Heloisa Pires Lima: ‘Uma criança que não se vê em lugar nenhum é decretar a não existência dela’

Por Fabiana Reinholz11/08/2026 às 21:090 visualizações
'Eu sou, antes de tudo, uma menina preta gaúcha, que tenta essa conexão o tempo todo, porque é a minha história, a minha vida, mas ela é também coletiva'
'Eu sou, antes de tudo, uma menina preta gaúcha, que tenta essa conexão o tempo todo, porque é a minha história, a minha vida, mas ela é também coletiva'
Brasil de Fato

Aos 70 anos, a escritora, antropóloga e educadora Heloisa Pires Lima chega à 72ª Feira do Livro de Porto Alegre carregando uma trajetória marcada pela literatura, pela educação e pela defesa da diversidade de saberes. Anunciada na semana passada como patrona do evento, ela é a primeira mulher negra a ocupar o posto em mais de sete décadas de história da feira. É também a segunda pessoa negra a receber a homenagem, depois do escritor Jeferson Tenório, patrono em 2020.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Lima falou sobre o significado da escolha, o racismo que historicamente atravessou o mercado editorial e a importância de ampliar a presença de personagens e autores negros na literatura. Também abordou a ancestralidade, a produção para crianças e os desafios impostos pelas novas tecnologias.

“Eu recebi isso com muita emoção, uma emoção indescritível, uma mistura de muitos sentimentos mesmo. Mas eu fiquei muito feliz pelo reconhecimento, porque as sociedades aprendem a ser menos racistas também”, afirmou.

Para Lima, reconhecer conquistas é especialmente importante em um momento de avanço dos extremismos e dos discursos de ódio. “De um lado, é um avanço dos extremismos, dos ódios. E, por outro lado, a gente tem uma consciência cada vez maior em busca de uma equidade humana, de um humanismo. E no humanismo não cabe racismo.”

Racismo editorial e apagamento

A escritora avalia que a escolha como patrona também é resultado de mudanças provocadas pelas demandas históricas do movimento negro. Ao mesmo tempo, ressalta que a literatura negra ainda carrega as marcas do que chama de “racismo editorial”.

“Livro de negro ficava lá no cantinho da prateleira. Isso se ele publicava. Quando ele publicava, ele já sabia que não ia vender porque a população negra não tem dinheiro, porque a população negra gosta de samba, não gosta de letra. Tudo falso, os preconceitos.”

Lima lembra uma exposição que realizou em Brasília, entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2000, sobre a produção de escritores e escritoras negras dos séculos 19 e 20. Entre os livros expostos, havia um conjunto de obras identificadas como “publicação do autor”. “Isso quer dizer o quê? Que as editoras não publicavam, que é um ranço. Hoje em dia, a gente mudou muito essa cultura. E, ao mesmo tempo, a gente tem muita autoria negra que, com a mudança da tecnologia, hoje produz seus livros, coisa que, 40 anos atrás, era impossível.”

Para a patrona, é preciso ainda ampliar o olhar para as diferentes regiões brasileiras. “A gente ainda tem muito a caminhar nesse sentido de buscar a produção de diferentes regiões do Brasil”, afirmou, citando o desconhecimento sobre a produção cultural da região Norte e de outras partes do país.

Ampliar a presença de histórias negras e de outros saberes na literatura passa, segundo ela, por estimular novas autorias e formar leitores dispostos a conhecer diferentes repertórios. “Para essas autorias, eu vou dizer o seguinte: tem que desafiá-las a escrever. Então, a iniciativa faz a diferença, realmente, de tentar escrever mesmo, porque é um processo.”

Para os leitores, Lima destaca a importância da escuta. “Eu trabalho muito com a noção de escuta, porque hoje em dia todo mundo quer falar, falar, falar, e pouco escuta.”

A literatura, afirma, pode criar justamente esse espaço. “Cada livro que a gente pega, alguma coisa lá chama a atenção da gente”, disse, destacando especialmente a capacidade da ficção de provocar emoções. “Quando a gente adentra na literatura, a literatura faz o resto. A gente conhece o prazer que tem na emoção, o prazer que a emoção é capaz de provocar.”

