‘Nem Tudo é Paz e Amor’: filme narra versão de filhos de famílias psicodélicas

Por Psicodelia Brasileira15/08/2026 às 18:370 visualizações
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Brasil de Fato

Minha filha adolescente já me escondeu mais de uma vez das amigas e dos amigos dela. Tenho certeza. Não porque ela tenha vergonha de mim (ou um pouco, normal), mas porque, em alguns momentos, ela entende que é mais fácil não explicar quem eu sou ou o que eu faço por aí. E tenho certeza de que esse silêncio não é só dela, mas também de muitas crianças que crescem dentro de “famílias psicodélicas”.

Há pelo menos dez anos trabalho como jornalista especializada na cobertura de cannabis, psicodélicos e bioculturas. Para mim, esse nunca foi apenas o tema em que me tornei setorista, como falamos no jornalismo. É parte da minha própria vida, mesmo antes desse aprofundamento, uma vez que meu posicionamento político sempre contemplou pautas progressistas vistas por muitos como tabu.

Quem acompanha meu trabalho sabe que sou do Daime, uma religião amazônica que utiliza a ayahuasca em contexto ritualístico. E que estudo também a linha do Santo Daime, que tem a Santamaria (cannabis) como uma das plantas consagradas nos rituais. Nada é escondido dentro de casa e, no meu caso, nem fora. Minha filha cresceu vendo essas práticas com naturalidade. Mesmo esse caminho tendo se intensificado com o meu ingresso no universo das medicinas tradicionais indígenas, meu passado de uso de psicodélicos e outras substâncias nunca foi segredo. 

Mesmo que ela demonstre zero interesse por esses temas, ela está informada. O tal do extraordinário é ordinário dentro da nossa casa. Mas nosso cotidiano tem toques fractais que a maior parte das famílias não tem e que podem mudar os rumos de como uma criança se relaciona com o mundo.

E é essa tensão que propõe o filme-documentário “Nem Tudo é Paz e Amor”, dirigido por Betão Aguiar, que estreia nos cinemas ainda neste mês. A obra acompanha filhos de famílias ligadas à contracultura brasileira e propõe olhar para como a psicodelia, as drogas, a liberdade e a resistência política também atravessaram a experiência da infância.

Ainda não assisti ao filme, mas a proposta é ótima para levantarmos esse tema, porque é comum as crianças serem esquecidas nesse processo e vistas como um apêndice de seus pais, sem grande poder de tomada de decisão, mas sob forte influência das escolhas de seus parentes.

Falamos bastante sobre usuários, sobre pesquisa científica, sobre redução de danos, sobre políticas públicas e, mais do que nunca, sobre o potencial terapêutico da cannabis, dos psicodélicos e das bioculturas. Mas quase nunca falamos dos desafios enfrentados por quem cresce dentro dessas famílias. Pode parecer muito interessante e descolado para alguns, mas, como o nome do documentário diz: “nem tudo é paz e amor”.

Famílias psicodélicas existem

Diferentemente do imaginário construído décadas atrás com base na vida de artistas da contracultura, as famílias psicodélicas hoje são compostas por pessoas professoras, jornalistas, médicas, advogadas, comerciantes, servidoras públicas, empreendedoras, donas de casa e outros trabalhadores das mais diversas áreas. São pessoas que trabalham, estudam, criam seus filhos, pagam contas, cumprem suas responsabilidades, vivem sua espiritualidade e religiões. E têm sua própria relação com os psicodélicos ou com as bioculturas de forma cotidiana.

E parece que justamente essa falta de “carta branca” que os artistas parecem ter para fazer o que “der na telha”, sem serem muito questionados, é que faz com que famílias comuns enfrentem ainda mais estigmas e preconceitos, que acabam recaindo também sobre as crianças e os adolescentes.

Os psicodélicos já não ocupam apenas o espaço da contracultura. Hoje fazem parte de debates científicos, jurídicos, médicos, espirituais e culturais. Se essa conversa já amadureceu, talvez seja hora de amadurecer também a discussão sobre as famílias que vivem essa realidade.

Muitas vezes, as crianças que nascem dentro desse contexto aprendem desde cedo a medir palavras, evitar determinados assuntos ou simplesmente não explicar sua realidade para escapar do julgamento e das explicações. Mas não porque reconhecem onde vivem como um lugar inseguro. E sim porque sabem que boa parte da sociedade ainda desconhece ou abomina aquilo que acontece dentro de suas casas.

Como qualquer outra configuração familiar, famílias psicodélicas carregam responsabilidades enormes. Crianças precisam ser protegidas, acolhidas e crescerem em ambientes seguros. Mas precisamos reconhecer que existe uma realidade específica que merece ser compreendida.

Independentemente das respostas que o filme traga, “Nem Tudo é Paz e Amor” cria uma oportunidade importante para ampliar essa conversa.

Se queremos construir um debate mais maduro sobre as bioculturas e psicodélicos, precisamos olhar também para quem vive essa realidade no dia a dia e considerar os graus de vulnerabilidade. E isso inclui, sobretudo, os filhos que crescem dentro dessas famílias, considerando suas experiências, seus desafios e o direito de existir com respeito e liberdade à maneira daqueles que os amam até terem sua própria maneira de viver, seja com ou sem substâncias.

Sobre o filme

Ao reunir depoimentos de Moreno Veloso, Nara Gil, Sarah Sheeva, Beto Lee, Anelis Assumpção, Marília Aguiar e outros filhos de personagens centrais da contracultura brasileira, “Nem Tudo é Paz e Amor” tira o foco dos ícones e volta a atenção para seus herdeiros. 

Dirigido por Betão Aguiar, filho de Paulinho Boca de Cantor e Marília Aguiar, o documentário investiga como a busca por liberdade, experimentação e ruptura de padrões atravessou também a vida doméstica. 

O filme propõe uma reflexão sobre os efeitos intergeracionais da contracultura e amplia um debate ainda pouco explorado no Brasil: o lugar dos filhos e das famílias na construção dessa memória coletiva. 

De acordo com a Pandora Filmes, distribuidora da obra, “psicodelia, drogas, sexo e resistência à ditadura aparecem lado a lado com fraldas, papinhas e trabalhos escolares, revelando as contradições entre o ideal de uma geração e a experiência de quem cresceu dentro dela”.

*Caroline Apple é jornalista há quase 20 anos, com passagem por alguns dos principais veículos do país. Sua trajetória é marcada pela cobertura de temas ligados à política e aos Direitos Humanos, com ênfase nos últimos 10 anos na causa indígena e nas disputas culturais, políticas e simbólicas em torno das bioculturas e dos psicodélicos. É uma das primeiras jornalistas no Brasil a se especializar na cobertura da cannabis para fins medicinais.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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