Como as comunidades periféricas se arrefecem em Moçambique, em tempos de super El Niño?

18/08/2026 às 20:010 visualizações
Tomás de Azevedo Júlio e Maria da Penha Vasconcellos - Fotos: Arquivo pessoal
Tomás de Azevedo Júlio e Maria da Penha Vasconcellos - Fotos: Arquivo pessoal
Jornal da USP

Por Tomás de Azevedo Júlio, pós-doutorando do Centro de Síntese USP Cidades Globais do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, e Maria da Penha Vasconcellos, docente da Faculdade de Saúde Pública da USP e do IEA-USP

 Publicado: 18/08/2026 às 17:01
Tomás de Azevedo Júlio –
Tomás de Azevedo Júlio – — Arquivo pessoal
Tomás de Azevedo Júlio – Foto: Arquivo pessoal
Maria da Penha Vasconcellos –
Maria da Penha Vasconcellos – — IEA-USP
Maria da Penha Vasconcellos – Foto: IEA-USP

 

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Nos bairros periféricos de Moçambique, o calor de um super El Niño não encontra ar condicionado. Encontra chapa de zinco, quintais sem árvores e uma rede elétrica que oscila. A desigualdade térmica é menos uma questão de clima do que de renda, habitação e infraestrutura.

Em junho de 2026, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos elevou o alerta de vigilância para aviso de El Niño. Os modelos convergem para um evento forte, com probabilidade estimada em cerca de 63% de atingir a categoria de muito forte (aquilo a que a imprensa chama super El Niño) entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Para a África Austral, a experiência recente indica o que isso significa: o episódio de 2023–2024 deixou 68 milhões de pessoas afetadas pela seca na região e fez subir de 20% para 33% a proporção de moçambicanos em risco de insegurança alimentar.

A conversa pública sobre o El Niño organiza-se, quase sempre, em torno da chuva que falta e da colheita que se perde. É uma conversa legítima e incompleta. Falta-lhe o calor e, sobretudo, falta-lhe a pergunta de como é que uma família sem recursos para um aparelho de ar condicionado atravessa uma onda de calor dentro de uma casa de chapa.

Esta pergunta não é secundária. Ela revela que o sofrimento térmico, ao contrário do que a linguagem meteorológica sugere, não é distribuído pela atmosfera. É distribuído pela renda, pelo material do telhado, pela presença ou ausência de uma árvore no quintal e pela qualidade da corrente que chega à tomada. O El Niño não cria estas desigualdades: revela-as e amplifica-as.

As comunidades periféricas nesta reflexão induz em erro se for lida apenas como distância geográfica. Na literatura urbana moçambicana, a distinção clássica opõe a cidade de cimento à cidade de caniço: a primeira planejada, infraestruturada e servida; a segunda autoproduzida, densa e sem rede formal de serviços. Bairros como Chamanculo, Maxaquene ou Mafalala, em Maputo, situam-se a poucos quilômetros do centro e são, ainda assim, plenamente periféricos.

A periferia define-se, portanto, por privação acumulada e não por localização. Reúne, num mesmo território, habitação autoconstruída com materiais de fraco desempenho térmico, densidade populacional elevada, arruamentos sem pavimento, cobertura vegetal escassa, saneamento deficiente e ligação precária ou inexistente às redes públicas. Em Moçambique, mais de 70% da população reside em áreas rurais, mas o crescimento urbano faz-se sobretudo por adição destes bairros autoproduzidos nas franjas das cidades.

O conceito ganha densidade quando lhe acrescentamos a dimensão socioecológica. Uma comunidade em vulnerabilidade socioecológica é aquela cujos sistemas sociais e ecológicos foram simultaneamente degradados, de modo que a capacidade de absorver um choque externo depende de recursos que já não existem. Não há poupança para comprar um ventilador, não há árvore para dar sombra, não há vala de drenagem para escoar a chuva, não há posto de saúde próximo para tratar a criança desidratada. Quando a vaga de calor chega, encontra um sistema sem folga. É esta ausência de folga que distingue a periferia — é um evento que atravessa a casa, o corpo, o sono, a escola e o rendimento do dia seguinte.

Dupla exposição: Quando o clima encontra a economia

Em 2000, Karen O’Brien e Robin Leichenko publicaram na revista Global Environmental Change um artigo que propunha uma ideia aparentemente simples e analiticamente poderosa. Determinadas regiões, setores e grupos sociais, escreveram, serão confrontados simultaneamente pelos impactos das mudanças climáticas e pelas consequências da globalização econômica. Chamaram-lhe dupla exposição. O argumento central é que estes dois processos não se limitam a somar-se: influenciam mutuamente a exposição e a vulnerabilidade um do outro, e aceleram o ritmo da mudança.

O quadro é particularmente útil para pensar Moçambique porque desfaz uma ilusão persistente, a de que existe um problema climático que a política climática resolve e um problema econômico que a política econômica resolve. Na periferia moçambicana, os dois problemas são o mesmo problema visto de ângulos diferentes.

