Avanços tecnológicos, negócios escaláveis e o desenvolvimento econômico

14/08/2026 às 21:520 visualizações
Marcelo Caldeira Pedroso
Marcelo Caldeira Pedroso
Jornal da USP

Por Marcelo Caldeira Pedroso, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP

 Publicado: 14/08/2026 às 18:52
Imagem do artigo
O desenvolvimento econômico é o processo pelo qual as economias progridem visando melhorar o bem-estar econômico e a qualidade de vida de uma nação, região ou comunidade. Nesse sentido, os elementos sociais e ambientais fazem parte dessa evolução, tanto quanto os elementos econômicos.

Esse processo evolutivo abrange várias dimensões, tais como avanços tecnológicos e mudanças estruturais. Esses elementos podem gerar impacto no aumento da renda e do nível de emprego, ganhos de produtividade, além de melhorias na educação, saúde, infraestrutura e segurança. Nesse artigo, a ênfase está nos avanços tecnológicos.

Avanços tecnológicos

A evolução tecnológica é um dos principais propulsores dos ciclos de desenvolvimento econômico. Podemos citar a evolução da máquina a vapor que está associada à Primeira Revolução Industrial, no século 18. Essa revolução ficou conhecida pela transição da produção artesanal para a industrial em maior escala por meio do uso intensivo de máquinas movidas a energia advinda principalmente do vapor e da força hidráulica. Nessa época, a indústria têxtil e os transportes (principalmente movidos por locomotivas e barcos a vapor) foram altamente beneficiados.

No final do século 19, ocorreu a Segunda Revolução Industrial, impulsionada pelo uso do petróleo e da eletricidade. Essas fontes de energia possibilitaram o surgimento dos motores a combustão, a invenção do automóvel e do telefone, bem como o desenvolvimento das linhas de montagem e da produção em massa em diferentes setores. Isso alavancou ainda mais a produção industrial em larga escala, com consequente redução dos custos operacionais relacionados à economia de escala.

Posteriormente, a partir de meados do século 20, houve a Terceira Revolução Industrial, caracterizada por uma integração entre ciência, tecnologia e produção. Nessa época, foram introduzidas novas fontes de energia, incluindo a energia nuclear, solar e eólica. Além disso, houve importantes desenvolvimentos tecnológicos, tais como a engenharia genética, biotecnologia e robótica. Nesse período, ocorreu a adoção crescente dos microcomputadores, a invenção do telefone celular e a criação e crescimento acelerado da internet.

Atualmente, estamos na Quarta Revolução Industrial, também conhecida como Indústria 4.0. Esta considera a significativa transformação impulsionada por tecnologias digitais avançadas em diferentes setores da economia. Essa revolução é caracterizada pela integração de tecnologias tais como inteligência artificial, computação em nuvem, Internet das Coisas (IoT), interação homem-máquina e engenharia avançada (ex.: manufatura aditiva e nanopartículas).

Inovação como lógica articuladora do progresso econômico e social

Os avanços tecnológicos são associados às revoluções industriais. Não obstante, esses avanços, per se, não geram o progresso econômico e social. Esse progresso ocorre quando as novas tecnologias são incorporadas em soluções na forma de novos produtos, serviços ou processos. Essas soluções devem resolver problemas relevantes no momento em que são disponibilizadas nos mercados público e privado.

Essa é a lógica de articulação da inovação: possibilitar que os conhecimentos científicos sejam convertidos em tecnologias e, consecutivamente, incorporados em soluções. Estas, por sua vez, são comercializadas e geram valor ao resolver problemas relevantes da sociedade. Quando essa geração de valor ocorre de forma inovadora, temos uma inovação de modelo de negócio.

Nesse contexto, os avanços tecnológicos podem atuar como catalisadores de novos modelos de negócios, particularmente dos modelos de negócios escaláveis.

Negócios escaláveis

Um negócio escalável apresenta uma modelagem econômica baseada em um crescimento de receita significativo (por vezes, exponencial) sem ocasionar um aumento proporcional nos custos e despesas da empresa. Isso implica que, quanto maior for o crescimento do negócio, maior será sua lucratividade.