Da esquerda para a direita: Martha Medeiros, patrona da 71ª edição; Roseni Siqueira Kohlmann; e Heloisa Pires Lima, atual patrona da Feira |
Da esquerda para a direita: Martha Medeiros, patrona da 71ª edição; Roseni Siqueira Kohlmann; e Heloisa Pires Lima, atual patrona da Feira | — Eduardo Fernandes/CRL
Da esquerda para a direita: Martha Medeiros, patrona da 71ª edição; Roseni Siqueira Kohlmann; e Heloisa Pires Lima, atual patrona da Feira | Crédito: Eduardo Fernandes/CRL

Representatividade começa na infância

A relação entre literatura e representação aparece de forma ainda mais forte na produção da escritora voltada às crianças. Ela cita o cabelo como um dos temas recorrentes da autoria negra e lembra como a falta de profissionais preparados para lidar com cabelos crespos também produzia exclusão. “Você tinha vergonha de entrar num cabeleireiro normal e pedir para fazer um corte, alguma coisa assim. Olha que, não só o absurdo, mas a crueldade disso para uma criança.”

Para ela, a ausência de pessoas negras em livros, filmes, revistas e outros espaços culturais produz um efeito profundo. “Uma criança que não se vê em lugar nenhum, então ela não está no livro, mas também não está no filme, também não está no produto, também não está na revista, também não está em lugar nenhum, é decretar a não existência dela.”

Lima ressalta, porém, que não basta garantir presença: é preciso qualidade na representação. Em sua avaliação só essa representatividade já faz a diferença. “Uma representatividade com qualidade já faz outra diferença.”

Literatura diante das novas tecnologias

A preocupação com a formação humana atravessa também a reflexão de Lima sobre as novas tecnologias e a inteligência artificial. Ela reconhece o potencial dessas ferramentas, mas questiona o que pode ser perdido quando a produção literária passa a ser mediada por sistemas capazes de construir textos.

“A humanidade também está se perdendo, está confiando muito nas novas tecnologias. Uma tecnologia que a gente ainda não conhece bem e que, ao mesmo tempo, é disponibilizada em grande escala. Então, o que fazer com isso? É pensar. É colocar o tema na mesa, o assunto na mesa, buscar diferentes ângulos para tentar trazer de volta uma humanidade.”

Para ela, mesmo que aplicativos sejam capazes de produzir textos de qualidade, permanece uma dimensão essencial da literatura: a emoção. “Essas novas tecnologias assustam muito. Porque o literário não vai mais existir? Não teremos mais autores e autoras porque o aplicativo é capaz de trazer várias fontes que vão construir textos, muitos deles bem bacanas até. Mas a gente ainda acredita que falta emoção.”

A escritora cita a experiência com o neto de seis anos, que acompanha conteúdos no YouTube. Em vez de simplesmente proibir, decidiu assistir aos vídeos com ele e estimular uma leitura crítica sobre o que aparecia na tela. “Eu resolvi sentar do lado dele para conhecer, em vez de desqualificar o que ele fazia.”

Para Lima, essa postura pode ser aplicada também à relação das novas gerações com a tecnologia. “A gente não tem que ter medo. Eu acho que a gente tem que sentar do lado e tentar entender o que está acontecendo, mais do que desqualificar o que ele está vendo.”

Encontro de saberes

A busca por aproximações também está presente em “Tem Língua?”, obra realizada em parceria com Sônia Guajajara e voltada para crianças pequenas. O livro apresenta palavras em Guajajara e cria uma ponte com o português.

Lima conta que, durante o processo, percebeu a possibilidade de aproximar também palavras de origem africana presentes na língua portuguesa. “O português é cheio de palavras de origem africana. E aí a gente encaixou.”

Para a escritora, o livro representa uma possibilidade de encontro entre diferentes repertórios, em vez de mantê-los separados. “Essa questão dos encontros é muito importante, mais do que separar, de a gente encontrar repertórios diaspóricos. Você tem uma diáspora na origem continental africana, na indígena, nos povos originários, e da própria Europa. Nada é muito homogêneo.”

Lima afirma que a própria trajetória é marcada por esse encontro entre memória pessoal e história coletiva. “A minha história foi parar dentro de um livro, da literatura, e eu sempre tive muito atenta a isso, e isso vem da minha própria história.”

“Sou uma menina preta gaúcha”

Ao falar sobre o legado que pretende deixar como patrona da Feira do Livro, a escritora volta à sua própria identidade e à relação com o Rio Grande do Sul. “Eu sou, antes de tudo, uma menina preta gaúcha, que tenta essa conexão o tempo todo, porque é a minha história, a minha vida, mas ela é também coletiva.”

A escritora afirma que pretende usar o período à frente da feira para estimular novas produções e ampliar o espaço para diferentes histórias. “Quantas histórias que têm no Sul que a gente desconhece. Então, eu pretendo desafiar muito. Tomara que saiam muitos estímulos a partir dessa feira, de autorias negras ou não, para essa continuidade de produzir livros para criança e para adolescente.”

Fonte
Brasil de Fato
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