Consideremos os estressores não climáticos que compõem o lado econômico e institucional da dupla exposição. O produto interno bruto per capita de Moçambique rondava os US$ 450 em 2023, e o Banco Mundial descreve o período entre 2016 e 2025 como uma década perdida em termos de bem-estar, com queda de cerca de 8% no PIB per capita entre 2015 e 2024. O Índice de Desenvolvimento Humano situa-se em 0,461, na posição 183 entre 191 países. O coeficiente de Gini aproxima-se de 50, colocando o país entre os dez mais desiguais do mundo. Cerca de 71% da população vivia abaixo do limiar internacional de pobreza.

Estes números não descrevem um pano de fundo. Descrevem o mecanismo. Um agregado familiar que gasta a quase totalidade do rendimento em alimentação não tem excedente para bens de conforto térmico. O ar condicionado, nesse contexto, não é um bem caro: é um bem inexistente no universo de escolhas possíveis.

A primazia dos estressores não climáticos

Há uma tentação, no discurso sobre adaptação climática, de tratar o clima como variável dominante e as condições sociais como contexto. A evidência empírica sugere a inversão desta hierarquia. Aquilo que determina se uma vaga de calor se converte em crise sanitária não é, primordialmente, a magnitude da anomalia térmica. É a configuração dos estressores não climáticos que a recebem.

O caso mais bem documentado em Moçambique vem do bairro da Mafalala, em Maputo. Um estudo publicado em 2025 monitoriza, pela primeira vez, temperatura e umidade no interior de cinco habitações durante duas campanhas realizadas em 2023. Os resultados são inequívocos: em períodos quentes, algumas habitações atingiram 49°C no interior. O uso generalizado de chapa de aço galvanizado nas coberturas, e por vezes nas paredes, foi identificado como fator determinante. As habitações de blocos de betão apresentam maior inércia térmica, mas permanecem vulneráveis por deficiência de isolamento e ventilação.

O dado merece ser lido devagar. Quarenta e nove graus dentro de casa não é uma medida de desconforto. É uma medida próxima do limiar em que o corpo humano perde capacidade de termorregulação, sobretudo em crianças, idosos e pessoas com doença crônica. E o fator causal identificado não é o clima: é o material de construção, ou seja, a renda que determinou esse material.

Vale a pena enumerar os estressores não climáticos que, na periferia moçambicana, determinam a experiência do calor.

A renda condiciona todo o resto. Define o material da cobertura, a possibilidade de adquirir um ventilador, a capacidade de pagar a fatura de eletricidade e a margem para deixar de trabalhar num dia de calor extremo. Numa economia em que a maioria dos rendimentos é informal e diário, parar de trabalhar significa não comer.

A habitação traduz a renda em graus centígrados. Chapa de zinco sem teto falso, ausência de isolamento, dimensão reduzida do compartimento, ventilação cruzada inexistente e sobreocupação combinam-se para transformar a casa no ponto mais quente do bairro. A casa deixa de ser abrigo e passa a ser fonte de exposição.

Os equipamentos são, em rigor, uma consequência da renda e da rede. Mesmo quando uma família consegue adquirir um ventilador ou uma geladeira de segunda mão, a sua utilidade depende de uma corrente estável, o que nos conduz ao problema energético tratado adiante.

Tão importante quanto, o saneamento estabelece a ligação entre calor e doença. Em contextos de temperatura elevada, água armazenada em recipientes abertos, drenagem obstruída e resíduos não recolhidos aceleram a proliferação de vetores e a contaminação. O calor não mata diretamente na maioria dos casos: mata através da desidratação, da diarreia e da doença transmitida por água contaminada. Nenhum destes cinco fatores é climático. Todos determinam, de forma mais decisiva do que a anomalia de temperatura, quem sobrevive confortavelmente a um super El Niño e quem não sobrevive.

Que zonas de Moçambique serão mais atingidas

O Instituto Nacional de Meteorologia estabeleceu um padrão regional consistente para os episódios de El Niño em Moçambique. Nas regiões Sul e Centro, prevê-se risco elevado de chuvas irregulares com tendência abaixo do normal e temperaturas acima da média climatológica. Na região Norte, a probabilidade aponta para chuvas regulares com tendência acima do normal.

A assimetria é relevante para a análise do calor. As províncias do Sul e do Centro (Gaza, Inhambane, Maputo, Sofala, Manica e Tete) combinam o déficit de precipitação com a anomalia térmica positiva. É a conjugação mais desfavorável possível: menos água disponível para consumo, higiene e arrefecimento evaporativo, num período de temperaturas mais altas.

A energia: Um sistema hidráulico exposto à seca

Existe uma ironia estrutural na situação moçambicana que merece exposição cuidadosa. O país que precisa de energia para arrefecer depende, para produzir, do mesmo recurso que o El Niño escasseia: a água.

A Hidrelétrica de Cahora Bassa, na província de Tete, concentra 2075 MW dessa capacidade e é a terceira maior central hidrelétrica de África.

Dois terços da produção da maior central do país destinam-se à exportação. O Governo prevê a reversão deste contrato em 2030, com o objetivo declarado de repatriar entre 8 e 10 TWh atualmente exportados.