Podemos citar alguns padrões de modelos de negócios escaláveis. O primeiro remete aos modelos baseados na entrega de soluções que apresentam a economia de escala como elemento central da eficiência operacional do negócio. Em segmentos de manufatura, exemplos incluem a automação de tarefas e os processos produtivos nos formatos de linhas de montagem e produção em massa. Em segmentos de serviços, exemplos incluem a digitalização de operações de serviços (ex.: serviços financeiros) e a oferta de serviços habilitados por tecnologia (em inglês, tech-enabled services). Neste caso, a tecnologia opera nos bastidores (ou backstage) ao automatizar tarefas, apoiar a tomada de decisões e sincronizar processos.

Outro padrão remete aos negócios digitais, que são aqueles em que as tecnologias digitais constituem os elementos centrais das operações. Essas tecnologias incluem a internet e soluções baseadas em desenvolvimento de software. Os negócios digitais suprimem ou minimizam as operações físicas ao utilizarem modelos de entrega digital (ex.: software como um serviço ou SaaS – Software as a Service), distribuição virtual (ex.: e-commerce) e prestação de serviços on-line.

Um terceiro padrão remete à comercialização de propriedade intelectual, que pode ser classificada como propriedade industrial (ex.: marcas e patentes), direitos autorais (ex.: produção científica, obras de arte e literatura) e proteção de criações singulares ou sui generis (ex.: novas variedades de plantas). Tradicionalmente, o modelo de geração de receita ocorre por meio de licenciamento da propriedade intelectual. Esse é o caso das startups de biotecnologia que licenciam suas tecnologias para as empresas farmacêuticas consolidadas (ex.: vacina contra covid-19 desenvolvida pela BioNTech e comercializada pela Pfizer).

Por fim, um quarto padrão consiste nos modelos de negócios baseados em plataformas, tais como as redes sociais e os mercados bilaterais ou multilaterais. Nesses casos, os negócios escaláveis estão relacionados com o efeito rede (ou network effect), que diz respeito ao fenômeno econômico em que uma solução (produto ou serviço) se torna mais valiosa à medida que cresce a quantidade de usuários (pessoas ou empresas). Diferentes exemplos podem ser citados, tais como as redes sociais LinkedIn, Instagram e TikTok e os mercados multilaterais Uber, Airbnb, iFood e Wellhub (antigo Gympass).

Potencializando o desenvolvimento econômico

No contexto do Brasil, o desenvolvimento econômico pode ser potencializado ao se adotar uma política de incentivo aos negócios escaláveis. Nesse sentido, os investimentos em pesquisa científica precisam ser convertidos em tecnologias aplicadas. Estas devem ser incorporadas em soluções que resolvam problemas relevantes da sociedade. Essas soluções, ao serem levadas ao mercado por meio de negócios escaláveis, amplificam a geração de valor.

Para tanto, é necessário que o capital inovador esteja alinhado a essa lógica. Em relação ao capital inovador público, é fundamental que as instituições de fomento à pesquisa e inovação (ex.: Fapesp, Finep e Embrapii) atuem de forma estruturada em todas as etapas dessa lógica. O capital inovador privado (ex.: fundos tradicionais de capital de risco e fundos corporativos de capital de risco) está naturalmente alinhado à maximização da geração de valor. Não obstante, seu apetite aos investimentos em inovação depende fortemente das condições macroeconômicas (ex.: política de taxas de juros) e de retorno do investimento (ex.: liquidez dos ativos financeiros).

Essa articulação entre a lógica de inovação por meio de negócios escaláveis e o capital inovador pode ser tratada por meio de políticas públicas no âmbito da ciência, tecnologia, inovação e desenvolvimento econômico.

________________
(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

Imagem do artigo
Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.

Fonte
Jornal da USP
Abrir original ↗
Esta notícia foi útil?

Debates 0

Seja o primeiro a contribuir com o debate.

Difunda suas informações e promova seu argumento

Não se acanhe de publicar alguma informação ou dado que possa ser positivo ou útil.

Para participar do debate, entre com sua conta ou crie uma gratuita.