‘Nossa curadoria é anti-imperialista’: uma entrevista com Miguel Yoshida, editor da Expressão Popular

Por Vincent Bevins15/08/2026 às 13:000 visualizações
Com o café do Armazém ao lado, a Livraria Expressão Popular vende livros de diversas editoras. Foto: Gabriela Moncau
Com o café do Armazém ao lado, a Livraria Expressão Popular vende livros de diversas editoras. Foto: Gabriela Moncau
Brasil de Fato

O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) do Brasil é atualmente um dos maiores e mais conhecidos movimentos populares do mundo. As centenas de milhares de famílias no MST pressionam por uma reforma agrária radical, principalmente ocupando terras não utilizadas ou mal utilizadas e reivindicando a redistribuição.

Fundado em 1984, o movimento tornou-se especialmente famoso — e um símbolo de resistência determinada à extrema direita — durante o desastroso governo de Jair Bolsonaro, quando mobilizou seus militantes para se opor ao presidente e empregou seus recursos materiais para alimentar brasileiros famintos. O que é menos conhecido é que o MST mantém sua própria editora, a Expressão Popular, parte importante do ecossistema intelectual do país. Desde 2012, Miguel Yoshida atua como coordenador editorial, publicando com foco na luta de classes, no anti-imperialismo e no futuro do Sul Global. Miguel conversou com a North South Notes em junho e julho.

Vincent Bevins: Muita gente já ouviu falar do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra do Brasil — ele se tornou um tanto famoso mundialmente nos últimos anos — mas acho que poucos sabem que o MST tem sua própria editora. Como isso veio a acontecer?

Miguel Yoshida: A editora nasceu em 1999. Bem, antes de tudo, 1996 foi um ano difícil e decisivo para o MST. Foi o ano do Massacre de Eldorado do Carajás, quando 21 trabalhadores sem terra foram mortos pela polícia militar. Em resposta, o MST organizou uma longa marcha até Brasília, que conseguiu constituir uma mobilização social significativa contra as políticas neoliberais do presidente Fernando Henrique Cardoso.

Ao mesmo tempo, o MST — e outros movimentos populares — chegou à conclusão de que era preciso dar um salto teórico também. Em que sentido? Após a queda do Muro de Berlim, houve, não apenas aqui no Brasil mas no mundo todo, uma onda de desilusão com a esquerda. Sabe: “Ok, o socialismo não funcionou, vamos desistir.” Conhecíamos muitos intelectuais que simplesmente jogaram suas bibliotecas no lixo.

A natureza do imperialismo estadunidense mudou significativamente nos últimos anos? O editor tem buscado refletir sobre o impacto do atual governo Trump, por exemplo?

Miguel Yoshida: No que diz respeito a publicações, lançamos um livro de um jornalista cubano sobre o pensamento de Marco Rubio. É uma análise do próprio Rubio chamado “Marco Rubio, mentiroso patológico” — que demonstra como esse filho de migrantes baseia toda a sua carreira em um preconceito profundamente xenófobo, com a intenção explícita de recuperar o poder imperial sobre a América Latina.

E a nossa avaliação é que o que está claramente em jogo é a hegemonia dos Estados Unidos — o império está em declínio — e esse império, sentindo-se ameaçado por potências emergentes como a China e outras nações dentro e fora do BRICS, torna-se cada vez mais agressivo e destrutivo. Quando uma fera está encurralada, ela ataca desesperadamente, e o imperialismo na sua fase atual parece estar atirando em todos e em todas as direções. Essa leitura crítica sustenta a nossa curadoria de trabalho anti-imperialista.

Este ano, Lula disputará seu quarto mandato. O MST tem uma relação longa e complexa com ele, é claro. Isso será foco de publicações, eventos, discussões e assim por diante?

Miguel Yoshida: Este será um ano realmente importante para o Brasil e para a América Latina. Existe a possibilidade de continuidade de um governo progressista com Lula — ou, existe a possibilidade de uma vitória da extrema direita, como temos visto na região recentemente.

O que planejamos é uma série de livros sobre a política em jogo. Assim, em agosto lançaremos um estudo sobre a relação entre o agronegócio e a extrema direita. Na nossa visão, nosso papel político é denunciar esses tipos de problemas e levantar essas questões. E teremos uma série de eventos baseados nos livros que, de uma forma ou de outra ao longo dos anos, destacaram os avanços da classe trabalhadora sob governos progressistas e exploraram as dificuldades desse processo; também apresentaremos livros que demonstram as reais ameaças que a extrema direita representa à população.

E essa guinada à direita na América Latina? Isso é uma ameaça séria?

Miguel Yoshida: Pessoalmente, acho — e esta também é a convicção de todo o nosso comitê editorial — que houve uma real virada à direita na América Latina, e é algo que estudamos com atenção, assim como estudamos a política externa de Donald Trump e sua relação com o fenômeno.

Durante muito tempo, exploramos tanto os avanços progressistas quanto a ameaça do imperialismo no âmbito da América Latina, e não apenas dentro de nações individuais. E acreditamos que vivemos um momento que coloca a ofensiva imperialista de volta ao centro da agenda. A partir do início dos anos 2000, a região experimentou uma onda de governos progressistas, e agora vivemos o retorno de uma era de combate — os governos de extrema direita na América Latina, em nossa visão, constituem uma rede imperialista internacional liderada pelos Estados Unidos.

Isso é fundamental e é algo sobre o qual pensamos longa e profundamente. Então, os números indicam que somos, provavelmente, a segunda editora de esquerda mais importante do Brasil, atrás da Boitempo, e temos uma ótima relação com eles. Junto com eles e outros membros da União Internacional de Editoras de Esquerda (IULP), realizamos o “Dia dos Livros Vermelhos”.

A essência do neoliberalismo reside no cultivo excessivo do individualismo atomizado. A ideia por trás dos nossos espaços — a livraria, o café, o Armazém do Campo e o Centro Cultural Elza Soares — é precisamente subverter essa lógica.

Queremos reconstruir os laços comunitários e a cultura da presença na socialização, com coisas como lançamentos, debates e clubes de leitura. Oferecer um refúgio de convivência desconectado da lógica comercial e do mundo do trabalho compulsório que nos cerca. A força da classe trabalhadora emana de sua capacidade de articulação coletiva, e não podemos ceder esse território.

Fonte
Brasil de Fato
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