
O Mapa da Desigualdade é publicado anualmente pela Rede Nossa São Paulo desde 2013 e pelo Instituto Cidades Sustentáveis e analisa indicadores socioeconômicos divididos entre os 96 distritos de São Paulo, constituindo uma contribuição valiosa para gestores públicos e sociedade civil no momento de identificar prioridades e necessidades, graças à coleta e à comparação de um conjunto pré-definido de indicadores temáticos. A elaboração do mapa leva em conta 45 indicadores, distribuídos em áreas como saúde, educação, moradia, mobilidade, assistência social, segurança pública, renda, entre outros.
No quesito saúde, poucas mudanças houve na comparação entre as edições de 2024 e 2025, ou seja, o acesso a equipamentos de saúde entre os distritos da capital paulista continua marcado pela disparidade, com os melhores índices concentrados nos bairros centrais, sobrando para a periferia os índices mais negativos. Uma mostra disso está na maior expectativa de vida de quem mora nos bairros nobres em comparação àqueles que habitam os extremos da cidade. Moradores de bairros nobres ultrapassam a média de 75 a 80 anos de vida, enquanto nos distritos periféricos o mesmo não acontece – as pessoas chegam a viver 20 anos menos. É que, em regiões com menor saneamento básico e pior infraestrutura urbana, os moradores sofrem muito mais com fatores ambientais e epidemiológicos (doenças tropicais como dengue, entre outras) que podem levar a óbitos.
Outro agravante importante a tornar a saúde na periferia algo muito aquém do desejado: os hospitais de alta complexidade estão, em sua grande maioria, localizados no centro expandido, deixando os distritos da periferia dependentes de poucas unidades locais, o que acarreta demora no agendamento de exames e no tempo de espera para consultas na Atenção Primária, sem mencionar o fato de que cerca de 70% dos paulistanos dependem exclusivamente do sistema público de saúde – convênio particular não é uma realidade entre os moradores de Artur Alvim, Vila Maria e Ponte Rasa, distritos que registram índices vulneráveis e precários em quase todas as frentes de saúde, mas certamente fazem parte da vida de moradores em bairros como Jardim Paulista, Moema e Pinheiros, onde ocorre o oposto e seus habitantes desfrutam de excelentes condições de saúde.
O acesso precário não só aos equipamentos de saúde como também ao saneamento fez com que, em 2024, os indicadores de mortalidade infantil e materna continuassem preocupantes em distritos periféricos das zonas norte e leste. O mesmo estudo apontou um abismo de até 24 anos na expectativa de vida entre os extremos da cidade, como Alto de Pinheiros (82 anos) e Anhanguera (58 anos).
Em 2025, esse cenário pouco mudou. Distritos centrais e nobres como Jardim Paulista, Moema e Pinheiros permaneceram nas melhores posições nos indicadores de saúde, já regiões como Vila Maria, Vila Medeiros e Artur Alvim continuaram na base do ranking, padecendo diante das barreiras no atendimento básico, qualidade do pré-natal e no tempo de espera. A mortalidade infantil é um reflexo desse abismo social e territorial na cidade de São Paulo, estando ligada diretamente à qualidade da atenção pré-natal, do parto e do cuidado neonatal, condições às quais se aliam fatores socioambientais (saneamento e habitação), uma realidade nas regiões periféricas. A baixa cobertura vacinal é um outro fator a reduzir a expectativa de vida nas regiões mais vulneráveis. O Mapa da Desigualdade aponta o Brás, com pontuação de 20,07, como o de pior índice no quesito mortalidade infantil.
Gravidez precoce

Não se pode falar em mortalidade infantil sem abordar o outro lado da moeda, que é o da gravidez precoce. O Mapa da Desigualdade mostra queda contínua na gravidez entre adolescentes, no entanto, persistem as disparidades territoriais. O índice geral do município caiu de 6,3% em 2024 para algo em torno de 6% em 2025. Jardim Paulista, com pontuação de 0,14, detém a melhor posição, o que significa menores porcentuais de mães com menos de 20 anos na região, ao passo que Cidade Tiradentes, com 11,09, ficou na última ponta da tabela em relação a esse indicador. Além de Cidade Tiradentes, Parelheiros também registra altas taxas de gravidez na adolescência, superando os 11% do total de nascimentos. A proporção geral de nascidos vivos de mães com menos de 20 anos segue em retração gradual no município de São Paulo nos últimos anos – caiu de 11,4% para 6,3%.
Uma das principais consequências para essas adolescentes que têm a responsabilidade de carregar o “fardo” de ser mães é o abandono escolar. Segundo a Rede Nossa São Paulo, as jovens paulistanas que engravidam na infância ou adolescência enfrentam 24 pontos porcentuais a mais de chance de não frequentarem as escolas em comparação àquelas que não engravidaram. Na verdade, cerca de 61% das jovens que engravidam na infância ou adolescência interrompem os estudos, contra 33% entre as que não passaram por essa experiência. A maternidade precoce também é responsável pelo aumento no risco (21 pontos porcentuais) de elas deixarem de concluir a educação básica.
Além de dificultar o acesso ao ensino básico, a gravidez precoce limita a colocação em empregos qualificados, o que acaba por perpetuar o ciclo de pobreza intergeracional nas periferias. Apesar da distribuição de contraceptivos e de canais de informação amplamente disponíveis, a falta de perspectivas de desenvolvimento de vida e carreira continuam afetando, e muito, as meninas negras e de baixa renda. Não surpreende que dados de institutos de pesquisa social indiquem que 83% das mulheres que engravidaram na adolescência afirmem ter perdido oportunidades de trabalho ao longo da vida por conta dos cuidados com os filhos.
