Países-parceiros de longa data, Brasil e Rússia podem expandir suas cooperações na área de defesa. Referência no setor, a Rússia pode ajudar o Brasil a melhorar suas capacidades, reduzindo sua dependência de fornecedores da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Em recente visita ao Brasil, Nikolai Patrushev, assessor do Kremlin e chefe do Colegiado Marítimo russo, se reuniu com o comandante da Marinha do Brasil, o almirante Marcos Sampaio Olsen, e discutiu a colaboração entre as forças. A cooperação tecnológica entre os países também foi defendida por Celso Amorim, assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Juliana Zaniboni, doutoranda em estudos estratégicos pela Universidade Federal Fluminense (UFF), observa que toda essa movimentação de cooperação está dentro da agenda do BRICS, e destaca que a busca do Brasil pela autonomia militar investindo em acordos com a Rússia pode despertar a reação dos EUA e da União Europeia (UE), a depender da profundidade dessa cooperação.
"Dependendo de quais tecnologias militares também forem desenvolvidas em parceria, se isso acontecer, acredito que possa gerar algum, não desentendimento, mas estranhamento por esses atores."
Zaniboni afirma que somente a parceria com a Rússia pode não ser suficiente para provocar melhorias na defesa do Brasil se não forem resolvidas questões internas do país que afetam o setor, sobretudo no que diz respeito ao orçamento. Ela aponta que, enquanto em países da OTAN o gasto com pessoal ― que envolve salários, benefícios e pensões ― consome cerca de 31% das despesas militares, no Brasil esse percentual é de 85%, enquanto apenas 7,3% vão para investimentos. Tudo isso, pondera a especialista, precisa entrar na balança quando se pensa em parcerias militares.
"A gente vai ter essa parceria, mas a gente vai ter o dinheiro para conseguir transformar essa tecnologia que está sendo feita em parceria para algo nacional? A gente tem condição disso? Tem políticas públicas para apoiar esse tipo de iniciativa? É claro que a cooperação seria algo muito interessante, mas a gente precisa também entender o depois."
Para Zaniboni, as tecnologias mais estratégicas que a Rússia poderia oferecer em uma parceria com o Brasil seriam a tecnologia naval e oceânica, tecnologias de uso dual, que podem ser usadas tanto para fins civis quanto militares, e sistemas que possam ser progressivamente nacionalizados.
"Tecnologias que possam desenvolver monitoramento ambiental, exploração oceânica, até mesmo proteção do pré-sal ou pesquisas científicas", avalia.
Vinicius Modolo Teixeira, bacharel em ciências aeronáuticas, considera duas áreas da defesa brasileira bastante importantes, que sofrem com uma deficiência grave, que poderiam se beneficiar da cooperação com a Rússia. Uma delas é a defesa antiaérea, na qual o Brasil tem uma carência de décadas, enquanto a Rússia é líder mundial, com mísseis de defesa em várias camadas. A outra área é o setor nuclear.
"A experiência russa derivada da experiência soviética no campo nuclear é algo que o Brasil ainda demanda, precisa engrandecer esse campo. E essa experiência, tanto na fabricação, na condução, na construção, na gestão de usinas e também de reatores, a experiência que a Rússia pode prover para o Brasil é essencial."
Ele acrescenta que um acordo nuclear, como é o pleiteado e foi vislumbrado na missão liderada por Patrushev, tem um interesse estratégico muito grande para o Brasil.
"Isso daria para o Brasil uma condição de ampliar o seu parque nuclear, dar segurança, tendo um parceiro com uma confiança e experiência como a Rússia", diz o especialista.
Teixeira afirma que a cooperação no âmbito do BRICS, relativa a questões econômicas, pode ser ampliada para a área de defesa, o que é muito importante, já que países ocidentais se mostraram pouco confiáveis como parceiros no setor, podendo recorrer a ações militares quando não conseguem alcançar seus interesses por meios legais, como vêm fazendo os EUA.
"Então, uma parceria com um país como a Rússia, que tem uma tecnologia militar de ponta, seria bastante interessante para o Brasil passar a reduzir a sua dependência de países que possam vir a ser hostis, rivais ou criar problemas para o Brasil."
Segundo o especialista, se o Brasil tivesse um recurso destinado à defesa maior, revisasse e reformasse os gastos com pessoal, em dez anos construiria uma capacidade bastante interessante.
"Mas tem que ter vontade estratégica e um planejamento de Estado para isso. Não depende só de um governo querer fazer isso, tem que estar como um objetivo estatal, estratégico das nossas Forças Armadas e dos governos posteriores que venham a substituir o atual. Não pode ficar à mercê da política de um governo de quatro anos, e depois o outro desfaz ou coloca ali um teto de gastos, impede o investimento em áreas estratégicas."
Na visão de Teixeira, os benefícios da aproximação militar com Moscou vão depender do tipo de cooperação que será firmada. Se for um acordo com previsão de transferência tecnológica, com habilitação de parceiros e empresas no Brasil que possam fabricar e dar manutenção aos equipamentos, certamente será um progresso muito superior aos acordos anteriores firmados com os EUA, nos quais o Brasil se limitava à compra de equipamentos obsoletos, sem manutenção, que ficavam paralisados por falta de peças.
"Experiências como a compra de blindados no Brasil, tanque M60, compramos ali coisas usadas, velhas e sem manutenção, nós não tivemos um bom acordo […]. Então depende muito [do tipo de acordo]. A Rússia tem a capacidade de fornecer uma gama de produtos bastante interessante", avalia o analista.



