Brasil terá que equilibrar autonomia e relações com EUA e China, dizem especialistas — Insubornavel

Brasil terá que equilibrar autonomia e relações com EUA e China, dizem especialistas

01/09/2026 às 22:101 بازدید
Foto: AVISO: midia estatal russa / Sputnik Brasil
Apesar da disputa eleitoral no Brasil continua incerta, é possível especular e buscar entender como um próximo governo brasileiro atuará em meio as últimas notícias na América Latina. O fenômeno da "Onda Azul" já dá a cara que o chefe do Executivo terá que dialogar com muitos governos de direita e conservadores, como na Argentina de Javier Milei, no Chile de Antônio Kast ou na Colômbia de Abelardo de la Espriella.
Em particular, o tema de terras raras e minerais críticos e a disputa por reservas pelo cenário geopolítico também colocam o Brasil no interesse de outros países, sobretudo, entre China e Estados Unidos. No Mundioka, podcast da Spuntik Brasil, especialistas debatem o que um futuro governo do Brasil terá que lidar após 2026.
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Uma América Latina mais heterogênea

Além da orientação ideológica do próximo governo, Lier Pires, pesquisador do Nubrics da Universidade Federal Fluminense destaca que Brasília terá pela frente um cenário regional mais fragmentado do que em períodos anteriores. Em um cenário de maioridade de governos conservadores, isso tem criado obstáculos adicionais para a atuação brasileira, sobretudo durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
"O que nós conhecemos como 'Onda Azul' vem fazendo com que este Brasil, principalmente o Brasil de Lula, encontre diferenças e dificuldades maiores do que no passado", explica. "A fragmentação política do continente com esse avanço de governos mais alinhados com os Estados Unidos [...] reduziu o espaço de articulação que o Brasil tinha ou teve em momentos pretéritos".
Esse cenário pode ganhar ainda mais importância diante das discussões sobre segurança pública e combate ao crime organizado. Pires ressalta que as diferenças políticas entre os governos podem dificultar a construção de iniciativas conjuntas, além da presença crescente dos EUA na região. A Venezuela, sobretudo, aparece como um dos principais exemplos dos limites enfrentados atualmente pela diplomacia brasileira.
Durante o governo Lula, Brasília apostou no diálogo e na mediação para tentar reduzir as tensões envolvendo o governo de Nicolás Maduro e evitar uma escalada que pudesse levar a uma intervenção militar dos Estados Unidos. Porém, a estratégia não alcançou os resultados esperados.

"Aquela aposta no diálogo [...] visando a impedir uma intervenção militar norte-americana, não se materializou."

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Na avaliação dele, o episódio expõe "a perda de capacidade de influência real, objetiva, concreta do Brasil no contexto hemisférico", especialmente depois da volta de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos.
Apesar das dificuldades, o Brasil ainda possui condições de exercer uma posição de liderança regional. O problema está na capacidade de transformar essa liderança potencial em influência efetiva. O resultado das eleições, portanto, poderá determinar não apenas a orientação ideológica da política externa brasileira, mas também a estratégia utilizada por Brasília para recuperar espaço em uma região mais dividida.

Posição brasileira dentro da disputa EUA x China

Segundo Robson Valdez, pesquisador do Núcleo de Estudos Latino-Americanos (NEL) da Universidade de Brasília (UnB), um possível governo brasileiro mais alinhado aos Estados Unidos afetaria relações já consolidadas. Em destaque, México e China não seriam deixadas de lado, mas tampouco o Brasil teria a vontade de ampliar acordos com esses países.
Em relação a China, em especial, há ainda a disputa por terras raras entre Washington e Pequim. O Brasil possui grandes reservas de terras raras e minerais críticos – cerca de 23% das reservas globais – e que Brasília tenta utilizar esse potencial para atrair investimentos sem abrir mão do processamento e da tecnologia no país. "O governo Lula entende que não só os Estados Unidos, mas o Ocidente, vem tentando diminuir a sua dependência em relação à China no que diz respeito à obtenção desses minerais".
"O governo tem deixado isso claro, que está disposto a trabalhar com qualquer país que aceite essas condições que o Brasil vem tentando colocar nesses planos."
Essa disputa internacional, na visão de Valdez, cria uma oportunidade para o Brasil, que acaba sobressaindo-se como um "grande vencedor colateral dessa disputa, porque Brasil e Estados Unidos disputam vários segmentos do mercado chinês".
Nesse contexto, o principal desafio do presidente eleito será buscar o desenvolvimento do Brasil preservando a autonomia de decisão do governo brasileiro, mantendo relações com os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, preservando espaço para negociar com a China e outros parceiros.
Além disso, Valdez também projeta mudanças na agenda do Mercosul. Em caso de continuidade do governo Lula, ele prevê a implementação do acordo entre Mercosul e União Europeia, a ampliação da parceria com Cingapura e o avanço das negociações com Canadá, Japão e Vietnã. "A ampliação do alcance do acordo comercial do Mercosul com outros parceiros, eu acho que é um caminho sem volta", afirma.
A diversificação comercial, segundo ele, ganha importância diante de um cenário internacional mais protecionista, vendo que a pressão exercida pelo governo Trump acabou acelerando a aproximação entre Mercosul e União Europeia. "O acordo Mercosul e União Europeia [...] acaba sendo uma forma de manter canais para diversificar parceiros diante de um governo norte-americano cada vez mais coercitivo e atuando cada vez mais de uma forma unilateral".
"Manter um distanciamento sem quebrar os canais de diálogo com os Estados Unidos, evitando a pressão e preservando a autonomia genuína do governo brasileiro, acho que vai ser um dos maiores desafios para o próximo presidente."
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