A nova pesquisa sobre Marte, publicada em uma renomada revista científica, reforça que o planeta não é internamente simétrico, como muitos cientistas assumiam. Dados recentes revelam que o hemisfério sul abriga um ponto quente profundo, com temperaturas até 400 °C superiores às do hemisfério norte, indicando diferenças estruturais significativas no interior marciano.
O estudo, liderado por Alexander Berne, revisitou medições de três sondas da NASA para detectar variações sutis no campo gravitacional do planeta. A partir da técnica de "tomografia de maré", a equipe inferiu que o manto sul é muito mais quente e possivelmente parcialmente fundido, o que pode influenciar tanto a atividade vulcânica quanto a potencial habitabilidade de Marte.
© Foto / ESA/MOLA Science TeamUm mapa em cores falsas da superfície de Marte mostrando a Bacia de Hellas, a grande região azul-escura abaixo do centro, uma das maiores crateras de impacto identificadas tanto em Marte quanto no sistema solar. Acredita-se que ela tenha se formado há cerca de 4 bilhões de anos

Um mapa em cores falsas da superfície de Marte mostrando a Bacia de Hellas, a grande região azul-escura abaixo do centro, uma das maiores crateras de impacto identificadas tanto em Marte quanto no sistema solar. Acredita-se que ela tenha se formado há cerca de 4 bilhões de anos
© Foto / ESA/MOLA Science Team
Essa assimetria interna dialoga com a já conhecida dicotomia superficial do planeta: o norte é composto por planícies baixas, enquanto o sul apresenta crosta mais espessa e terrenos elevados e caracterizados. Essa diferença pode ter moldado a hidrologia antiga de Marte, inclusive a formação de bacias capazes de reter água.
© Foto / ESA/DLR/FU BerlinVista aérea das dunas formadas pelo vento na Cratera Kaiser, uma bacia de impacto com 207 quilômetros de diâmetro nas terras altas do sul de Marte

Vista aérea das dunas formadas pelo vento na Cratera Kaiser, uma bacia de impacto com 207 quilômetros de diâmetro nas terras altas do sul de Marte
© Foto / ESA/DLR/FU Berlin
A temperatura elevada no manto sul também ajuda a explicar observações anteriores. A missão InSight detectou que ondas sísmicas se dissipam mais rapidamente nessa região, e minerais ferrosos do sul exibem anomalias magnéticas que agora se encaixam melhor no novo modelo térmico.
Há bilhões de anos, Marte possuía um campo magnético global, de acordo com os cientistas. O aquecimento da crosta acima da temperatura de Curie no hemisfério sul pode ter apagado magnetizações antigas e criado os remanescentes magnéticos hoje observados, oferecendo pistas sobre a evolução geológica do planeta.
A origem da dicotomia norte-sul, porém, permanece incerta. Uma hipótese dominante sugere que um impacto colossal no passado remoto teria escavado a bacia do norte, acelerando o resfriamento do manto nessa região e deixando o sul relativamente mais quente.
Outra possibilidade é que a crosta mais espessa do hemisfério sul tenha funcionado como uma barreira térmica, retendo calor interno e impedindo a ascensão do magma. Essa ideia pode ser testada com dados gravitacionais de maior resolução, capazes de revelar intrusões magmáticas subterrâneas.
A técnica de tomografia de maré abre caminho para investigações semelhantes em outros corpos do Sistema Solar. À medida que novas medições de gravidade forem obtidas, será possível reconstruir modelos tridimensionais mais precisos da estrutura interna de planetas e luas, orientando futuras missões e estratégias de exploração científica.


