Docentes da USP marcam presença
na 3ª edição do Prêmio Jabuti Acadêmico
Cerimônia de entrega da premiação – ocorrida no dia 11 passado - destaca
a valorização da ciência e da cultura como um dos pilares da sociedade

A estatueta entregue aos vencedores do Prêmio Jabuti Acadêmico – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
No dia 11 passado ocorreu a final da 3ª edição do Prêmio Jabuti Acadêmico. No Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, autores e público conheceram os vencedores das 27 categorias integrantes da premiação. A iniciativa é promovida pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e se propõe a ser um instrumento de valorização da produção acadêmica, científica, técnica, profissional e didática do País por meio do livro. Segundo o presidente da CBL, Sevani Matos, em seu texto de apresentação do catálogo da final, foram mais de 2 mil obras validadas.
Houve um alto volume de inscrições de docentes e pesquisadores da USP no prêmio, das quais mais de uma dezena de autores chegaram à final. Na categoria Ciências da Religião e Teologia, venceu o livro Brasil Africano: Orixás, Sacerdotes, Seguidores, de Reginaldo Prandi, Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, lançado pela Editora Pallas. A USP também esteve presente entre os ganhadores com o professor da Faculdade de Direito (FD) José Eduardo Faria, autor de A Democracia e o Direito depois da Pandemia, publicado pela Editora Perspectiva.
Na categoria Ciências Agrárias e Ambientais, a presença uspiana se fez representar por Carlos Eduardo Pellegrino Cerri, Lucas Pecci Canisares e Maurício Roberto Cherubin, todos professores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) e editores do livro Saúde do Solo em Ecossistemas Tropicais: a Base para Mitigação e Adaptação às Mudanças Climáticas, publicado pela Editora da Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz (Fealq). Eles dividiram a edição da obra com Carlos Roberto Pinheiro Junior, doutor pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
Após o resultado, o professor Carlos Cerri contou que o livro reúne mais de 100 autores de várias frentes de todo o País. “Todos os biomas do Brasil estão representados nas suas variações edafoclimáticas (fatores ambientais ligados ao solo e ao clima) e práticas de manejo, mostrando que o Brasil está na vanguarda e é um exemplo para a melhoria contínua das práticas agrícolas na produção de alimento, fibra, energia, biocombustíveis, celulose, assim como para adaptação e mitigação de um problema que é o mais relevante hoje, que são as mudanças climáticas globais”, resume Cerri sobre o livro vencedor. Embora não tenha sido produzido com finalidade de premiação, Cerri conta que vencer o Jabuti Acadêmico numa de suas categorias é um “estímulo para compartilhar o conhecimento que o Brasil tem” e enfatiza que o grupo vinculado ao livro organiza esse conhecimento para disponibilizá-lo de modo gratuito – ele está disponível em versão digital gratuita (neste link) e, para quem preferir, também há publicação impressa.
Valorização da produção acadêmica
O prêmio é relativamente novo nesse formato, mas faz parte de uma tradição mais longa em relação à produção científica e cultural. A professora Nina Beatriz Stocco Ranieri, da Faculdade de Direito da USP, assumiu, este ano, a curadoria do Jabuti Acadêmico. Responsável por compor o júri e atualizar o regulamento, trabalhando com o Conselho Curador, Nina Ranieri explica que “desde a criação do Prêmio Jabuti, nos anos 1950, as obras acadêmicas estavam presentes. O que há de novo é a criação de um prêmio exclusivo para essas obras em 2024, dado o reconhecimento de que a área acadêmica, devido à importância da sua produção, exigia essa valorização”.
Cada categoria foi avaliada por três jurados, que pontuaram dez obras na semifinal e cinco na final. No regulamento, a edição de 2026 incluiu diretrizes relativas ao uso de inteligência artificial e possibilitou a inscrição de obras coletivas com participação de 30% de estrangeiros. Também foram incluídas as categorias de Infografia e Ilustração Científica.
Ranieri detalha a atribuição de duas indicações especiais: “A curadoria indica à Comissão do Prêmio cinco obras clássicas para que uma dentre elas receba a premiação de Livro Acadêmico Clássico. Com relação à Personalidade Acadêmica, a curadoria recebe cinco nomes, que são encaminhados à diretoria da CBL para indicação do ou da homenageada”.
O Livro Acadêmico Clássico desta edição é História das Mulheres no Brasil, organizado por Mary Del Priore e publicado pela Editora Contexto. Sua 1ª edição é de 1997.
Homenagem a José Goldemberg

O professor José Goldemberg, ex-reitor da USP, recebeu o título de Personalidade Acadêmica do Prêmio Jabuti Acadêmico de 2026 – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
A Personalidade Acadêmica desta edição é especialmente ligada à USP. Trata-se do físico e professor José Goldemberg. Nascido em 1928, ingressante na USP em 1945 e graduado em Física em 1950, atuou não apenas como um dos mais importantes pesquisadores no cenário internacional, mas também esteve à frente da Reitoria da USP entre 1986 e 1990. Nas funções públicas fora da Universidade, foi secretário de Ciência e Tecnologia, ministro da Educação e presidente do Conselho Superior da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Como secretário do Meio Ambiente da Presidência da República, foi um dos principais agentes na preparação brasileira para a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92. Em 2017, recebeu o título de Professor Emérito da USP.
Durante o evento, foi exibido vídeo em sua homenagem. A seguir, o próprio Goldemberg subiu ao palco. Em sua fala, refletiu sobre como seu legado pode ajudar novas gerações a entenderem seu papel como cientistas: “Meu relato pode ser útil aos pesquisadores mais jovens para que possam entender a complexa relação entre pesquisa científica desinteressada e o que o governo e a sociedade que a financiam esperam dela”.
Goldemberg relembrou sua formação, marcada pela educação pública desde a educação básica e por sua defesa da ciência e dos cientistas nas instituições de que fez parte. Depois de um período de pesquisas na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, voltou ao Brasil e tornou-se reitor da USP. “Com o retorno à USP, tentei recuperar o nível acadêmico e científico que ela havia tido e, depois, perdido no período autoritário. O mote central da minha gestão foi reerguer a USP com o esforço e as dores que isso exigia”, declarou. Também destacou sua atuação, pela USP, ao lado da direção da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), para conquistar a autonomia administrativa e financeira das universidades públicas do Estado de São Paulo. Um dos nomes de referência no tema da transição energética, o professor finalizou afirmando que “divide esse prêmio com cada colega, aluno e instituição que ousa acreditar que o futuro do Brasil se constrói com educação pública, ciência e coragem”.
Muito aplaudido, Goldemberg, em sua fala, mostrou sintonia com o sentido antes afirmado por Nina Ranieri na abertura da cerimônia de entrega do prêmio. Ao falar sobre o perfil das obras contempladas na final, ela resumiu a conexão da produção acadêmica com o horizonte social mais amplo: “Educação antirrascista, cotas afirmativas, questões ambientais, emergências climáticas, saúde, democracia e inteligência artificial. Cada obra concorrente, em cada uma das categorias, evidencia a vitalidade dessa produção e amplia o significado do Prêmio Jabuti Acadêmico. De fato, conhecimento e democracia são indissociáveis. A livre expressão da atividade intelectual, artística e científica, aqui reconhecida, qualifica o debate público. Mais do que distinguir livros de excelência, o prêmio fortalece a ciência, valoriza a cultura, estimula a educação e reafirma o conhecimento como um dos pilares de uma sociedade mais justa, solidária e democrática”.
*Estagiária sob orientação de Simone Gomes

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