Cerca de 10% dos domicílios do Distrito Federal, o equivalente a 100.701 residências, encontram-se em situação de déficit habitacional, segundo dados do Instituto de Pesquisa e Estatística (IpeDF). O levantamento mais recente utiliza dados de 2021 da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD).
A classificação engloba famílias sem acesso à moradia adequada, que vivem em condições precárias ou que comprometem mais de 30% da renda domiciliar com aluguel. Cerca de 600 famílias nesta situação ocupam um terreno da União na região administrativa de São Sebastião para cobrar moradia digna. O Acampamento Leidiane Ribeiro, organizado pelo Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM), completou um mês.
O caso vem sendo acompanhado por representantes do governo federal, do Governo do Distrito Federal (GDF) e parlamentares de esquerda que atuam na mediação entre famílias e o poder público. O GDF ainda não apresentou proposta de realocação para as famílias.
“Estávamos correndo o risco de um despejo administrativo, mesmo após termos conseguido que as definições judiciais sobre a área fossem transferidas para a Justiça Federal. Ainda assim, o risco de uma retirada administrativa permanecia. Felizmente, hoje conseguimos uma decisão favorável para impedir que esse despejo aconteça”, afirma Gabriel Araújo, representante do MNLM.
Enquanto aguardam uma solução definitiva, moradores vivem sob lonas, em situação precária e enfrentam dificuldades diárias. “Sofremos com falta de água, alimentação adequada e banheiros”, relata um dos representantes do movimento.
Até o fechamento desta reportagem, a mobilização continua para garantir melhores condições de permanência para as famílias.
Causas estruturais
Segundo a Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (Codhab), o déficit é resultado do alto custo de aluguéis e da coabitação compartilhada entre famílias. Já movimentos populares apontam que o problema está ligado à falta de políticas de moradia e à especulação imobiliária.
O representante do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), Eduardo Borges, explica que as causas do déficit na capital são históricas. “Está na origem da construção de Brasília, que segregou quem construiu a cidade do fruto deste trabalho. Hoje, o DF tem 182 mil domicílios vazios contra 12 mil famílias sem moradia”, aponta.
“A falta de uma política de habitação de interesse social e de regulação dos imóveis que não cumprem a função social, associada à farra da grilagem e da especulação imobiliária, são os responsáveis por essa realidade que nós denunciamos”, critica.
De acordo com Borges, o déficit habitacional envolve problemáticas que vão além do acesso à moradia. De acordo com ele, a falta de um lar dificulta o planejamento diário da população e afeta a saúde das famílias. “Isso impacta no acesso das crianças à escola, porque você não sabe se vai conseguir se manter em um local próximo de onde os filhos estudam”, ressalta.
“É perder mais tempo para ir ao trabalho, porque as famílias são empurradas cada vez mais para longe, devido à dificuldade em acessar lugares com maior oferta de empregos. É se alimentar mal, porque as moradias mais acessíveis ficam em regiões conhecidas como ‘desertos alimentares’, onde predominam alimentos ultraprocessados, entre tantas outras formas de violação do direito à cidade”, acrescenta.
Segundo Borges, cerca de 70% das pessoas que vivem nas ocupações do MTST são negras. “A luta pela reforma urbana precisa ser antirracista e antimachista, mas também questionar a lógica da cidade como mercadoria”, afirma.
Para o representante do MTST, reduzir o déficit habitacional exige mudanças estruturais na política habitacional do DF. “Primeiro, é preciso atender à lista de vulnerabilidade da Codhab. Depois, garantir que ela contemple quem realmente precisa, porque somente um número muito pequeno de famílias consegue ser reconhecido pela companhia”, sugere.
“Também é necessário criar uma política habitacional que amplie a oferta de moradias, tanto por meio da construção de novas unidades quanto por meio do aproveitamento de imóveis já existentes, muitos deles em áreas valorizadas e com infraestrutura”, conclui.

Aluguel pesa no orçamento
Conforme levantamento do IpeDF, a carência habitacional na capital é formada hoje por três situações principais. O componente mais alarmante é a sobrecarga com aluguel, que atinge 66.917 famílias, representando 66% do total do déficit. Trata-se de famílias com renda de até três salários mínimos que precisam destinar 30% ou mais do salário apenas para manter o lar.
Em seguida, está a habitação precária, que afeta 20.515 domicílios, o que equivale a 20% do total. Essa categoria inclui moradias construídas com materiais frágeis e domicílios improvisados em locais inapropriados para morar, como tendas ou viadutos. Por fim, há a coabitação familiar, realidade de 15.163 lares em que duas ou mais famílias compartilham o mesmo teto por necessidade financeira.
Ceilândia lidera o ranking com 18.352 domicílios em situação de déficit, seguida por Taguatinga, Samambaia e Planaltina. Os dados mostram ainda que 68,9% da população em situação de vulnerabilidade é negra e que mulheres são responsáveis pela chefia de 58,5% desses lares.
Outro lado
À reportagem, a Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (Codhab) informou que 308 mil pessoas estão inscritas nos programas habitacionais do órgão. Desse total, 132.037 já estão habilitadas para concorrer às moradias.
De acordo com a Codhab, a maior parte dos inscritos no programa se encontra em situação de vulnerabilidade, com remuneração de até três salários mínimos e famílias compostas por até oito pessoas. Para este ano, a única previsão de novas entregas é de 556 unidades habitacionais no Sol Nascente.
A companhia afirma que não há prazo entre a inscrição e a entrega de um imóvel. “O atendimento depende da pontuação na lista geral, da disponibilidade de novas unidades ou empreendimentos e do orçamento público”, esclareceu em nota.
Em 2023, foram disponibilizadas 2.143 unidades habitacionais. Em 2024, o número passou para 2.588 e, em 2025, chegou a 3.286 unidades. No primeiro semestre de 2026, a Codhab entregou 1.158 imóveis.
Como participar
Inscrições para o programa habitacional da Codhab podem ser feitas gratuitamente pelo portal da companhia ou pelo aplicativo Codhab Cidadão.
Podem participar pessoas maiores de idade ou emancipadas que tenham morado no DF nos últimos cinco anos ou que trabalhem no DF e residam em um dos municípios da região do Entorno.
O interessado não pode possuir imóvel residencial no DF ou na cidade onde mora. Também não pode ter sido beneficiado anteriormente por programas habitacionais de transferência de propriedade ou regularização fundiária. Deve ainda atender ao limite de renda estabelecido pelo programa.
Nas áreas urbanas, a renda familiar bruta mensal deve ser de até R$ 8 mil. Em programas financiados exclusivamente com recursos do Governo do Distrito Federal (GDF), o limite pode chegar a 12 salários mínimos. Já para moradores da zona rural, a renda familiar anual não pode ultrapassar R$ 96 mil.
A seleção dos candidatos leva em conta critérios como tempo de residência ou de trabalho no DF, tempo de inscrição nos programas habitacionais, número de dependentes, prioridade de berço e renda familiar.
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