Julio Sitto, jornalista e correspondente da Mural, morre aos 25 anos

Por Cíntia Gomes11/08/2026 às 21:330 visualizações
▶ Cíntia Gomes · Agencia Mural

Julio Cesar Ferreira, conhecido profissionalmente como Julio Sitto, morreu aos 25 anos nesta segunda-feira (10). A notícia de sua partida precoce deixa tristeza entre familiares, amigos, colegas de profissão e em toda a rede de correspondentes da Agência Mural de Jornalismo das Periferias.

Jornalista formado pela PUC-SP, por meio do Prouni (Programa Universidade para Todos), e pós-graduando em Gestão de Projetos Culturais pelo Celacc/USP, Julio foi correspondente de Pedreira, na zona sul de São Paulo, entre 2023 e 2024.

A primeira reportagem dele como correspondente local foi sobre Angela Sabino, professora que criou um projeto de dança e exercícios físicos para ajudar mulheres da região a fortalecer a autoestima.

Depois, participou da reportagem sobre a duplicação da Estrada do Alvarenga e de outra investigação coletiva sobre o funcionamento do Wi-Fi gratuito nas praças de São Paulo.

Ser correspondente local é estar perto das histórias, conhecer o território e contribuir para que problemas, iniciativas e personagens das periferias ganhem espaço no jornalismo. Julio fez parte dessa missão e contribuiu para contar mais histórias sobre sua quebrada a partir do olhar de quem conhecia aquele lugar.

Julio no parque 7 campos no Jardim Santa Terezinha na Alvarenga na zona sul de SP @Léu Britto/Agência Mural
Julio no parque 7 campos no Jardim Santa Terezinha na Alvarenga na zona sul de SP @Léu Britto/Agência Mural

Julio no parque 7 campos no Jardim Santa Terezinha na Alvarenga na zona sul de SP @Léu Britto/Agência Mural

Mas a passagem pela Mural foi também marcada pelas amizades que fez.

Correspondente do Grajaú desde 2021, Isabela Alves conheceu Julio em um curso da Oboré, uma organização de projetos especiais em comunicação e artes. Naquele dia, os dois estavam na praça Vladimir Herzog para entrevistar o jornalista Aldo Quiroga. Foi também nesse encontro que Isabela falou a Julio sobre a Agência Mural.

“Era um amigo animado, alegre, muito estiloso e inteligente. Vou sempre lembrar do sorriso e da pessoa maravilhosa que era.”

Isabela Alves

O encontro de Julio com a também correspondente do Grajaú, Malu Marinho, por sua vez, começou ainda antes da faculdade. Os dois se cruzaram no cursinho pré-vestibular. Uma vez, no bebedouro, Julio elogiou o cabelo dela e ela, o sapato dele.

Meses depois, já na PUC-SP, começaram a conversar para fazer um trabalho em grupo. Como estavam no período da pandemia, a organização acontecia de forma remota. Até que Malu publicou uma foto com uma professora que os dois tinham tido no cursinho e perceberam que já se conheciam “de outras vidas”, como costumavam brincar.

Quando a Agência Mural abriu o processo seletivo para novos correspondentes, os dois se inscreveram e fizeram parte da mesma turma, em 2023. Naquele mesmo ano, ambos concluíram o curso de Jornalismo na PUC-SP.

Para Malu, Julio era uma pessoa profundamente artística, divertida e cheia de ideias. “Ju era pura arte em tudo”, conta. Usava o nome artístico, inclusive em seus textos literários, e gostava de experimentar diferentes linguagens.

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Em uma aula de fotografia, os dois pegaram uma câmera emprestada e foram à Japan House, onde havia uma exposição do estilista japonês Tomie Otake. A proposta era produzir um minidocumentário, mas transformaram o trabalho em uma experiência experimental, usando tecidos da exposição como uma camada nas imagens.

A parceria também apareceu no documentário “Brasil sob a fumaça da desinformação”, produzido por Julio, Malu Marinho, Camilo Mota e Gabriela Costa, com orientação dos professores Aldo Quiroga e Dácio Nitrini.

O trabalho recebeu o 13º Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão, do Instituto Vladimir Herzog. Para a produção, o grupo visitou aldeias e conversou principalmente com ativistas ambientais sobre os impactos das políticas do governo da época no meio ambiente.

Julio Sitto, Malu Marinho e Evelyn Fagundes quando cursavam jornalismo na PUC-SP @Malu Mariho/Arquivo pessoal
Julio Sitto, Malu Marinho e Evelyn Fagundes quando cursavam jornalismo na PUC-SP @Malu Mariho/Arquivo pessoal

Julio Sitto, Malu Marinho e Evelyn Fagundes quando cursavam jornalismo na PUC-SP @Malu Mariho/Arquivo pessoal

Fora da universidade e da Mural, o jornalista também dedicava tempo à preservação da memória LGBTQIA+. Era voluntário no Acervo Bajubá, onde se envolvia com pesquisa, apuração, manuseio de livros e busca por relatos que haviam sido marginalizados.

“Não tinha como estar com Julio sem estar gargalhando”, lembra Malu. Ela conta que era o tipo de pessoa a quem alguém recorreria para perguntar se deveria comprar determinada roupa ou que poderia ligar de repente para convidar um amigo a conhecer um brechó desconhecido

Na Mural, também produziu conteúdos para o Instagram sobre diversidade e participou de ações coletivas durante o Mês do Orgulho, incluindo uma publicação sobre jornalistas trans de São Paulo e uma trend com outros correspondentes para desmistificar estereótipos enfrentados por pessoas bissexuais, pansexuais e não-bináries. Também participou de uma sessão de fotos usando a camiseta da Mural para uma campanha de divulgação da Lojinha.

Julio, Malu e Evelyn no lançamento do livro “Ainda Não Tem Nome” @Malu Marinho/ Arquivo Pessoal
Julio, Malu e Evelyn no lançamento do livro “Ainda Não Tem Nome” @Malu Marinho/ Arquivo Pessoal

Julio, Malu e Evelyn no lançamento do livro “Ainda Não Tem Nome” @Malu Marinho/ Arquivo Pessoal

O último encontro entre Julio, Malu e Isabela foi em março, durante o lançamento do livro de Malu, que também contou com a presença de Evelyn Fagundes, correspondente de Guarulhos. Os quatro estavam reunidos para celebrar a conquista de Malu, como escritora da periferia que realizava o sonho de publicar seu livro.

Um dos contos da obra, “As Quatro Cores do Arco-Íris”, foi inspirado em Julio, especialmente em sua experiência como pessoa não-binária e na sensibilidade que Malu reconhecia em sua trajetória.

Para a Agência Mural e toda a rede de correspondentes locais, fica não apenas a contribuição de Julio ao jornalismo local, mas a memória de sua alegria, sua criatividade e sua presença. Julio segue presente nas histórias que contou, nas pessoas que conheceu e na arte que espalhou por onde passou.

Agência Mural

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Agencia Mural
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