ali a possibilidade de inclusão, fortalecimento comunitário e promoção da saúde mental. A aproximação entre iniciativas multiculturais e os Kayoi-no-ba pode representar um caminho promissor para construir formas mais acolhedoras e interculturais de envelhecer no Japão.

Entre as experiências conhecidas durante a missão, chamou nossa atenção o trabalho desenvolvido pela instituição Esperanza. A organização oferece uma rede integrada de serviços de cuidado e assistência, com equipes multilíngues preparadas para atender pessoas migrantes e suas famílias. Observamos uma prática de cuidado orientada pela competência intercultural, reconhecendo que diferenças de idioma, costumes e formas de expressão podem influenciar a comunicação, o acesso aos serviços e a qualidade do atendimento. Em um contexto marcado pela diversidade cultural, iniciativas como essa reforçam a importância de um cuidado centrado na pessoa, sensível às especificidades culturais e comprometido com a dignidade, a inclusão e a qualidade de vida.

Como parte do projeto, realizamos o curso Olhares Que Cuidam, que reuniu participantes para refletir sobre migração, saúde mental, prevenção de demências, longevidade, envelhecimento saudável e ikigai, conceito japonês relacionado ao propósito e ao sentido da vida, amplamente reconhecido como um importante recurso para a promoção do bem-estar. O curso também criou um espaço de diálogo e reflexão sobre as demandas vividas pela comunidade nikkei latino-americana, fortalecendo os participantes como agentes de cuidado e multiplicadores de práticas voltadas à promoção da saúde mental em seus territórios. As discussões evidenciaram que viver mais e melhor não depende apenas do acesso aos serviços de saúde, mas também da presença de vínculos significativos, suporte social, reconhecimento, escuta qualificada e oportunidades para construir e ressignificar o sentido da vida ao longo do envelhecimento.

Também, produzimos um manual bilíngue de orientação sobre saúde mental, envelhecimento, bem-estar, migração e redes de apoio, voltado especialmente à comunidade nikkei latino-americana residente no Japão. O material, baseado em evidências científicas e construído em diálogo com a comunidade local, busca oferecer informações acessíveis, acolhedoras e culturalmente sensíveis, contribuindo para ampliar o acesso ao cuidado e fortalecer estratégias de apoio comunitário. O manual está disponível gratuitamente em português: Manual em português e em espanhol: Manual em espanhol.

A missão realizada em Ōizumi evidenciou que o envelhecimento das populações migrantes impõe novas questões à pesquisa, aos serviços de saúde e às políticas públicas. O Japão, um dos países mais envelhecidos do mundo, e o Brasil, que envelhece em ritmo acelerado, compartilham questões que ultrapassam fronteiras nacionais e exigem respostas às diferentes trajetórias de vida. Isso porque envelhecer vai muito além das mudanças biológicas associadas à idade: trata-se de um processo influenciado pelas relações familiares, pelas condições de trabalho, pelas experiências migratórias e pelos contextos sociais, culturais e econômicos em que cada pessoa constrói sua história. Reconhecer essa complexidade é fundamental para promover sociedades mais inclusivas, interculturais e preparadas para responder aos desafios do envelhecimento da população migrante. Uma das maiores lições deixadas pelos nikkeis latino-americanos no Japão é que, mesmo entre deslocamentos, perdas e fronteiras culturais, o ser humano continua buscando aquilo que dá sustentação à vida: vínculos, cuidado, memória e pertencimento.

Agradecimentos: este projeto foi possível graças à cooperação entre instituições e parceiros comprometidos com a promoção da saúde e do bem-estar de nikkeis latino-americanos. As autoras agradecem, de modo especial, ao Consulado-Geral do Brasil em Tóquio, ao Conselho de Cidadãos de Tóquio (CCT) e à Japan International Cooperation Agency (JICA), pelo apoio e pela parceria na realização da missão. Estendem seus agradecimentos à Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, à Universidade Estadual Paulista (Unesp) e à Yura-Rhythm Corporation, pelo apoio institucional. Registram, ainda, reconhecimento especial a Valeria Harue Otsuki, tradutora e intérprete, pelo indispensável apoio linguístico e intercultural durante toda a missão e ao professor Yoshihito Kikuchi, representante da Yura-Rhythm Corporation, pela colaboração e pelo compromisso com o fortalecimento desta iniciativa.
A primeira autora também agradece à professora Rosa Yuka S. Chubaci (EACH-USP) pelo incentivo e apoio aos estudos sobre a comunidade Nikkei.

________________
(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

Imagem do artigo
Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.

Fonte
Jornal da USP
Abrir original ↗
Esta notícia foi útil?

Debates 0

Seja o primeiro a contribuir com o debate.

Difunda suas informações e promova seu argumento

Não se acanhe de publicar alguma informação ou dado que possa ser positivo ou útil.

Para participar do debate, entre com sua conta ou crie uma gratuita.