
Paradoxalmente, é nesse contexto que os eventos ganham uma relevância inédita. Muitos deles se destacam por deixarem de ser apenas produtos da indústria do entretenimento, do turismo ou da comunicação para recuperar uma função muito mais antiga: reconstruir comunidades.
Muito antes da invenção dos centros de convenções, das arenas contemporâneas, dos festivais de música ou das plataformas digitais, as sociedades organizavam sua existência por meio de rituais. Émile Durkheim mostrou que essas celebrações produziam aquilo que chamou de “efervescência coletiva”, momentos em que indivíduos dispersos experimentavam intensamente o sentimento de pertencer a algo maior do que eles próprios. Arnold Van Gennep e Victor Turner demonstraram que os rituais organizam as passagens da vida e criam estados de comunhão capazes de suspender, ainda que temporariamente, as divisões do cotidiano.
Talvez essa seja a melhor chave para compreender o sucesso de muitos dos grandes eventos contemporâneos. Burning Man, Rock in Rio, The Town, Copa do Mundo, festivais gastronômicos, maratonas, grandes festas religiosas ou culturais mobilizam milhões de pessoas porque oferecem muito mais do que programação cultural e esportiva. Oferecem pertencimento. Criam territórios temporários onde desconhecidos compartilham símbolos, emoções, causas e experiências.
Os temas que estruturam esses encontros também mudaram. Sustentabilidade, diversidade, inclusão, saúde mental, ancestralidade, gastronomia, economia criativa, inteligência artificial e bem-estar deixaram de ser apenas assuntos de palestras ou campanhas institucionais. Tornaram-se acontecimentos e o próprio argumento dos eventos. Os públicos procuram experiências que dialoguem com suas identidades, seus valores e suas esperanças.
Essa transformação confirma uma percepção de Clifford Geertz: a cultura é uma teia de significados construída coletivamente. Os eventos são lugares privilegiados dessa construção. Eles comunicam por meio da música, da arquitetura, da gastronomia, da iluminação, dos objetos, dos cheiros, dos gestos e das narrativas. Antes mesmo que qualquer protagonista fale ao microfone, o evento já está dizendo quem somos e o que valorizamos.
No Brasil, Roberto DaMatta mostrou que festas, procissões, carnavais e celebrações revelam as gramáticas profundas da sociedade. São momentos em que uma comunidade representa a si mesma. Essa observação vale igualmente para os pequenos eventos que continuam organizando a vida social: batizados, casamentos, formaturas, aniversários ou cerimônias de despedida. Em todos eles, mais importante do que a produção é a possibilidade de reafirmar vínculos, compartilhar memórias e reconhecer pertencimentos.
A própria economia dos eventos mudou. Como observaram Joseph Pine II e James Gilmore, vivemos na economia da experiência. Mas talvez já estejamos avançando para algo ainda mais profundo: uma economia do significado. Em um ambiente saturado de informações, o verdadeiro valor está naquilo que permanece na memória e transforma relações.
Hartmut Rosa denomina esse encontro transformador de ressonância. Byung-Chul Han, por sua vez, adverte que a sociedade contemporânea perdeu muitos dos rituais que organizavam a convivência. Muitos eventos com nítidos atributos rituais, nesse cenário, podem recuperar uma função civilizatória: quando interrompem o fluxo incessante da aceleração, devolvem densidade ao tempo e permitem que as pessoas experimentem novamente a presença umas das outras.
Talvez seja esse o maior desafio para quem produz eventos no século 21. A excelência técnica continua indispensável, mas já não basta. O verdadeiro diferencial está em compreender os grandes temas do presente e transformá-los em experiências compartilhadas, capazes de produzir memória, afeto e comunidade.
Em uma época descrita por Noreena Hertz como um tempo da solidão, os melhores eventos são aqueles que conseguem realizar aquilo que nenhuma plataforma digital, por si só, é capaz de oferecer: fazer com que pessoas se reconheçam, ainda que por algumas horas, como parte de uma mesma história.
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