Por que as mulheres estão priorizando as amizades em vez de amor? — Insubornavel

Por que as mulheres estão priorizando as amizades em vez de amor?

Von BdF Entrevista01/09/2026 às 23:341 Aufrufe
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Brasil de Fato

Nos últimos anos, a busca de mulheres por reorganizar suas redes de afeto, priorizar amizades e construir comunidades tem ganhado força como resposta à precarização do trabalho, à sobrecarga invisível do cuidado e a uma crescente epidemia de solidão.

A socióloga Eliane Gonçalves, especialista em gênero e sexualidade, explicou que essa mudança não é apenas uma escolha individual. Trata-se de um fenômeno social e coletivo de sobrevivência. Diante de cidades desiguais e da exaustão causada por extensas jornadas de trabalho, as mulheres têm se unido para produzir sentido e solidariedade em que o Estado, muitas vezes, falha em prover. A idealização do conceito de família não encontra eco na realidade cotidiana. “É um pouco como uma tábua de salvação, mas também uma forma de organização política”, define ao BdF Entrevista.

“Produzir espaços de solidariedade umas com as outras, em diferentes classes sociais, em diferentes momentos históricos. Como isso tem sido denominado, como isso tem sido tratado pela sociedade, eu acho que é um tema muito relevante. E podemos falar da amizade, podemos pensar nos espaços onde a amizade floresce e como a amizade tem sido negada às mulheres, porque é muito difícil realizá-la na situação de divisão do trabalho que a gente tem”, analisa.

A análise de Gonçalves aponta para uma contradição histórica: embora as mulheres tenham conquistado direitos públicos importantes recentemente, como educação e trabalho remunerado, não houve uma contrapartida social ou estatal que dividisse a responsabilidade pelo trabalho doméstico e de cuidado de crianças e idosos. “Mesmo tendo conquistado gloriosamente o direito ao trabalho remunerado, o direito à educação, o direito a ter carreiras, elas têm esse fardo. Isso é muito antigo. Isso já se chamou dupla opressão, dupla jornada. Aí viu que isso era inadequado, porque, na verdade, não tem dupla, não tem tripla: você tem múltiplas camadas de exaustão”, relata.

Eliane Gonçalves também problematiza a questão do cuidado, historicamente, ter sido colocado como uma responsabilidade que não faria parte do universo dos homens. E ela alerta que é mais do que simplesmente dizer que é machismo. “Aquilo que é estrutural é invisível. A gente chama de DNA social”, avalia.

Para a socióloga, a saída para essa crise civilizatória não está em discursos conservadores que tentam idealizar um passado inexistente, mas, sim, no reconhecimento de que o isolamento é uma ilusão. “A gente precisa uns dos outros, ponto final, e quanto maiores, mais competentes e mais estruturadas forem as redes, melhor para todas as pessoas”, defende. “Nós não podemos pensar na nossa vida como seres individuais. O indivíduo é uma ficção.”

Como um caminho possível, Gonçalves defende que “as respostas estão nas nossas capacidades de criar modos de vida, de recriar coisas e condições de emancipação para homens e mulheres, para jovens e adultos, para crianças e velhos, e isso tem que ser uma insistência, isso tem que estar no nosso horizonte, nós não podemos descuidar”, resume.

Confira a entrevista completa:

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Quelle
Brasil de Fato
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