
Uma menina esconde, dentro de sua bolsa, três grandes vontades: a de crescer, a de ter nascido menino e a de tornar-se escritora. Essa é a premissa do livro A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, que, publicado em 1976 – em plena ditadura militar – completa 50 anos em 2026. Numa época de autoritarismo político, a obra trazia uma ousada mensagem sobre o direito da criança à opinião e à imaginação, como resistência às duras regras dos adultos e do patriarcado. Outros quatro marcos da literatura infantil – Ida e Volta, de Juarez Machado, Marcelo, Marmelo, Martelo e Outras Histórias, de Ruth Rocha, Os Rios Morrem de Sede, de Wander Piroli, e O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, de Jorge Amado – também completam seu cinquentenário neste ano. Essa efeméride será lembrada no Colóquio Descosturando o Pensamento: Meio Século de Livros Brasileiros para a Infância, 1976–2026, que ocorrerá nesta quarta-feira, dia 19, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a partir das 10 horas. A entrada é grátis. Haverá transmissão ao vivo pelo canal da FFLCH na plataforma Youtube.

O organizador do colóquio, professor Francisco Thiago Camêlo, conta ao Jornal da USP que seu desejo é pensar a contribuição dessas obras para a literatura infantil e discutir o que esses clássicos ainda têm a dizer aos “leitores pequenos e grandes” de hoje. “O meu intuito é pensar a literatura infantil não do ponto de vista pedagógico, escolar, instrumental e utilitário, mas os livros infantis como forma de conhecimento do mundo, como porta ou janela que dá acesso a outras vidas, outras vozes, outras maneiras de habitar o mundo e também de pensar”, afirma Camêlo, que é diretor do Centro de Estudos das Literaturas e Culturas de Língua Portuguesa (Celp) da FFLCH.
Escritores, professores, editores e críticos literários vão participar das quatro mesas-redondas que ocorrerão ao longo do colóquio. Após a abertura do evento, a primeira mesa vai reunir a escritora e ilustradora Eva Furnari, que falará sobre sua trajetória literária – desde Bruxinha Atrapalhada, de 1982, até o mais recente Rozaspina, de 2025 -, e a professora e escritora Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília (UnB), com a mediação de Camêlo.
A segunda mesa-redonda, às 14 horas, trará debates sobre as literaturas afrobrasileira, indígena e negra, que serão abordadas, respectivamente, pelo jornalista Bruno Molinero, pelo escritor, compositor e cineasta de origem indígena Cristino Wapichana e pela professora Elisabeth Cardoso, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). A mediação estará a cargo da professora Rosangela Sarteschi, da FFLCH.
Já na terceira mesa, às 16 horas, a professora Aline Frederico, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, o arte-educador e ilustrador Caio Zero e a educadora Daniela Gutfreund abordarão “a imersão poética no livro-imagem”, a ilustração como experiência estética e os livros-álbuns, respectivamente. A professora Maria Zilda da Cunha, da FFLCH, será a mediadora.
Às 18 horas, está prevista a quarta e última mesa-redonda do colóquio. Ela terá a participação da escritora Mell Brites, do escritor e ilustrador Odilon Moraes e da professora Rosana Kohl Bines, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Os temas abordados serão, também respectivamente, “a palavra a serviço da imagem”, o livro ilustrado no Brasil e a série Asdrúbal, o Terrível, publicada originalmente nos anos 70 pela escritora carioca Elvira Vigna (1947–2017). O mediador será o professor Augusto Massi, da FFLCH.
Às 12 horas, após a realização da primeira mesa-redonda, será inaugurada uma exposição paralela ao colóquio na Biblioteca Florestan Fernandes da FFLCH, que tem a curadoria de Francisco Camêlo, Paulo César Ribeiro Filho e Valnikson Viana. A ideia é destacar outros livros infantis emblemáticos, publicados nos últimos 50 anos. “Para isso, selecionamos obras premiadas por diferentes instituições críticas brasileiras, com reconhecida qualidade estética, ética e material, sempre atentos à diversidade de autores, temas e formatos”, diz Camêlo. Todos os livros a serem expostos pertencem ao acervo da biblioteca da FFLCH.
Diversidade de vozes
“Cada livro é singular, tanto do ponto de vista de sua forma, quanto da mensagem que endereça ao leitor”, diz Camêlo, comentando os cinco livros que fazem 50 neste ano e que serão lembrados no colóquio. Ele destaca as contribuições dos autores desses livros para o reconhecimento internacional da qualidade do livro infantil brasileiro e as características questionadoras e críticas de cada um. Os Rios Morrem de Sede, de Wander Piroli, por exemplo, discute a destruição do ambiente a partir de um diálogo intergeracional entre pai, filho e avó. O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, de Jorge Amado, lida com as impossibilidades e frustrações decorrentes de um amor improvável entre o predador e sua presa. Marcelo, Marmelo, Martelo e Outras Histórias, de Ruth Rocha, e Ida e Volta, de Juarez Machado, cada um à sua maneira, ampliam as possibilidades narrativas e inventivas das palavras e das imagens. “A Bolsa Amarela, inclusive, por retratar uma narradora-protagonista criança insurgente às normas do mundo adulto, que impõe um destino aprisionador às mulheres, este ano foi alvo de mais uma tentativa de censura.”

A principal importância do colóquio, segundo Camelo, é relembrar a literatura infantil como gesto de resistência ao autoritarismo, tanto no período da ditadura militar, no qual foram publicados, como atualmente, num cenário de avanço da extrema-direita no âmbito brasileiro e global. “Reabrir esses cinco livros meio século depois de sua publicação é também apostar na imaginação e na inteligência da criança como sujeito de uma infância que vê o mundo com olhos mais livres do que muitos adultos de visão apequenada e de pensamento costurado”, afirma Camêlo.
“Descosturando o Pensamento mostra que a literatura infantil é algo plural, é uma ficção aberta à pluralidade e à diversidade de vozes, de modos de ser e de questionar o mundo”, acrescenta Camêlo, a respeito do título do colóquio. De acordo com ele, esse título faz referência a uma expressão presente em A Bolsa Amarela. Num dos capítulos do livro, o leitor é introduzido à história de um galo que tem seu pensamento “costurado” pelo dono para se tornar um galo de briga – ou seja, trata-se de uma metáfora do pensar repetitivo e da limitação da criatividade. O professor completa: “Descosturando o Pensamento quer significar, ao final, que não há um único modo de pensar, que é possível pensar diferente. E é isso o que as crianças, os livros infantis e a própria ideia de infância nos ensina, já que a palavra ‘infância’ é feita de muitas infâncias, de muitas idades”.
O ColóquioDescosturando o Pensamento: Meio Século de Livros Brasileiros para a Infância, 1976–2026, acontece nesta quarta-feira, dia 19, das 10hs às 20hs, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP (Avenida Professor Luciano Gualberto, 315, Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis. Haverá transmissão ao vivo pelo canal da FFLCH na plataforma Youtube.
* Estagiária sob supervisão de Roberto C. G. Castro