Para tornar o quadro ainda mais grave, as jovens grávidas ou que já gestaram enfrentam dificuldades para encontrar redes de apoio estruturadas nas periferias, como vagas em creches de período integral, um cenário que as obriga a escolher entre o cuidado com o bebê e as salas de aula. Moral da história: enquanto, sobretudo nas zonas periféricas do município, os meninos deixam a escola para trabalhar, as meninas saem para cuidar dos filhos, um problema que atinge principalmente as jovens negras e pardas, cujas gestações precoces tendem a crescer em comparação a meninas brancas de classe média. São jovens que costumam ser mais culpabilizadas pela gestação do que os pais dos bebês, com isso sofrendo isolamento familiar e social.
Não bastassem os impactos educacionais e sociais, a gravidez precoce torna-se um risco à saúde de muitas mães adolescentes. A Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo alerta para as complicações físicas que podem advir dessas gestações, tais como maior incidência de anemia, infecções urinárias e pré-eclâmpsia. Meninas de 10 a 19 anos apresentam ainda maior probabilidade de partos prematuros, quando não de cesarianas de urgência e do baixo peso do recém-nascido.
Região Metropolitana

Como já se esperava, o primeiro Mapa da Desigualdade da Região Metropolitana de São Paulo, divulgado pela Rede Nossa São Paulo e pelo Instituto Cidades Sustentáveis, aponta disparidades extremas de até 70 pontos porcentuais na área da saúde e na qualidade de vida entre os 39 municípios da Grande São Paulo, a começar pelos indicadores de longevidade e expectativa de vida, que mostra São Caetano do Sul como o município que registrou a maior idade média ao morrer (76 anos). É um índice, como já foi visto, que supera em cerca de 16 anos a média registrada pelo município com o pior desempenho no indicador, que é Francisco Morato, onde a idade média ao morrer ficou em apenas 60 anos.
Se São Caetano do Sul sai na frente no que tange à longevidade, Vargem Grande Paulista lidera o ranking de cobertura vacinal entre as 39 cidades da Grande São Paulo, com o surpreendente índice de 99,88%, uma diferença superior a 70 pontos porcentuais em relação a Rio Grande da Serra, que registrou o menor porcentual da região, com somente 29,1% da população-alvo imunizada.
Outros indicadores vitais para expor a desigualdade entre os municípios da Região Metropolitana de São Paulo são as taxas de mortalidade infantil e materna. A taxa calcula o número de óbitos de crianças com menos de um ano de idade a cada mil nascidos. Nesse sentido, alguns municípios – Pirapora do Bom Jesus (carências de infraestrutura básica), Francisco Morato (graves vazios assistenciais em saúde pública) e Juquitiba (piores coberturas de saneamento básico) – estão entre os que apresentam os piores índices na comparação a São Caetano do Sul, Santana de Parnaíba, Ribeirão Pires, Vargem Grande Paulista e Poá, que apresentam as menores taxas de mortalidade infantil e materna. Em relação específica à mortalidade materna, levou-se em conta o acesso ao pré-natal, que mede os óbitos de mulheres durante a gestação, parto ou até 42 dias após o nascimento, calculados a cada 100 mil nascidos vivos. O levantamento reforça que se trata de um índice diretamente ligado à qualidade das consultas de pré-natal e à eficiência das redes de urgência obstétrica e maternidades regionais. Mulheres negras residentes em áreas mais vulneráveis da Região Metropolitana são as mais afetadas pela falta de assistência médica adequada, do menor alcance das redes públicas de proteção social e orientação.
Posto isso, as maiores taxas de gravidez na adolescência se concentram naqueles municípios que ocupam a base do ranking geral de qualidade de vida, como Pirapora do Bom Jesus, Francisco Morato e Juquitiba. O estudo aponta que o indicador acompanha a falta de infraestrutura urbana e está associado a baixos índices de escolaridade, falta de perspectivas profissionais para as jovens e barreiras físicas e culturais no acesso a métodos contraceptivos. Na outra ponta, São Caetano do Sul e Santana de Parnaíba apresentam os menores porcentuais de mães adolescentes, fruto do alto índice de escolaridade e da forte rede de proteção social. É válido acrescentar que as cidades com menores taxas de gravidez precoce coincidem com aquelas que registram os maiores índices de conclusão do ensino médio, retendo as jovens por mais tempo nas escolas, além de que municípios com maior orçamento em saúde por habitante garantem distribuição regular de métodos contraceptivos e orientação ativa nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs).
Por fim, o acesso a equipamentos e serviços de saúde é igualmente desigual, com os polos centrais detendo a melhor infraestrutura, enquanto as extremidades da Grande São Paulo enfrentam as maiores deficiências no acesso a hospitais, UBS (Unidades Básicas de Saúde) e prontos-socorros. Municípios como Cajamar, Caieiras e Mairiporã são territórios fortemente prejudicados pela falta crônica de infraestrutura local em saúde, o que obriga os moradores dessas regiões a se deslocarem por longas distâncias em sua busca por consultas e exames médicos. Essa vulnerabilidade a que estão expostos – e que inclui muitas vezes a demora no atendimento médico – explica por que a expectativa de vida é menor nessas localidades.




