Postura retraída pode favorecer estados emocionais negativos — Insubornavel

Postura retraída pode favorecer estados emocionais negativos

Por Luis Martins*24/08/2026 às 10:301 visualizações
Foto: nikitabuida/Magnific
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Foto: naiznanku.com / Jornal da USP
🎙 Luis Martins* · Jornal da USP

Especialista explica como a comunicação entre corpo e cérebro pode influenciar o humor, a atenção e a resposta diante de diferentes situações

 Publicado: 24/08/2026 às 7:30
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Relação entre postura, emoções e comportamento vai além do humor –
Relação entre postura, emoções e comportamento vai além do humor – — nikitabuida/Magnific
Relação entre postura, emoções e comportamento vai além do humor –  Foto: nikitabuida/Magnific
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A postura corporal não está relacionada apenas à forma como somos percebidos. Corpo e cérebro se comunicam continuamente, e a maneira como nos posicionamos fisicamente pode estar associada à forma como sentimos, pensamos e reagimos a diferentes situações. Essa relação ocorre nos dois sentidos: emoções podem modificar a postura, enquanto determinados padrões corporais também podem influenciar a experiência emocional. Uma postura mais encurvada ou retraída, por exemplo, pode estar associada a estados emocionais negativos. Essa relação é conhecida como feedback corporal e vem sendo investigada por pesquisadores.

A relação entre postura e emoções é estudada há anos pela ciência, que busca compreender como alterações na posição do corpo e nos movimentos podem estar associadas a diferentes estados emocionais, como depressão e ansiedade. Doutora em Psicologia e professora da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, Priscila Brust-Renck explica como essa relação funciona e destaca que mudanças na postura podem estar associadas à experiência emocional.

“Modificações simples na postura podem estar relacionadas diretamente ao nosso estado emocional. Durante alguns anos, pesquisadores já observaram que a postura física é uma importante pista nos relatos individuais de depressão, por exemplo. Um indivíduo que apresenta uma postura curvada e deprimida por um longo tempo pode futuramente vir a desenvolver depressão em comparação com indivíduos que têm uma postura mais expansiva e ereta. Essas descobertas sugerem que as posturas físicas são um dos vários tipos de pista que podem afetar a experiência emocional e o comportamento”, afirma a especialista.

A relação entre corpo e emoções, no entanto, não acontece em uma única direção. Se sentimentos como tristeza, ansiedade e desânimo podem modificar a maneira como nos posicionamos, o caminho inverso também pode ocorrer. A postura adotada pelo corpo fornece ao cérebro informações sobre o estado físico do organismo e, a partir dessa comunicação, pode influenciar a experiência emocional.

Priscila Brust-Renck –
Priscila Brust-Renck – — Arquivo pessoal
Priscila Brust-Renck – Foto: Arquivo pessoal

Essa comunicação envolve tanto informações provenientes do ambiente externo quanto sinais internos do próprio organismo, relacionados à interocepção, capacidade de perceber sensações como respiração, batimentos cardíacos e tensão muscular.

“Essas vias interoceptivas têm um papel muito importante quando a gente começa a perceber que a nossa respiração começa a mudar, que a nossa tensão muscular começa a mudar, e todas elas estão ligadas à nossa regulação afetiva. Quando adotamos uma postura ereta, aumentamos a precisão com que percebemos o nosso estado corporal interno. E consegue engajar a nossa atenção em relação ao nosso corpo e às nossas posturas, evitando diretamente uma postura curvada ou encolhida”, reforça Priscila. 

A percepção que cada pessoa tem do próprio corpo também pode interferir nessa relação. Segundo Priscila, indivíduos com maior consciência corporal tendem a perceber esses sinais internos com mais precisão e podem utilizá-los como pistas para regular suas emoções. Já pessoas com menor percepção corporal podem ter mais dificuldade para interpretar esses sinais e utilizá-los na autorregulação emocional.

“Podemos utilizar esse entendimento interoceptivo para melhorar a nossa postura e buscar alguns benefícios, como evitar o encurvamento, evitar se fechar e evitar essas posturas que podem gerar sintomas de tristeza e depressão. Já indivíduos com menos conhecimento corporal podem ter mais dificuldades de regular essas emoções”, completa.

A influência da postura, no entanto, pode ir além da regulação emocional e também interferir na forma como percebemos e respondemos ao ambiente. A percepção dos estados internos do corpo pode alterar nossa atenção, pensamentos e a maneira como lidamos com situações novas. Em uma situação de perigo, por exemplo, uma postura mais fechada pode ser uma resposta adaptativa, ajudando a manter a atenção aos sinais do ambiente. Porém, quando esse estado é mantido diante de situações que não representam uma ameaça real, pode favorecer emoções negativas e dificultar algumas possibilidades de reação.

“Além de ajudar a regular as emoções, a interocepção, que é a nossa percepção dos sinais internos do organismo, também influencia fortemente o comportamento. Quando percebemos agitação, taquicardia ou tensão muscular, tendemos a desenvolver mais pensamentos negativos. Em uma situação de perigo, essa resposta pode ser adaptativa, porque nos deixa mais atentos aos sinais do ambiente. Porém, quando adotamos uma postura mais encurvada diante de uma situação que não representa um perigo real, podemos aumentar o afeto negativo, reduzir a eficiência do cérebro e ter mais dificuldade para acessar memórias e informações necessárias para lidar com situações novas. Nesse caso, a postura não está apenas refletindo ou gerando um estado emocional, mas também restringindo algumas possíveis ações”, explica a especialista.

Apesar das possibilidades apontadas pelos estudos, a relação entre postura e emoções não significa que seja possível controlar deliberadamente o estado emocional apenas mudando a posição do corpo. Os efeitos também dependem do contexto e da capacidade de cada pessoa de perceber e utilizar os próprios sinais corporais. 

“Grande parte das pessoas não consegue fazer isso deliberadamente. Nesse sentido, há ainda necessidade de mais pesquisas para entender o quanto a gente consegue realmente ter uma diferenciação emocional, o quanto a gente consegue mudar os diferentes padrões de movimento corporal sistematicamente para realmente permitir essa diferenciação emocional”, finaliza Priscila Brust-Renck.


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