A sequência lógica é direta e preocupante. Um super El Niño reduz a precipitação nas bacias que alimentam as albufeiras. A redução do armazenamento diminui a capacidade de geração. A diminuição da geração ocorre num sistema que já opera próximo do limite, pressionado simultaneamente pela procura interna crescente e pelos compromissos de exportação regional. O resultado da qualidade do fornecimento.

Esta última expressão merece tradução concreta. Qualidade de energia significa tensão estável e frequência constante. Ventiladores, geladeiras e aparelhos de refrigeração são particularmente sensíveis a variações de tensão: subtensões prolongadas danificam compressores e motores. Para uma família da periferia, a avaria de uma geladeira adquirida com meses de poupança não é um contratempo, é a perda de um ativo insubstituível e o fim da possibilidade de conservar alimentos e água fresca.

Acresce a questão do acesso. A taxa de acesso doméstico à energia elétrica progrediu de 36,8% em 2020 para 61,4% em 2025, resultado do Programa Energia para Todos. É um avanço assinalável. Mas significa que cerca de quatro em cada dez moçambicanos permanecem sem ligação, e a distribuição é profundamente desigual: em 2020, apenas 4,5% da população rural tinha acesso à eletricidade, contra 75% da população urbana. Para estes agregados, a discussão sobre eficiência de equipamentos de arrefecimento é abstrata. Não existe equipamento porque não existe corrente.

Aqui a dupla exposição de O’Brien e Leichenko manifesta-se na sua forma mais nítida. O estressor climático, a seca induzida pelo El Niño, atua sobre um estressor não climático preexistente, a dependência hidrelétrica combinada com compromissos de exportação e cobertura incompleta da rede.

Como se arrefecem, então

Perante a ausência de arrefecimento mecânico, as comunidades periféricas desenvolveram um repertório de estratégias que a literatura designa por adaptação autônoma. Vale a pena registrá-lo sem romantismo: trata-se de engenho sob constrangimento, não de solução.

A gestão do tempo é a estratégia mais difundida. Desloca-se a atividade doméstica e produtiva para as primeiras horas da manhã e para o fim da tarde, evacuando o período central do dia. Dorme-se no exterior, no quintal ou na varanda, quando a temperatura interior não desce durante a noite, o que é frequente, dado que a chapa reirradia calor acumulado durante horas após o pôr do sol.

A gestão do corpo inclui banhos sucessivos, roupa úmida, redução da atividade física e aumento do consumo de água. Esta última prática depende, evidentemente, da disponibilidade de água segura, que o El Niño precisamente reduz.

A gestão do espaço traduz-se na procura ativa de sombra coletiva: a árvore do bairro, o alpendre do vizinho, o interior do mercado. A sombra funciona, nestes contextos, como bem comum e a sua distribuição desigual entre bairros é uma questão de justiça ambiental raramente tratada como tal.

Estas estratégias têm um custo que raramente é contabilizado. Deslocar o trabalho para fora das horas de calor reduz o rendimento diário. Dormir mal degrada a saúde e o desempenho escolar.

Reduzir a atividade física em contexto de trabalho informal significa, muitas vezes, não trabalhar. A adaptação autônoma funciona, mas consumindo o capital humano e econômico de quem a pratica. É adaptação que empobrece.

Alternativas de adaptação orientadas ao calor

Se o diagnóstico identifica os estressores não climáticos como determinantes, então a resposta deve incidir sobre eles. Quatro linhas de intervenção merecem consideração, ordenadas por relação entre custo e efeito.

A primeira é a intervenção na envolvente construtiva, e é a que apresenta melhor relação custo-benefício.

A segunda é a arborização orientada. Plantar árvores não é ornamento urbano: é instalação de infraestrutura de arrefecimento com custo de operação baixo.

A terceira é a criação de espaços públicos de refúgio térmico. Escolas, centros comunitários, mercados cobertos e unidades sanitárias podem ser adaptados para funcionar como pontos de arrefecimento durante episódios de calor extremo, à semelhança do que ocorre com abrigos em situações de ciclone.

A quarta é o arrefecimento descentralizado por via solar. Em comunidades sem ligação à rede ou com fornecimento instável, sistemas fotovoltaicos autônomos dimensionados para ventilação e refrigeração básica contornam simultaneamente o problema do acesso e o da qualidade da energia.

A estas acresce uma dimensão institucional transversal. Os sistemas de aviso prévio moçambicanos foram construídos, com mérito reconhecido, para ciclones e cheias, eventos de início súbito e efeito visível. O calor extremo tem outra assinatura: instala-se lentamente, não destrói a infraestrutura e mata de forma dispersa e mal atribuída.

A pergunta com que este texto começou (como as comunidades periféricas se arrefecem em Moçambique, em tempos de super El Niño?) tem, no fundo, uma resposta desconfortável. Arrefecem-se mal, à custa do próprio sono, do próprio rendimento e da própria saúde. E continuarão a arrefecer-se mal enquanto a política de adaptação climática for pensada como política de clima, e não como política de habitação, de solo urbano, de saneamento e de energia.

 
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